É tudo diversão e jogos até que

Acontece que eu queria escrever coisas mais significantes pra mim mesmo e pros outros. Comecei o ano com essa prepotência em mente. Logo eu, que me culpei por não escrever uma retrospectiva (embora fosse só pra não passar mais vergonha mesmo).

Desisti, obviamente. Talvez haja alguma crônica vez ou outra, mas não vai sair com tanta naturalidade quanto eu queria e tenho precisado evitar que as pessoas achem que vou me matar a qualquer momento também, é uma boa não ser tão introspectivo assim nessas horas.

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Daí outro dia, perguntei aos amigos do facebook se alguém tinha uma bola de basquete sobrando em casa, parada, pra doação. Foi quando C. me disse que tinha uma, combinamos e fui pegar na portaria da casa dela, com Danilo já querendo marcar um basquete no sesc no próximo fim de semana.

Pois bem, o basquete no sesc rendeu duas coisas: a) total compreensão de que estes caras que usam roupas de basquete incríveis só fazem pressão mesmo e sabem jogar apenas o suficiente pra não serem tidos como completos farsantes e b) um tornozelo estourado.

Segundo uma médica super simpática (sem ironias aqui) tive 60% do tendão comprometido e podia escolher entre operar ou ficar com uma tala por três semanas. Ficar andando por aí mancando não ia rolar e eu ia estragar ainda mais as coisas. Segundo um outro médico super simpático (cheio de ironias aqui) eu nunca mais ia poder andar direito se escolhesse a cirurgia.

Shit got serious, dude.

Ela falando sobre como tinha que ficar a posição do meu pé em casa e eu pensando em como iam receber essa notícia no escritório e em como eu ia conseguir tirar o carro do estacionamento. Agradeço a Deus que meus melhores amigos sejam realmente melhores em tudo e que a agência tenha sido extremamente compreensível com este atestado de trinta dias (que no começo parecia férias, mas hoje já está me dando nos nervos pra ser bem sincero).

E então foi isso, fiquei em casa o tempo todo desde então, tirando o primeiro final de semana em que eu tive que ir pro interior tocar num casamento trans maneríssimo, detalhes no post seguinte (caso eu esteja mesmo imbuído do espírito blogger e escreva outro post logo na sequência).

Acho que não preciso dizer as vantagens de estar em casa. Trouxe meus livros pra perto, assisti a terceira temporada de Z Nation e assinei um pacote da net com velocidade suficientemente boa pra pensar em pagar o netflix novamente (continuar usando a conta dos outros depois de cortarem relações com você não me parece uma boa ideia).

Os lados negativos começam óbvios também. Passo os dias na cama e no sofá, comendo e sem fazer qualquer tipo de atividade, logo 🐳. Consegui as muletas de M. pra andar por aqui sem apoiar o pé e conseguir fazer minhas coisas, mas mesmo assim está meio difícil arrumar as coisas dos gatos, tomar banho e, bem, viver.

Neste meio tempo descobri vizinhos bem legais também (além dos que eu já conhecia). Preciso falar sobre a mudança também, só não aguardem tantos posts assim de uma vez CALMA CARAS.

Sabe aquele negócio que dizem que a gente só conhece quem tá mesmo do nosso lado quando as coisas apertam? Acho que a gente não vive isso de um jeito mais prático do que ficando internado em casa. É nessa hora que as pessoas para quem você é apenas mais um se mostram realmente distantes e seus amigos estão do seu lado, mandando mensagens, entendendo suas necessidades, ou apenas sendo pessoas ótimas mesmo.

As bandas estão todas paradas, embora possa acabar rolando um ensaio aqui em casa nesse ínterim. G. manda suas músicas pelo whatsapp, acho que R. vai seguir a mesma linha. Tive de cancelar os shows do dia 11 e 12, todos entenderam bem. Depois do primeiro final de semana eu vi realmente como seria complicado ir pro mundo com o pé cheio de gesso, então achei melhor cancelar tudo.

Não posso deixar de agradecer meus pais nunca porque não fossem eles eu não teria como fazer compras pra sobreviver todos esses dias, nem arrumar a casa decentemente.

Sério, eles são maravilhosos.

Então é isso. Sigo aqui até melhorar e esperando que o INSS não seja tão burocrático assim (HAHAHAH) porque meu aluguel ainda não se paga sozinho infelizmente. E que 2017 seja um ano de se redescobrir completamente (já tirei o basquete da lista, podem ficar tranquilos).

Who Watch the Weight Watchers?

Eventualmente penso sobre obesidade. Ressalto o ‘eventualmente’ no começo do texto porque (a) sou obeso e deveria pensar nisso com maior frequência, (b) porque estou perto de chegar na era dos heart diseases e (c) estou adiando a fase ‘tomar medidas desesperadas’ desde os 19 anos.

E aí, navegando nesse infinito oceano de leituras diárias, caio em algum blog de moda falando sobre modelos plus size, que reúne no pacote post + comentários basicamente as mesmas três vertentes:

1. Você não pode ser feliz, ainda que se aceite como gordo, como bem diz o guest post de ontem da Yohana, no Escreva Lola Escreva.


2. Pessoas obesas e modelos Plus Size são culpadas por afetar sua saúde, estão completamente erradas em se exaltar como gordos e não podem ter direito a tratamento especial, principalmente, repito, PRINCIPALMENTE no campo da moda.


3. Preconceito contra gordos, pff, isso é coisa criada pela baixa auto-estima que eles mesmos se impõem.

E então leio o comentário de um sujeito da minha altura e com metade do meu peso (outro tema importante: em qualquer post sobre obesidade, as pessoas dizem suas medidas como se pedissem uma análise pessoal ao autor). Se as pessoas se consideram gordas com metade do meu peso, em que setor eu poderia me considerar? Das anomalias? Dos monstros gigantes vilões do bem estar?

Óbvio que eu sei, amigo, extrapolei todas as estimativas que minha mãe e meu antigo endocrinologista faziam quando tinha 14 anos, mas ora, não entendo como um sujeito desse possa se considerar gordo.

Se todos são heróis, ninguém mais é herói. Aplica-se também neste mundico. Não existia essa febre até que as lojas de departamento começaram a colocar roupas para adolescente nas seções de adulto. Foi assim que todo um mundo de pessoas com alguma pequena porcentagem de gordura corporal sobrando ganhou a síndrome de pequeno gordo. Com todo mundo se achando gordo, os realmente gordos ficam relegados a esse status de escrotos da humanidade.

Não serei aqui moralista pra dizer que sofro preconceito, porque isso sim é bullshit das grandes. Nada do que um gordo sofre define preconceito. Nego não me olha na rua e faz associações ridículas do tipo ‘esse gordo deve ser muito burro’, para dar um exemplo banal (embora na praça de alimentação sempre role aquele climão ‘olha lá o gordo na fila, depois não sabe porque’).

Get over it. O mundo está apenas não adaptado às pessoas que estão fora da média. E nós sabemos disso, pois frequentamos lojas de roupas especiais e preferimos comer no Drive Thru para não ter de encarar olhares e risinhos de sempre (sempre, isso é sério). Portanto, se você acha que é gordo, faça três perguntas a si mesmo: (a) Consigo eu dividir um banco de ônibus tranquilamente com esse indivíduo do meu lado? (b) consigo eu entrar no banco de trás de qualquer carro de duas portas sem problemas? e (c) consigo eu sair da C&A com alguma peça de roupa que me caiba? Em caso afirmativo a pelo menos duas dessas perguntas, reveja seus conceitos e nos deixe em paz.