Bonde da Bagacera

em um mundo ideal, esse post estaria no Somente Bares Legais

Aconteceu num daqueles dias em que a gente coloca o almoço em modo aleatório. Caí numa reentrância de Santo Amaro em que os comerciantes solitários quase imploravam por um fim de semana de movimento decente. Passava das duas da tarde, eu caminhava até o ponto de ônibus depois de ter tomado a linha errada. Precisava de algo que se parecesse com almoço para segurar a tarde e as únicas opções girando na minha TV de cachorro eram o MC Donalds, uma conveniência e o bar mais improvável do mundo. Não preciso dizer em qual deles eu entrei.

Na entrada não principal de passantes, estava posicionada uma estufa com pequena sorte de salgados, além de uma possível atualização do tumblr de risoles. Eu poderia pedir um comercial com fritas, mas isso não faz a menor diferença. Poderia sentar numa mesa ao invés do balcão e isso também não faz a menor diferença. Poderia ter perguntado se a moça de bigode e boné trucker esquentaria os salgados num micro-ondas, o que também não faria a menor diferença.

O bar se assemelhava bastante a um grande salão de danças típicas, tendo em vista a enorme quantidade de vinis de música brega expostos numa espécie de palco (que durante o horário de almoço é improvisado como uma área vip, talvez, veja foto abaixo). Naquele momento assisti a uma cena mental de tiozinh@s dançando sem parar, risada demais, bebidas fortes e sinceras, essas coisas práticas que fazem da vida algo menos injusto.

Vista lateral do palco/área vip

Sentado no balcão a espera do ketchup, eu notava a idade das garrafas em exposição nas prateleiras, quando comecei a prestar atenção numa conversa paralela entre a moça do balcão e outra garota que talvez trabalhasse nas proximidades e talvez almoçasse ali diariamente. Zé povinho é o cão, tem esses defeitos. Tá certo que não foi como se eu tivesse parado tudo o que estava fazendo para prestar atenção numa conversa, a realidade é que estávamos em tão poucas pessoas que qualquer diálogo seria nosso e não mais particular. Perder privacidade também é uma tendência no mundo das pessoas reais.

A quase tia do balcão demonstrava claros sinais que solidão nas tardes, enveredando assuntos sobre como saía do trabalho à 1h da manhã e tinha que levar seus filhos para a escola às seis. A moça parecia levemente perturbada com o final de seu horário de almoço tentando se esvair da conversa. Ao se despedir e colocar um pé do lado de fora do bar, a quase tia lhe ofereceu um serviço extra, um bico para quando ela quisesse trabalhar de garçonete, coisa simples de atender mesas, lavar louças e servir risoles de queijo. Ela voltou e acionou o humor “agora tá falando a minha língua”. Conversaram por mais alguns minutos, ela aceitou meio sem jeito, mas a tia ainda disse pra ela pensar bem na proposta.

Em que outro lugar do mundo alguém te oferece um emprego de trás do balcão, a sério? (Tia, liga nóis). Foi então que, terminado o risole, eu dei uma boa olhada para o lugar que escolhi para me alimentar. Primeiro para uma senhora, sentada numa mesa, lembrei que ela me olhava do lado de dentro do bar numa posição estratégica da mesa mesmo antes de eu atravessar a rua para entrar. Com certo pânico, afinal, o Datena tá aí pra provar que existem assassinos em potencial em cada ponto de ônibus do Brasil.

Duas mesas atrás, um cara, sentado, tomando um guaraná e comendo solo um prato feito. Ao seu lado, na cadeira, um gato branco que recebia eventuais carinhos entre uma e outra garfada. Parecia bem à vontade, o gato. Presumo que o cara também. Foi aí que riscaram o vinil da realidade. Eu assistindo aquela repetição de garfada/afago, ao mesmo tempo em que mordia a coxinha sem parar e o recheio não chegava nunca. Sério, uma série de mordidas. Provavelmente era o disco da vida voltando ao mesmo lugar, o tempo parando, coisas do tipo. E aí comecei a olhar o palco improvisado repleto de capas e discos colados na parede, uma jukebox surrada pelo tempo e uma TV de tubo. Aquele bar se perdeu em algum lugar no espaço tempo que desencadeou essa espécie de purgatório gente fina nos confins de Santo Amaro. Não teria lugar melhor para essa sucursal.

Outro gato

O balcão era estiloso e rústico, com prateleiras gigantes demais, o que fazia o dono ter de guardar garrafas vazias apenas para fazer volume. Sério, algumas garrafas de Montilla pareciam já ter idade pra dirigir. Foi neste momento que uma lata de Pitu Cola me trouxe de volta à realidade, talvez meu tótem para sair do outro nível de realidade seja uma latinha de Pitu Cola, um dia saberemos. A verdade é que me perdi no rótulo confuso. E paguei meus pecados nos quatro reais mais bem gastos da vida.

Tive de ir até o banheiro, porque a essa altura já estava cogitando marcar meu aniversário naquele lugar, calcule. Perguntei meio que sabendo onde era, precisava criar alguma intimidade com aquela pessoa de gênero feminino e bigode atrás do balcão. Era nos fundos. No corredor com luz, ela me aponta. Eu não entraria num corredor sem luz. Sério. E ainda que ela não tivesse dito, uma seta gigante pintada à mão na parede me faria entender que era por ali.

É invasivo ter de entrar num banheiro já utilizado e possivelmente sem descarga, tendo em vista os corpos boiando numa água já um tanto alta. Dá pra começar a pensar no trabalho sujo que a quase tia de bigode vai ter pra arrumar toda aquela festa de cocô. Dei dois passos pra trás, mas você sabe que não pode recuar. Mesmo de longe você tem que encarar a vida de frente e acertar aqueles pedaços de excrementos alheios que esfarelam ao leve toque da sua urina. Uma cena linda, sempre. E ao sair, basta não tocar em nada. Faz parte do manual de práticas para os piores banheiros do mundo. Já a essa altura, eu não me espantei ao descobrir que a água da torneira não ia pro encanamento, mas caía num balde improvisado.

Ao sair daquela realidade obscura e retornar a São Paulo – sério, estou tratando a parada como uma realidade alternativa agressiva, como aquela cidade de Tron Legacy, que você acessa pelo escritório escondido do seu pai – voltei a respirar um ar diferente, mais simples, menos verdadeiro e novamente cinza. Me senti humano e finito ao tomar o ônibus e voltar para o escritório. Foi assim que descobri que a imortalidade mora dentro do Bonde da Bagacera, onde o tempo, meus amigos, está sempre ao seu favor.

Diga não às drogas

Estava eu ano passado num show na quadra da Peruche, com o From.

Na fila, no meio de um desses small talks marotos com dois caras que estavam na nossa frente, um deles me solta ‘ah, mano, essa molecada de hoje tá perdida, é só funk, só droga, não tem mais aquilo de antes, entendeu, de curtir o som, ficar tranquilo, com seu pessoal, tals, os cara só quer saber de fumar, cheirar… não vira’. Continuamos a conversa até entrarmos e nos perdermos numa humilde multidão.

DJ KL Jay tocava uns clássicos enquanto eu esperava com o coração inquieto a entrada do show principal. Tomávamos uma cerveja inocente, falávamos alguma coisa sobre como a cena era forte, mesmo que descentralizada, não nestes termos, uma vez que ‘descentralizada’ não é uma palavra que você consegue falar quando está bebendo. De repente, malandrílson da fila passa pela gente frenético, pára com uma garrafa de catuaba e fala:

-Oooo, manos, trombei uns camaradas meus ali, vamo lá?
-Não, velho, tamos tranquilos, vai lá.
-Ah, demoro, mas aí, eles tão com vários pinos, se quiserem dar um ‘rata’, só chegar, firmeza, família? (i.e ‘temos cocaína, se quiserem usar, venham comigo’)
-heheh, ok.

Só pra ter certeza de que não tinha bebido tanto assim perguntei pro From se aquilo era verossímil, se o cara tinha realmente falado que odiava drogas e depois veio nos oferecer, destruindo em segundos sua imagem pré-estabelecida de crítico da juventude. Poderia aqui pontuar uma extensa lista de fundamentos morais que ele infringiu, mas não, afinal, ‘quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma?’. Essa é a crítica insider, um novo e inesperado mercado profissional pronto para decolar.

Ou não.

Mudanças e idéias pro caderno

Daí que mudar pro WordPress sempre me traz algumas lembranças terríveis dos meus antigos blogs com layout perfeito e sem nada pra dizer.

Acho que a proposta muda, quando comecei este blog era mesmo pra escrever aforismos e guardar posts como recordações de uma época que ainda estou vivendo. O que me livra de surrar a criatividade atrás de títulos carismáticos para os mecanismos de pesquisa, ou de checar o Analytics como um viciado.

Continuo com a idéia de criar aquele portal de blogs de amigos – virtuais, claro, uma vez que 98% dos amigos físicos não tem blogs -, mas sempre me perco pensando na equação abaixo:

Valor da hospedagem + Parcela atrasada do carro + Convites + Criar o Layout = não vai acontecer

Outra idéia que falei pra Chiba dia desses é montar uma empresa de bom senso na internet. Partindo do princípio que alguns empresários, artistas e modelos de negócio do tipo lojinha de bijouterias ou assessoria de imprensa não entendem nada de como utilizar a internet a seu favor, minha idéia é criar algo com um slogan do tipo: você sabe que precisa de presença na internet, mas não faz idéia? Ligue!

A última é simples, um podcast sobre influências com meu amigo Jefferson. Entrevistar grafiteiros, políticos, blogueiros e donas de casa anônimas na mesma vibe, pra saber o que eles estão ouvindo, lendo e assistindo. Discussão cultural amadora, conversas beirando o ridículo e toda a galhofa de sempre. Formato quinzenal, de uma hora. A prioridade número um: não copiar a abertura do nerdcast.

Claro que são idéias para morrerem lindamente ilustradas e estruturadas apenas no meu sketchbook.

Vingou

Descobri que estou cercado de gente bem sucedida (sem hífen, agora? algo me diz que sim). Foda quando você vê seus amigos de infância executivos de grandes empresas, ou proletários com bons cargos e respeitáveis em seus trabalhos, seja lá quais forem. Difícil também começar a seguir gente interessante no Twitter e saber que eles escrevem para o site que você diariamente lê pelo feed. O pior é saber disso vendo a assinatura no final do artigo, num dia de bobeira, vasculhando coisa boa no Google Reader.

Embora minha visão de ser bem sucedido é usar de meios errôneos para fazer algo que lhe agrada (“errôneos”, eu usei mesmo esta palavra?). Eu escrevo diariamente, não só para meus blogs, mas para um site de e-commerce que tem, de certa forma, um compromisso com a informação real. É meio que jornalismo para lavadoras e câmeras digitais, tá ligado?

Portanto, “conforta” saber que alguém pode ter essa neurose pensando em mim também.

Não precisa me dizer. Eu sei quando preciso de um terapeuta.