O peso

Da primeira vez que tudo desmoronou de verdade eu tinha a sensação de que ia chegar em casa e derrubar todas as coisas. Conseguia ver a estante de livros despencar sobre o canto do sofá, a geladeira quebrando a pequena mesa, o sofá revirado, minha TV no chão junto dos livros. Minha sensação de que o mundo todo havia caído no chão ultrapassava algum limite: não eram só meus sentimentos, era a necessidade que eu tinha de que todo o resto acompanhasse esse esborrachar.

O que eu sinto hoje é uma espécie de asco por mim mesmo. Quando algo sobre o último relacionamento me incomoda, sinto automática vontade de vomitar, sinto pena de mim como se finalmente me enxergasse pelos olhos de outra pessoa (uma vez que tudo o que quero é chamar atenção, ainda que de mim mesmo) e sinto que aqueles momentos bêbados inconscientes quando a gente nem sabe que ainda existe nesse mundo se tornam meio necessários (e talvez não acordar de algum desses momentos talvez fosse uma solução menos dolorosa e mais inteligente pra tudo mesmo).

Sacou o estado de espírito?

Pois é.

Eu queria o alento de pensar menos e ter mais amigos por perto. O que acontece é justamente o contrário. Acabo chegando a conclusões tão catastróficas pra minha cabeça que vai demorar até tudo se acertar de novo em mim. Lidar com a rejeição é uma espécie de karma com o qual tenho de lidar, aparentemente.

Só não sei quanto mais disso eu posso aguentar.

Rdio Jives, “Neurastenia” jan/14


Eis uma mixtape sem critério, coisas que estou ouvindo, que estão me dizendo o que fazer, em que acreditar, fossa, neurastenia, depressão lite, talvez um pouco de misantropia indie.

Sobre o assunto “fossa”, eu não estou bem. Aconteceu aí, no fim de ano e, bem, vocês sabem que não sou das melhores pessoas para encarar um fim de relacionamento, principalmente se estava absolutamente envolvido e confiante (“apaixonado”, embora descreva exatamente como me sentia, é uma palavra em desuso).

Me desculpem, mas preciso demais escrever sobre o assunto. E tudo bem deixar de ler a partir daqui, porque certamente não melhora muito.

Na verdade, não melhora nada. Último aviso.

Eu gostaria de pensar em mim mesmo daqui uns sete anos, queria deixar de dar scroll até chegar na foto dela, ou tentar aceitar que mereço mesmo tudo que tem acontecido, pois quando fiz com alguém que me amava o que ela fez comigo, eu não olhei pra trás, eu não quis saber. Queria não ficar mais olhando o celular esperando uma mensagem de whatsapp que não vai chegar, uma ligação pra marcar uma conversa que não vai existir.

É torturante o silêncio ao deixar os amigos em casa depois do estúdio, olhar pros móveis da sala da casa onde uns tempos atrás me senti como se houvesse recebido um presente. Restou o silêncio. A rua, em completo silêncio, e eu pensando em subir até a casa dela só pra dar sorte de encontrar no caminho, esperar na rua, fumar um trilhão de cigarros distante o suficiente pra não ser visto. Mas nem pra stalker me dou.

A lembrança, o tempo tratará de descolorir em tanta lágrima.

Estou passando dias inteiros com a angústia de não contar com ninguém, de não querer encher o saco de ninguém sobre esse assunto (mas este é meu blog, né, gente, se não puder fazer isso aqui, onde mais?). Com uma tristeza que não vai ceder tão breve, que vai perdurar por muito tempo até eu aceitar que quando alguém escolhe se afastar é por querer a vida de volta. E, no fim das contas, eu era realmente apenas um peso atrapalhando o desenrolar da história.

A vibe do começo de 2014 é almoçar no Britão, ensaiar a banda nova, anestesiar a mente com atividades menores como colar cartazes na parede de casa e chorar todos os dias por alguém que, basicamente, já te esqueceu (e o Raça Negra diário, tem duas na mixtape, delicie-se).

Em resumo: curto muito as veias expostas da minha própria vida. Tendo me conhecido, Fernando Pessoa jamais teria escrito o Poema em Linha Reta.

Eu sou ótimo.