Carta para mim aos 13

Fala aí moleque! Tá bem? Mano, venho do futuro te contar umas paradas, mas só pra você ficar ligeiro mesmo, acho que ia acabar acontecendo de qualquer forma.

Eu sei como é hoje. Você tá na sétima série, ainda acontece de ficar calado a maior parte do tempo e se sentir bem apenas com os amigos certos. São muitos traumas né. Pelo menos pararam de te chamar de apelidos que você detesta no condomínio (Betinho vai até uns 23 anos te chamando assim, Yellow também, mas você vai vê-lo cada vez com menos frequência, confie em mim).

Se você parar pra pensar bem não eram nem os apelidos que te entristeciam, era a cara de decepção do papai e da mamãe e a sensação de desapontar todo mundo que você ama.

Bem, hoje estou perto dos 33 anos de idade. Sim, vinte anos depois de comprar o cartão postal do exalta. A gente ainda ouve pagode, mas com menos frequência também. Ano que vem você vai conhecer o Racionais MCs e nunca mais parar de ouvir rap.

Parece extremamente distante agora, extremamente impossível e impraticável, mas você vai namorar. Umas cinco pessoas diferentes. Excelentes pessoas. Elas vão fazer parecer que a vida tem afinal algum sentido, mas quando elas forem embora vai ficar um vazio que eu não gostaria que você presenciasse. Eu ainda não sei o que acontece depois, mas sei que não é exatamente fácil de lidar.

Alguns de seus melhores amigos vão se perder completamente do que eles são hoje. Vai parecer que vocês viveram uma outra vida juntos. Mesmo assim vai ser legal trocar ideia com eles quando vocês se encontrarem sem querer no mercado (Lucas nunca vai pagar aqueles 50 conto que te deve do patins, Markinhos vai pirar, voltar, pirar de novo. Thiaguinho nunca vai deixar de ser o cara mais engraçado que você conhece, mesmo mentindo o tempo todo. Putz, muita coisa pra te atualizar, sério).

Em compensação você vai ter grandes amigos pelo caminho. Pessoas que gostaria de poder viver próximo todos os dias e cuja amizade parece transcender alguma coisa no mundo real. Eles vão te tirar de vários abismos, quando tudo parecer perdido.

Continua lendo, você nunca vai parar. Só toma cuidado com o Augusto dos Anjos e o Álvares de Azevedo que uma hora o sentido deles nas nossas vidas vai parecer indissociável e a vontade de não estar aqui vai ser forte. Tenta pegar os livros da tia Paula quando viajar pra lá. Vai ser uma lembrança ótima pra nós. Ela não tá mais aqui e foi embora meio que de repente, mas a gente vai ter só lembranças boas dela.

Nossos avós também vão partir, mas vão viver bastante e em abundância, do jeito que sempre quiseram. Aos 33 anos você vai querer muito aquele violão do vovô, mesmo sem saber qual o destino que deram pra ele.

Papai ficou bem doente nos últimos anos, mesmo assim não para de fazer caipirinha e churrasco. Mas ele tá bem, com dias ótimos e dias meio ruins. Mamãe cuida bem dele e, mesmo depois de você ter saído de casa, ela fica perguntando se tá tudo arrumado na sua casa, se você precisa de alguma coisa, como você está. Ainda são seus melhores amigos.

Rodrigo mora no centro. Vocês saíram da casa da mamãe juntos e moraram duas vezes juntos em lugares diferentes, mas nunca rolou muito bem, embora vocês sejam irmãos e o amor nesse caso seja incondicional. Mas lembra do que falei ali sobre os amigos que se perdem completamente do que são hoje? Acho que serve pra ele também.

Os 20 anos que você tem pela sempre vão ser impressionantes. Você vai viver situações que jamais imaginou, vai ser reconhecido em lugares que nunca pensou estar daí de 1997.

Quando você estiver escrevendo essa carta vai lembrar de um livro que uma de suas melhores amigas te deu e você está relendo nesse momento, porque ele começa falando do eterno retorno, de Nietzsche, um barbudo que você vai conhecer em uns cinco anos.

Vão ser duas décadas intensas. Toma cuidado com a bebida e tenta relevar quando eles tiverem usando droga e você estiver perto. Seus amigos vão parecer pessoas horríveis, mas é só naquele momento. Você acaba entendendo (nem precisa tomar cuidado com as drogas, você vai ter uma aversão automática quando ver as pessoas usando).

Aproveita bastante, moleque. Porque vai passar e quando você estiver escrevendo isso, vai parecer que você já viveu tudo o que tinha pela frente. Mas é só a ansiedade pelo monte de decepção que você vai ter que lidar pelo caminho. Seja forte, mantém a cabeça no lugar e segue em frente. Seus melhores e piores dias estão todos bem aí na sua frente.

You got to keep ya head up.

24h party people

Estou escrevendo esse post debaixo de um barulho de pedreiro no andar de cima que me fez acordar às 8h da manhã, o que seria ótimo se eu não tivesse ido dormir às 4h.

*

Preciso contar do primeiro casamento em que toquei na vida. Foi uma cerimônia celta, bem bonita, com a recepção no mesmo lugar e um cara fazendo crepes incríveis. Em certo momento um cara brincou “ele deve ter uns 5 anos de experiência nisso”, quando o cara do crepe disse “hahah já vou te cortar, são 8 anos”.

Crepeiro dando carteirada, gostamos.

Conhecemos um cara que nos contou tudo sobre uma banda de hardcore que ele teve muito tempo atrás e começou muitas histórias sobre pessoas “famosas” de bandas que conhecemos. O mal das pessoas que contam histórias demais é que acabam parecendo mentirosas em algum momento. Nosso stalkeamento posterior resultou apenas numa citação do nome da banda dele em uma lista de bandas que tocaram no hangar 110, perdida num flogão (obrigado, Felicio) e ficamos sem saber quanto daquilo era verdade.

(Queria muito ter a opção de colocar um áudio aqui do pedreiro martelando no andar de cima pra vocês entenderem. Fico imaginando que tipo de coisa seria aceitável martelar por tanto tempo. Um prego de 450 metros? Vai ver ele tá quebrando o chão e vai transformar a gente num duplex sem sequer me perguntar. Seria ótimo mesmo, realmente, por favor continue senhor pedreirPARA MANO PELOR DE DEUS).

Mayara e Vinicius são um excelente casal. Estavam extremamente felizes e emocionados com o casamento que era simples, com uma família bem seletinha e um tio que ficava gritando “VAMO FAZER BARULHO AEE”, mas que poucas vezes conseguia o apoio dos presentes. O noivo chorava copiosamente quando ela começou a descer as escadas. Foi bem tocante. Chovia o dia inteiro e parece que deram um salve em São Pedro pra conter a chuva durante aqueles momentos.

Foi a espécie de festa de casamento que deu um baita afago no coração de ver.

Sair do sítio do casamento não foi lá muito fácil, pra dizer o mínimo. Eu tava sem dirigir por razões óbvias, mas resolvi tirar o carro porque tava rolando um medo conjunto de atolar no barro que tinha se formado. Pra piorar tudo, era uma subida. Pra piorar mais ainda, tinha voltado a chover pesado. E ainda tínhamos que tocar num show na zona leste.

Estava tudo completamente desfavorável.

Em um dado momento chegamos a pensar que dormir por ali não seria exatamente uma má ideia.

Depois de sair do atoleiro, tomar chuva, pisar no barro com o pé do gesso, utilizar 480 sacolinhas de mercado diferentes para não piorar mais o estado da tala (em um dado momento eu usei até o saquinho de lixo do carro) e dirigir mesmo com gesso uns 60km, chegamos na zona leste.

(claro que na segunda feira eu voltei no SUS pra trocar o gesso e ouvi várias merdas do médico.)

Foi uma sensação de cansaço extremo com a vibração de ver uma galera organizando uma festa tão legal para poucos. Eram duas bandas e nós, violão e voz. Só pessoas ótimas, com bandas incríveis que fazem a gente pensar que criar nossos próprios espaços talvez seja mesmo a única saída pra não deixar nossos sonhos morrerem. Voltar a tocar com o Projeto foi também demais e acabamos no Stop Dog em Perdizes, imitando a voz fina do Rodolfo em algumas músicas do Rodox.

Neste dia, eu fiquei tenso por diversas vezes, cansado e com dores ao final da jornada. Ao mesmo tempo reencontrei a vontade de estar com amigos sem pressão, de um jeito natural e não tóxico (o que só poderia acontecer com as três pessoas que estavam presentes, sério, muito amor ❤).

Melhor dia de 2017 até o momento.

que fita errada

Quero expor aqui um causo que explica muito sobre o desapego e/ou falta de interesse relacionado a minha pessoa (vai crase aqui? desaprendi). Ontem, cheguei em casa por volta das 20h, meu pai tinha dito pelo Whatsapp para ligar assim que chegasse, mas acabei não conseguindo e mandei uma mensagem de áudio:

— Oi pai, tudo bem? Não tô conseguindo ligar, mas tá tudo bem, acabei de chegar, vou dormir daqui a pouco, tô vendo um filme, tá tudo bem aí né? bjs

Meus pais me ligam basicamente todos os dias. Se eu passo dois dias sem telefonar, existe um drama imenso sobre como eu estou me distanciando ou apenas um “esqueceu do teu pai e da tua mãe?” dramático de Dona Bernarda. Meu pai diz às vezes que nem lembra como é minha cara, é daora.

E então, a resposta, minutos depois:

— Oi, Robson, tá tudo bem sim. Tua. mãe. foi. atropelada. mas tá bem aqui, na cama, deitada e descansando, mas tá tudo bem sim viu? bjs.

Calculem.

(No fim das contas, ela foi atropelada mesmo por atravessar o farol erradamente e meio que sem notar que é uma sexagenária. Acabou tudo bem e foi apenas um susto realmente, mas imaginar a sua mãe de quase 67 anos caindo no meio fio da estrada do campo limpo não é das melhores cenas que você pode ter que imaginar na vida morando há 45km de distância, sabe?)

Merdas teóricas

Eu hoje classifiquei duas pessoas das maneiras mais legais pelas quais eu classificaria pessoas e acabei perdendo aquele embate ideológico com F. e J. em que dizia que elas julgavam demais os livros pelas capas.

A primeira vítima de minha categorização foi o-cara-que-parece-um-vídeo-do-youtube, um fulano tão assumidamente caricato que faz de sua vida um imenso zorra total repleto de jargões e frases feitas e deboches na cara da sociedade como uma espécie de Brendan que não deu certo por motivos de pura falta de sorte.

A segunda foi a-moça-que-lhe-partiria-o-coração-em-segundos e essa já é bem autoexplicativa, mas vem muito de encontro ao que eu estou evitando na vida, ou seja, problemas de cunho sentimental que eu adoraria ter, embora esteja evitando e preferindo muito mais o meu netflix maneiro e toda a misantropia que a sociedade me ensinou.

Obviamente continuarei dizendo que elas julgam demais as pessoas pela capa, o que obviamente é também um julgamento e a gente segue assim criando conceitos sobre conceitos e preconizando o inevitável saber que eu continuo fazendo merdas teóricas demais nessa vida.

Zeitgeist, março de 2011

As pequenas coisas, sabe. Quando li aquele Rousseau, ele falava sobre a sociedade que existia antes de existir o conceito de sociedade. E fiquei pensando no que poderia ter sido diferente. Pensando se havia alguma uma forma do mundo ser um lugar para todos, agora sem aquelas idéias velhas e igualitárias.

Claro que havia. Hoje, tudo o que resta são conceitos dizendo que você tem que lutar por seus direitos e sonhos, correr atrás do pote de ouro, ser feliz, ter sucesso. E no fim de tudo a gente se perde. Quando lembro daquele dia, penso em velhinhos morrendo em hospitais, o que deve passar na cabeça deles que viveram muito mais décadas que nós? Será que, no final de tudo, correr atrás do pote de ouro ou de uma vida sensacional e eufórica nos faz plenamente satisfeitos? Ou será que ter coisas pendentes a executar em vida é a maldição do ser humano?

Não sei exatamente quem foi o escritor que disse que a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar. E lembro agora do que a Marília Coutinho falava na matéria da Trip sobre gente que vai para a academia e pendura o cérebro no vestiário antes de começar o treino. Isso vai muito mais além. Acredito que exista quem pendure o cérebro em casa e nunca o leve para passear. Gente que o exercita aos finais de semana e feriados. Gente que guarde no porão.

É inevitável perceber a contradição da evolução humana. Ao mesmo tempo que criamos carros, aviões, máquinas que nos ajudem a executar trabalhos com maior facilidade, criamos um sistema social em que as pessoas podem ter empregos e vidas inteiras destinadas a não exercitar o cérebro. Tudo foi transformado em máquina, numa negação de sentimentos e questionamentos, numa negação à vida.

Talvez a galera dos feudos não estivesse numas de ambição. Talvez estivesse tudo bem, o mundo era essa rede de colaboração e parceria, todo mundo com o sorriso do Netinho de Paula na cara. E então eles amadureceram a idéia depois que o primeiro canalha decidiu trocar sementes de feijão por trabalho camponês. E daí pra frente a descensão, a história, o horror.

Se isso não tivesse acontecido talvez fôssemos apenas seres vivos, mais parecidos com os animais, vivendo em vilarejos no meio da natureza. E não haveria toda essa catástrofe, nem todo esse desespero, nem todas essas contas do Bradesco em que você possa depositar dinheiro aos desabrigados. Não haveria desabrigados. E então poderíamos chamar o planeta de nosso lar e ter todo o tempo do mundo para manter nosso cérebro no lugar e funcionando, que é onde ele merece estar.

Ou talvez esse seja só mais um texto que toca diversas feridas expostas da nossa época, embora não chegue a conclusão alguma. =)

O Doom da Vida

Acabei de voltar do banheiro com isso na cabeça, tive o insight quando coloquei a chave no trinco. Nossa vida é uma versão dramática e boring daquele jogo que era febre no final dos anos 90, o Doom. Portanto, não, eu não errei o título deste post, é só um outro distúrbio que tenho de criar trocadilhos para títulos, como diz a bio na barra lateral.

O que é a vida, senão um Doom sem armas? A sentença não vale para traficantes cariocas, deixemos isso claro. Na verdade, a vida é uma versão de The Sims inspirada na visão em primeira pessoa de Doom. Porque viver é ter uma ficha pra jogar, certo?

E eu lembro do João, que hoje não tem mais blog, infelizmente, me mostrando um artigo na Superinteressante que dizia existir 43% de chances da nossa realidade ser virtual. E lembro de How I met your mother dizendo que todas as estatísticas que terminam com ‘3’ (tipo 43%) são falsas para impressionar mulheres. E eu lembro daquele What is Reality da BBC que eu ainda não tive coragem de assistir inteiro. É claro que é tudo parte da mesma conspiração, não poderia ser mais óbvio.

Um clássico pensamento inútil de quem não tem mais o que fazer a não ser dar contribuições para o layout novo do blog do Leo, que ainda não estreou com post novo, mas já está pronto.

Não é preciso dizer que esse texto não faz o menor sentido e vou terminar por aqui antes que eu tome a sábia decisão de deletar tudo.