Kid A

Levanto cedo, arrumo a louça, ajeito a comida dos gatos, coloco o café pra fazer enquanto tomo banho. “Você não precisa me dizer o quanto meu café é bom. É Bonnie quem compra porcaria, ok?”, diz um Tarantino vivendo o papel que criou para interpretar. Sento no sofá com tudo pronto e apenas a difícil escolha de um álbum pra começar um dia mais cinza que os outros, mais nublado e mais frio.

Abro a porta da varanda pros gatos brincarem. O vento agora balança uma árvore linda de frente pro apartamento, balança também um resto de pipa dos garotos pequenos que não sabem o que fazer quando a linha começa a pegar força. Eu lembro do Silas cortando minha linha quando meu pipa atrapalhava o dele no ecossistema de pipas que criávamos nas férias.

Tem uma nesga de luz vindo na parede, uma luz laranja do sol que ainda não foi encoberto pelas nuvens. O café começa a esfriar, a música aumenta um pouco, fico com medo de acordar os vizinhos. Lembro que meus pais vêm me visitar neste final de semana e talvez eu perca o churrasco dos amigos. A luz aumenta, criando uma espécie de esperança estética. Eu lembro do futuro “será que tem um intensivão pra ser adulto? Eu me matricularia” era a conversa de umas semanas atrás.

Passo a gostar dos pequenos barulhos que os gatos fazem ao brincar com as sacolas no chão. Gosto cada vez mais do clima que a música me traz. E o sol se esconde novo, o crossfader me leva a “optmistic”, simbólica. Lembro de todo mundo ao mesmo tempo, de cada piada não entendida, de cada banda que não deu certo e de todos os que ficaram pra trás. Dos amigos que ainda não conheci e que já me fazem tanta falta.

Preciso chegar cedo ao escritório, “só essa caneca e já era”. Agradeço pelo dia que começa, pela casa, pelos gatos, pela família, nesta ordem. A pequena esperança da casa em ordem me traz um alívio imediato pra seguir em frente, pra esquecer o que quer que tenha me tornado fraco com o pesar dos anos.

Está tudo em seu devido lugar.

Radiohead, The King of Limbs, 2011

Esse novo disco do Radiohead saiu sem frescura, rápido, sem mística, capa num dia, track list no outro, teaser no outro e due no sábado. ‘Sem frescura’ porque não deve ter sobrado nada depois da gravação do disco. Não consigo me lembrar com exatidão quando foi que o Radiohead perdeu a mão pra situar você nesse meu pensamento, portanto, abaixo segue o meu faixa a faixa:

The King of Limbs abre com ‘Bloom’, uma espécie de samba-jazz que para não dizer inrotulável e criar um termo novo, vou apenas deixar assim. ‘Bloom’ tem uma vibe das músicas do Otto que todo mundo idolatra e você não se enxerga suportando mais que um minuto completo. Acho que se eu começar a usar a palavra experimentalismos não vou mais parar até o final do texto, portanto, digamos que todas as músicas soam experimentais.

Apesar disso, de minha parte nem tudo são críticas. A voz de Thom Yorke continua remetendo a uma época em que o Radiohead ainda era uma banda e não essa tribo indígena tentando acertar sempre. Difícil mesmo foi ouvir ‘Morning Mr. Magpie’ sem querer desligar o player. Repetitiva e ultrapassada. Eu quis parar por aí, evitando todo o quarto de hora que viria seguir.

A impressão que me deu ao ouvir ‘Little by little’, a terceira, foi algo recorrente em quase todas as músicas do disco. Parece que tem uma outra banda com um DJ de drum n’bass terrível tocando por cima de uma gravação original. Talvez seja uma ótima forma de reduzir os custos. Talvez seja só experimentalismo, OH CRAP, de novo. Sério, ‘Little by little’ é uma excelente música infelizmente abduzida por batidas esquisitas e sons medonhos.

Então vem ‘Feral’ e novamente o Otto e aquela patifaria de gravação sobre gravação, quando um artista perde a mão e acaba colocando em sua obra muito mais do que ela precisa. A seguir, ‘Lotus Flower’, aquela da dancinha, uma das melhores do disco. Sem muita putaria, se é que dá pra me entender. Foi o teaser e eles estragaram tudo revelando a parte boa, usando assim a mesma técnica dos trailers de filme. Depois disso ‘Codex’, a quinta do disco, que traz seu piano intenso e menos confuso, a única música que poderia parar numa trilha sonora de filme, por exemplo. ‘Codex’ dá a consistência e a tranquilidade que o disco deixa estava deixando a desejar a té então.

Aqui podemos dizer que se eu pensava ter apenas não-músicas (como bem disse Chico Barney ao Popload) babacas, o disco volta a se tornar interessante com as duas anteriores e ‘Give up the Ghost’, no violão, aparentemente o segundo instrumento musical usado em The King of Limbs até aqui. Pra finalizar, ‘Separator’ e a música menos entediante de todo o disco, sem dúvida.