Sabor pé

Eu sinto uma necessidade de fazer este blog tornar-se algo como uma coluna semanal. Que esta semana falaria dos professores no Paraná e daquele grotesco senhor que eles elegeram governador no primeiro turno. Ou teria um outro assunto genérico e básico de formação pessoal, social ou humana. Abordaria temas inteligentes com a profundidade ou a retórica de um bom usuário do Medium, mas com a linguagem mais humana, palpável, mais conversa de bar. E tudo o que eu consigo pensar no momento para atualizar este website é sobre como eu comprei um salgadinho de pizza na hora do almoço e o cheiro de chulé contaminou o escritório inteiro.

Melhor diário.

Wrong Way

Eu sempre procuro aquela curva errada que fiz na estrada. Aquele ponto em que eu virei e as coisas começaram a descarrilhar junto do meu raciocínio. A fração de segundo em que eu escolhi essa realidade e não uma outra em que estou voltando pra minha casa com um sorriso no rosto e esperança renovada para o dia seguinte, aquela luz, aquela respiração mais leve.

Aconteceu um acidente próximo ao escritório da Aldeia da Serra e eu passava uma semana lá ajudando um pessoal a entender um processo novo do trabalho, pra resumir. E então subi a serra pra almoçar. No meio do caminho havia um acidente meio frio, pra rimar com a sexta-feira de nove graus. Quando voltei, haviam bloqueado a pista e tive que fazer um caminho tortuoso, de terra, até chegar à rodovia. Descer uma serra pela montanha, sem asfalto, nem sinalização. Lindo de se ver.

E eu desci atrás de um carro que, aparentemente, sabia o caminho. não, eu não conhecia o ser humano que dirigia o carro, apenas seguia. E quando ele desviou da estrada principal, algo me disse para continuar por onde os carros vinham, de onde era o lugar que eu deveria ir, mas eu entrei e continuei seguindo o outro carro, meio devagar, pensando direito se era mesmo por ali.

Nos próximos 200 metros que segui em frente, imaginei que ele houvesse sumido e acelerado demais, corri, não alcancei nada. Nos 300 metros seguintes, fui olhando pelo retrovisor pra ver se alguém aparecia, nos últimos 100 metros eu procurava um lugar que me deixasse fazer o retorno.

Quando voltei, percebi que o carro que eu estava seguindo havia parado numa oficina, ali, pouco depois de eu tê-lo perdido de vista. Voltei pra estrada de terra principal, passei por um cachorro e tenho certeza de tê-lo visto balançar a cabeça com desdém.

Se eu pudesse descrever essa fase da minha vida, eu diria que estou naqueles 600 metros que me separavam do caminho certo, das atitudes que deveria tomar e do raciocínio mais certo pra mim. Estou perdido e ainda assim imagino que existe alguém lá na frente que poderia me ajudar, então preciso correr pra alcançar, mas talvez, como nessa história, nada disso resolva.

A vida não dá certezas e isso dificulta tudo. Não é como se houvesse alguém dizendo o tempo todo quando você erra ou quando você acerta. No Top Gear, um antigo jogo de corrida, quando você rodopiava pela tela e seguia pelo caminho contrário, aparecia algo como ‘WRONG WAY’, piscando sem parar na tela. E quando você acertava o carro na direção que ele devia seguir, o jogo apenas continuava. Meu palpite é o de que a gente passa a vida toda esperando a mensagem de ‘WRONG WAY’ do Top Gear.


Warren Haynes, Indian Sunset (Elton John)

Pensando no superlativo

A primeira vez que fui trabalhar numa empresa, estava com frio na barriga sobre o que deveria dizer, ou me portar, os sorrisos certos, conhecer pessoas, manter alguns laços iniciais de amizade para serem lembrados depois com alguma ternura. E fui trabalhar. Lembro que tive de ler um manual de vendas de sei lá, 350 páginas, cheio de ilustrações e com textos corridos muito bobos. Terminei antes do almoço e tive que reler. Terminei às três horas e depois repassei todos os pontos até o horário de ir embora.

Cheguei em casa bem feliz, meus pais me receberam com alegria, eu contei meu dia, falei sobre as pessoas, sobre como a gerente parecia rica, mas também parecia uma pessoa muito simples. Jantei e fui dormir. O primeiro pensamento do dia seguinte foi: “caramba, não tinha pensado que seria todo dia”.

***

Marquei mentalmente São Bernardo do Campo como a cidade do Subway. Não sei se foi alguma sorte do meu caminho, mas em meia hora dentro da cidade eu vi dois Subways de rua e uma placa gigante sobre outro.

Peguei um freela itinerante de final de semana que se resume em digitar contratos imobiliários com atenção naqueles stands de venda com apartamentos decorados. Essa é a parte que eles avisaram durante o treinamento. Não disseram sobre uma pequena sala cheia de gente rindo alto, sobre trabalhar em meia baia com sinal de rede oscilante, numa cadeira de plástico dessas de boteco, mas principalmente, não falaram sobre o gordinho espaçoso que sentaria ao meu lado com um arsenal de piadas batidas sobre o Rogério Ceni que ele repetia em voz alta para cada um que entrava. Calcule.

Dá pra levar, é de vez em quando e rola um pagamento honesto. Era isso ou montar uma lojinha online aqui no blog (nota mental 1: a idéia não foi de todo descartada) pra vender meus CDs, DVDs e artigos inutilizados do armário (nota mental 2: não os livros, nunca os livros).

Eu queria poder dizer que foi legal estar trabalhando no sábado, afinal, eu procurava uma parada exatamente como essa pra recobrar a ordem financeira da minha conta bancária. Mas a gente sempre acaba achando um jeito de pensar na vida de um jeito superlativo que acaba ferrando tudo. Quero dizer que, estamos ali trabalhando amarradões, quando entre um contrato e outro eu penso que não me via aos 27 anos de idade tendo que fazer um bico desse pra que as coisas pudessem voltar ao normal. As coisas já eram normais, fui eu que deixei elas se esculhambarem ladeira abaixo. Mesmo assim eu descobri que não consigo lidar muito bem com o fato de ter outra obrigação da qual dependo dessa forma.

Claro que é exagerar um pouco as coisas, mas é como pensei outro dia, enquanto esperava a marmita esquentar e vi alguns amigos voltando do restaurante. De todos os futuros que previ, em nenhum deles estava ainda estar morando com meus pais e tendo que me esforçar tanto pra terminar de pagar um carro; nem que eu estaria feliz com a possibilidade de escrever textos de 7000 caracteres por R$ 30,00 (é, eu já desisti da idéia), nem que fosse esperar a marmita esquentar enquanto lia alguma coisa na cozinha.

Um trabalho pode ser algo que você adore fazer, mas nem sempre vai ser assim. E digo que se amanhã você não está muito afim, isso quer dizer que você não adora seu trabalho tanto assim, certo? Você pode não reclamar das suas tarefas e correr pra que tudo dê certo no final do dia, mas nada disso caracteriza adoração. E talvez por isso nunca estaremos satisfeitos com nada do que vier. Mesmo um alto salário, uma dose exagerada de independência ou uma cartela de bons benefícios podem te fazer olhar à sua volta e pensar sua vida no superlativo.

Deus e um rosário

Há pelo menos 10 anos, eu costumava andar com um rosário enrolado no punho direito. Sim, um rosário, esse pokemon evoluído do terço. Eu fui colaborador da igreja católica depois de um encontro de jovens, aos 17 anos. Então, digamos, quando você estava indo pra faculdade ouvindo AC/DC no CD Player, eu era o cara do seu lado quieto, de cabeça baixa e trocando as contas de bolinhas a cada oração. Eu tocava guitarra na missa, violão no grupo de jovens, pedia comida nas comunidades, me reunia para organizar as paradas e fazer um monte de gente maluca pensar algo além das festas juninas do bairro.

Era isso que representava pra mim, fazer alguém poder pensar, mais do que isso, era poder me ocupar em algo além de tocar violão e beber vinho no mercado. Ainda que você me diga que pensar em religião é um pensar menor, oblíquo e quase alienável, é um pensar. E isso, para muita gente vale mais do que qualquer faculdade. Sabe aquele pequeno trecho de um livro que mudou sua vida, aquela palavra que te deixou desconfortável na cadeira, aquela banda, aquele filme, aquele grupo, aquela época que foram essenciais e sem as quais você não teria livrado seu pensamento do Domingo Legal, Parangolé e Band FM? Algumas pessoas nunca tiveram seu ponto de mudança para um pensamento mais livre e desapegado do imaginário popular. E a religião pode funcionar como esse ponto.

Mas isso é bobagem. O negócio é que eu andava com as porcarias das bolinhas enroladas no punho. E as tiazinhas do ônibus adoravam puxar conversa enquanto eu trocava bolinhas, mesmo sabendo que eu teria de parar de me voltar ao CRIADOR DO UNIVERSO, para dar atenção a uma FREE TALKER COM SENSO DE OPORTUNIDADE. Eu era bem mais amargo que hoje, a propósito.

Hoje lia em frente à lareira saboreando um cabernet Sauvignon no trem, rodeado de gente feia, “Espere a Primavera, Bandini”, primeiro livro de John Fante. Um dos capítulos começa falando de Arturo, um dos meninos da história, que tinha certeza de que não ia para o inferno:

“A maneira de ir para o inferno era cometer um pecado mortal. Ele havia cometido muitos, acreditava, mas o confessionário o salvara. A confissão sempre chegava a tempo… isso é, antes de morrer. E batia na madeira sempre que pensava naquilo – sempre chegaria a tempo… antes de morrer. Por isso Arturo estava bastante seguro de que não ia para o inferno quando morresse. Por duas razões. O confessionário e a de que era um corredor veloz.”

Sou desses malandros que acreditam em Deus, mas ficam sem jeito de dizer que não são religiosos, como a definição pede. Existe um quase martírio ao admitir sua crença, mas também uma culpa mortal de negá-la e ser esquecido. Permanecer sozinho na imortalidade, como dizia a introdução de outro livro do qual já não me lembro.

Poderia omitir isso tudo, mas meu maior medo é o de que não exista nada. E estarmos levando toda essa vida desgraçada para inexistirmos, para termos existido um dia. E começo a me torturar pensando em quantas pessoas vão se lembrar de mim na virada do outro século (tá, tio, se o mundo não acabar em outubro). Olho para as pessoas ao meu redor no trem, apressadas e desgostosas, não parecem estar se importando tanto com isso. Mesmo com a falta de brilho no olhar, eles continuam tementes, inertes, caladas e distantes.

E então cheguei em casa e olhei para o rosário, pendurado na parede do quarto. E dei um nó cego em todo esse pensamento, pedindo a Deus que me garanta um pouco mais dessa ingenuidade bonita e menos dolorosa das pessoas do trem e de Arturo Bandini.