Em defesa do Bullying Pedagógico

Não sou muito afeito a comentar assuntos mais polêmicos, principalmente os que estão na moda, nas revistas, no Fantástico etc. Gosto de deixar cansar na TV e então talvez procurar alguma coisa no Observatório da Imprensa. Nunca comentar, nunca.

Aí, o Bullying.

Gente falando que era menosprezado na escola porque tinha orelhas grandes, era gordo, usava óculos, era nerd, era negro, usava roupas baratas e de doação. Aquele hit do menino jogando o outro no chão foi um estopim que criou para cada um de nós uma carapuça e um convite para participar dessa rede de derrotados que deram a volta por cima e oh, olha só, vivem felizes, todos esses anos depois.

O que ninguém consegue ver nessa parada toda é que esse tipo de bullying é mais pedagógico do que traumatizante. Quando se chama o gordo de Bola, o orelhudo de Dumbo, a menina de sardenta, o tempo acaba criando uma capa natural de resistência, como o calejar de um osso que deixa de doer depois que você passa suas tardes dando chutes no coqueiro (isso é de um filme do Van Damme, alguém lembra?).

É assim que a gente cresce. É assim que o gordo começa a se aceitar como ser humano como todos os outros porque, diabos, dar ouvidos a esse monte de moleques é estupidez.

Estava eu outro dia, no aniversário do Fernam, aqui pelo bairro. Alguns moleques de 12, 13 anos, provocando os mais velhos, naquele velho estilo de falar merda e sair correndo. Até o mais velho se irritar, ir atrás, rasgar a cueca do moleque, colocar ele no porta mala do carro e cogitar a hipótese de amarrá-lo pelado no poste durante uma madrugada fria de maio (eu sei, um pouco demais, essa última não rolou).

Esse moleque vai crescer e vai aprender que existem algumas linhas que ele não pode ultrapassar, algumas regras que ele precisa seguir e que se xingar o pai do dono da festa e sair correndo ele pode voltar para casa sem cuecas. E vai passar o “ensinamento” pra frente, essa coisa bonita que vai fazer ele correr atrás de moleques mais jovens e tão folgados quando tiver 24 ou 25 anos.

Não trato aqui da coisa mais séria, porque bullying existe, sim, gente com problemas sérios de aceitação social que pode se estender pro futuro. Elas podem superar através desse caráter pedagógico, embora seja mais difícil se aceitar como quando o problema é mais do que uma orelha de abano, uma barriga grande ou as roupas que você ganhou na igreja. E, acredite, existem problemas bem piores, como você pode imaginar.

Todos precisamos de um chute na bunda. Afinal, a vida não é fácil. Acredito ainda que se houvesse um indivíduo no mundo completamente perfeito para nossos padrões sociais e não tivesse ouvido ou sofrido brincadeiras de mal gosto, seu desenvolvimento teria algumas lacunas que nada além da euforia diabólica de crianças cruéis poderia substituir.

Qual o filme da sua vida?

Ou o que fazer para não enlouquecer num mundo apegado a histórias com finais satisfatórios.

Denise: Às vezes penso em todas as pessoas que vemos bem sucedidas e tento imaginar a rotina delas, se elas passam por problemas como os nossos. Se acordam como se estivessem num filme romântico hollywoodiano ou num romance de banca de jornal em que as pessoas são sempre bonitas, inteligentes, ricas e bem humoradas.
Eu: a falta de verossimilhança dos filmes com o mundo real é que causa sociedades frustradas.
Denise: É nisso que me pego para não me derrotar.

Dilemas da vida social

“A vida é feita de compromissos”. A frase que todas as pessoas chatas e/ou implicantes dizem. Embora eu tenha receio em concordar com esse tipo de gente que anda engravatado, com celulares à vista e óculos de sol ocupando o lugar de uma tiara, desta vez eles me pegaram.

Sempre que ouvia essa frase ou algo do tipo pensava em alguém que marca compromissos numa agenda igual a daquela comédia com o James Belushi cheia de datas e post-its, rabiscos e telefones, chaves reserva, sabe, aquele modo de vida executivo.

Mas existem outros tipos de compromissos para gente comum como nós (?) como o aniversário da mãe do seu melhor amigo que está doente e você precisa estar lá para apoiá-lo, ou a formatura daquela sua prima desgarrada que você não vê a dez anos, mas sua mãe acha importante que você esteja presente, dando aquela força. Não indo tão longe, tem aquele seu amigo da faculdade que você não vê a algum tempo, mas esbarrou na rua meses atrás e ele lembrou de te convidar pro seu aniversário. E aí você se lembra que o cara era gente fina na faculdade. E você vai.

As pessoas se entopem de compromissos e formam uma aproximação que muitas vezes não é saudável. E se esse meu amigo da faculdade se tornou um babaca insuportável? E se sua prima não dá a mínima? E se a mãe do seu amigo preferir estar em casa sozinha, com os seus, um bolinho e descanso?

No fundo, um decide pelo outro. Meu amigo achou que sua mãe estaria melhor com todos os amigos dele em volta dela. Minha mãe previu que minha prima gostava de mim e minha presença era realmente importante. E meu amigo pensou que todos os amigos dele gostariam de estar numa festa para o anviersário dele.

Bem, é preciso considerar o fato de que podemos estar errados quando decidimos pelos outros. Criamos ciclos de amizades falsas que, muitas vezes não rolam. Acho que estou dizendo que é possível as pessoas ao seu redor tem o direito de achar você um pé no saco, mesmo você tentando ser um cara gentil.

Portanto, não empurre seus chatings forçados pra cima de mim.

Quando tudo mudar

“Janie’s a pretty typical teenager. Angry, insecure, confused. I wish I could tell her that’s all going to pass, but I don’t want to lie to her.”
Janie é uma típica adolescente. Nervosa, insegura, confusa. Eu gostaria de dizer a ela que tudo isso vai passar, mas eu não quero mentir pra ela.

–Beleza Americana

Algumas coisas simplesmente não vão passar. Gostaria de dizer que a cada mudança vamos saber exatamente como e quando tudo aconteceu, em que parte do plano abrimos mão de algo que nos transformou, mas nem sempre vai ser assim. Precisamos do conflito, da dúvida com o passado, para que possamos viver um presente solene, que pode não voltar mais. Nietzsche disse uma vez que a beleza de ter uma memória ruim é poder encarar cada fato como uma novidade ímpar, como se fosse a primeira vez.

Precisamos do que é velho, de nossa história, para que possamos marcar o passado com post-its e lembrar disso quando tudo for diferente. É preciso colocar a cabeça no lugar, menina.

Não é mais preciso saber onde você errou. É preciso descobrir como acertar daqui pra frente.