Fair play do universo

Daí que, durante uma rotina comum, recebo uma dessas correntes que dizia uma oração bonita e afável sobre como às vezes pedimos nada daquilo que precisamos, sobre como tudo deve ter sua hora certa de acontecer. Aquilo começava a me inserir novamente na fé, recostava minha cabeça de lado nos ombros largos de Deus e dizia ‘tá tudo bem agora’. Mas, como sempre, ao final de toda essa limpeza espiritual, a multa:

AGORA ENVIE ISSO PARA 12 PESSOAS E VOCÊ TERÁ UMA SURPRESA MARAVILHOSA.

Em primeiro lugar, escolher 12 pessoas já é difícil para alguém que tem poucos amigos e relativos em contato próximo. E mesmo aqueles com algum contato, soa meio estranho mandar uma corrente, afinal, você sabe qual é a fama dessas pessoas que repassam correntes, certo? Eu jamais confiaria novamente em mim. Embora isso eu não tenha tanto que julgar, haja vista o terror psicológico que a última frase dessas correntes nos impõem.

Depois tem tudo isso de não querer mandar para os amigos ateus, agnósticos, ou que estão pouco se importando para a existência de Deus. São boas pessoas, acredite, mas simplesmente não se importam em pedir, agradecer etc. Você pode imaginar como seria copiar eles todos no e-mail, o fórum de discussão que aquilo ia se tornar? Bem, pelo menos todos eles reencaminhariam a mensagem entre si por meio das respostas anteriores, ainda que de uma maneira inconsciente.

Eu gostaria muito de ser benevolente e encaminhar os emails que me pedem. Acredito que isso me traria estabilidade mental, além de esfriar a cabeça, sério, não estou muito me importando para aquela surpresa maravilhosa que vai me acontecer em cinco minutos ou sete dias. Só o fato de tirar isso da minha cabeça já seria o suficiente. Pra você ver: Eu comecei a ler o e-mail tão empolgado e acolhido e terminei querendo que ele nunca tivesse existido.

O problema é que consigo lembrar de cabeça três ou quatro pessoas que receberiam isso sem pestanejar, sem me questionar se eu voltei a tocar na missa, essas coisas. Não consigo simplesmente mentir para os bancos de dados de Deus e encaminhar a mensagem reconfortante para meus quatro ou cinco emails pessoais, por exemplo, só pra fazer volume nas contas. Não é por mal, imagine, só quero acreditar que o universo trabalha em fair play comigo da mesma forma que eu trabalho com ele, entende?

Você já viu esse vídeo?

De tempos em tempos, alguém muito empolgado me mostra um vídeo qualquer, geralmente me chamando com frases “caraca, você viu esse aqui do granizo, noossa, se liga, vem ver” ou “porra, bonita essa propaganda, chega aí, emocionante, velho” falando do dia que um sorriso parou São Paulo, ou qualquer desses vídeos que todo mundo com o mínimo de interação social já viu (se não viram nenhum dos dois vejam agora, são só exemplos, não se culpem).

Claro que depende muito da empolgação em questão e do coeficiente de flagelo indireto que você vai provocar, aquilo que vai fazer o cara se sentir um bosta quando você disser ‘mano, você tá vendo ali no canto quando esse vídeo foi postado, isso, 2005, eu vi no terceiro ano de faculdade’. Quando você diz que já-viu-essa-parada, você quer dizer que o cara não é único no mundo. Acontece que, às vezes, é preciso dar às pessoas o sabor de se sentirem especiais. É quase como um auxílio humanitário, mas em proporções obviamente menores.

Então começo a fingir espanto e admiração quase estourando a medida, afetado por um overacting foda (Jim Carrey em ‘O Máscara’, saca?) e tudo acaba bem comigo dizendo ‘po, me passa aí que eu vou encaminhar também’.

Isso também denota meu total e desnecessário apego em manter as coisas bem como estão, por essa deficiência em me intrometer no curso dos acontecimentos ao meu redor. E cada vez que eu finjo, o universo marca um risco na parede.