Abujamra, eterno

O dia em que você morreu, eu passei a pensar em todas as vezes que o vi citar autores de teatro que eu amaria ler, mas sei que jamais teria a sorte ou mesmo a disposição. Eu lembrei de cada vídeo no começo e no fim do programa, com um texto, um poema. Eu passei a tarde vendo fotos suas nas redes sociais, estampando matérias sobre a sua morte. Pessoas comovidas, chorosas, desferindo textões como esse daqui. Eu, que tenho mais assistido do que participado das redes, me vi só, lamentando a sua morte, mas sem querer que ninguém soubesse disso. Parte do meu plano semi diabólico de solidão.

Sabe que, eu tinha uma mania. Uma, bem específica sobre o Provocações. Eu respondia as perguntas, sempre, para qualquer convidado, respondia como se aquilo estivesse sendo perguntado para mim. Disparava a falar, sozinho, em casa, ate que viesse a próxima. Disparava porque, em geral, as pessoas não se estendiam muito nas respostas e eu queria era falar muito sobre cada um daqueles assuntos.

Coloquei ingenuamente numa lista de pendências existenciais estar, em algum momento da vida, sentado à sua frente, inadequado e desconfortável. Você foi embora e fiquei com as respostas guardadas.

A igreja criou a esperança, os bancos monetizaram-na.

E a vida é esse mar de gente perdida tentando se encaixar.

A vida é um teatro de improviso em looping eterno.

E a vida é miséria, confusão e sangue.

Ficou também numa realidade alternativa o nosso abraço, a única coisa falsa de seu programa. Assim como a foto, que só seria publicada quando um de nós dois partisse.

Que tenha encontrado paz.

Admito

Eu admito que até agora fui na sorte. Com decisões tardias, com desespero, sozinho e com trampos mal pagos, inconsequente com o que quer que aparecesse na minha frente. Vendo os amigos se dando bem na vida e feliz por cada um deles terem se descoberto e formado famílias. Destruindo amores e sendo destruído por eles, como daquela vez que fiz um campeonatinho de ‘tirar fininha’ com um cara na marginal pinheiros. Começamos brigando, nos tornamos amigos e buzinamos. Nunca vou esquecer aquele dia. E esse sou eu comparando a liquidez dos amores e das amizades de trânsito. Minhas memórias estão perdidas, descobri esses dias. Traumas. Milhões deles. E programas de domingo olhando pro meu pé no chão ouvindo a voz do Rodrigo Faro. Eu me vejo assim. E com umas migalhas de pão por cima da camiseta, talvez uma mostarda também, pra dar aquele ar blasé de vida destruída. Estou acostumado a me mudar, a me adaptar, a viver a mesma vida em ocasiões diferentes. Nunca me acostumei a viver outras vidas no mesmo lugar. Provavelmente é o que 2015 deve começar a me ensinar.

Nômade

Sigo nômade, porém com um domínio.
E para tudo há um domínio, mas espero que este me valha de alguma coisa.
Por ora, fiquem com a playlist Fossa – The Definitive Collection e uns abraços de sobra para qualquer necessidade.

Merdas teóricas

Eu hoje classifiquei duas pessoas das maneiras mais legais pelas quais eu classificaria pessoas e acabei perdendo aquele embate ideológico com F. e J. em que dizia que elas julgavam demais os livros pelas capas.

A primeira vítima de minha categorização foi o-cara-que-parece-um-vídeo-do-youtube, um fulano tão assumidamente caricato que faz de sua vida um imenso zorra total repleto de jargões e frases feitas e deboches na cara da sociedade como uma espécie de Brendan que não deu certo por motivos de pura falta de sorte.

A segunda foi a-moça-que-lhe-partiria-o-coração-em-segundos e essa já é bem autoexplicativa, mas vem muito de encontro ao que eu estou evitando na vida, ou seja, problemas de cunho sentimental que eu adoraria ter, embora esteja evitando e preferindo muito mais o meu netflix maneiro e toda a misantropia que a sociedade me ensinou.

Obviamente continuarei dizendo que elas julgam demais as pessoas pela capa, o que obviamente é também um julgamento e a gente segue assim criando conceitos sobre conceitos e preconizando o inevitável saber que eu continuo fazendo merdas teóricas demais nessa vida.

ah, mas a vida é assim mesmo

Daí que minha dor de dente deu pra despertar justamente nesse momento em que estou sem convênio, mas ok, só prova que Murphy está trabalhando por nós 24/7. Daí que começo a tomar essas coisas para passar a dor e, uma delas, cujo nome não vou dar aqui, minha mãe indicou como:  o remédio que você não pode tomar se for dirigir.

E então eu, aqui, precisando acordar cedo, tomo um antes de dormir, às 20h, porque né, se eu desmaiar muito, a certeza que tenho é que não vou conseguir ficar mais de doze horas na cama. Tomo um, a dor não vai embora, mas o sono bate, bem, lá vamos nós acordar sem olheiras amanhã, estou com fome, mas logo cedo me faço um café legal e resolvo isso, vai ser lindo, obrigado.

Se eu desse três opções pra vocês chutarem o que aconteceu e a última delas fosse: acordei quatro horas depois morrendo de fome e sem sono nenhum, com a dor de dente agravada, mas mesmo assim a churrasqueira está acesa e estou fazendo comida às 0h38, em que opção você chutaria?

O final é com você, brasil.

A caverna

Estava aqui nessa madrugada sentindo o peso do mundo por não acordar cedo nessa segunda chuvosa. São as manifestações, o Brasil campeão com o Galvão relembrando o grito de “é tetra” (vai fazer 20 anos ano que vem, repare), talvez o nacionalismo tardio dessa gente, ou apenas minha dor de dente e a falta de um sono justo. Lembrava de uma época em que os problemas pareciam mais simples de se resolver. Um lugar livre de choro, livre de autorrepulsa, livre do meu caderno de capa preta cheio de borrões nas linhas.

Outro dia li um texto sobre como resolver seus problemas de uma forma simples. O cara contava como quitou suas contas, emagreceu e tal. Só podia ser coisa do Zen habits esse monte de resoluções simples que nunca se casam com o que vive gente comum como a gente. Saio de lá sempre desesperado. Se uma cultura zen não acabar com meus problemas, o que mais vai?

*

Estive acompanhando os protestos de longe. O mais próximo que estive foi quando Aline esteve lá nos primeiros dias, os dias de horror, antes do fuzuê do largo da batata e uns dias antes do despertador da nação tocar. Ela estava lá e me contou eufórica sobre como foi pesada a linha de frente, como sentiu fragilizar o aparelho do Estado. Tenho um orgulho imenso dela que tanto me incita, que tanto me diverte.

Minha distância dos dias de fúria aconteceu porque estava numa semana de mudanças, pintando o apartamento pra poder devolver a imobiliária com as paredes relativamente limpas. Consegui. E finalmente me mudei para a caverna, a casa nova. “Caverna” porque é distante da rua, distante do mundo, embora dê pra ouvir de longe um carro ou outro tocando a música da Anita.

E aqui é lindo.

A casa tem meu jeito, meu silêncio, meu desapego. É daqui que tenho escrito tanto e publicado em lugares invisíveis. Está tudo correndo bem e a solidão é menor do que eu esperava. Me sinto bem com os móveis e com as paredes e os pequenos cômodos. Tenho tido ideias excelentes e conseguido me livrar da consciência, da autofobia.

Eu falo tanto sobre a saudade da simplicidade de ser uma criança sem compromissos e sem prejuízos mentais, mas a verdade é que ter o controle sobre a sua vida (e lavar a sua própria louça) torna a felicidade menos distante e holográfica do que ela aparenta.

não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

Algo único

Queria dizer a ela que essas crises acontecem toda hora na minha cabeça, que eu sei por onde ir, mas às vezes não consigo lidar com o que penso e com o que sou ao mesmo tempo. Que ela está fazendo tudo certo e que eu espero novamente acreditar no que sou. Outro dia li algo num tumblr que dizia “esteja rodeado por tudo o que te faça sorrir” e, cara, ela é o ponto principal de tudo isso de viver com alguém que saiba pelo que seu coração se move.

Eu precisava estar de pé quando outro mês chegasse, quando conseguisse superar toda aquela fase pesada e ela estava lá, com uma pasta cheia de trabalhos debaixo dos braços e eu, com meu embaraço, sem acreditar no que poderia estar acontecendo ali.

Descobri querer que as coisas sejam pra sempre porque preciso de paz, preciso levantar todos os dias de manhã e saber que ela está lá, que está comigo e que não estamos perdendo tempo com escolhas desacertadas. Eu passei um bom tempo pensando que o máximo que a felicidade poderia me proporcionar era estar presente na vida de alguém que fosse feliz e, dessa forma, mesmo se eu estivesse distante da minha própria vida, tudo ficaria bem. Ao lado dela nada tem a necessidade crua de ser feliz, por isso é tudo tão natural e bonito e confuso – 29 anos de insegurança não conseguem ser derrubados da noite para o dia.

Estou cheio de constatações. De terríveis constatações sobre mim. De traumas e lições de vida que não me causaram nada além de dor e afastamento. Queria dizer a ela que o silêncio às vezes é por isso. É como se você estivesse no meio de um sonho e os personagens começassem a te avisar, mas você está vivendo grandes dias e não pode estragar tudo só porque tem um cara criado pelo seu subconsciente dizendo que tudo não passa de imaginação.

Sigo esperando que ela continue a enxergar em mim esse algo único que eu enxergo nela.

É impossível não amar alguém que lhe cause ataques de riso com coisas bobas. A despeito de todo o desamparo em que me encontro emocionalmente, Aline está fazendo o nerd do colégio, da adolescência e da faculdade se sentir o maior brasileiro de todos os tempos™.

Tanta coisa

A sociedade da informação desnivelada, da informação nenhuma, do facebook pra saber das notícias, das novas piadas, de qual time está sendo aloprado por qual torcida rival que vai torcer contra outro time qualquer numa outra semana qualquer e estamos aqui, eu a vitrola nova, que não desiste de mim, com todos esses discos de um real e toda essa compaixão por ouvir de novo a Elis Regina cantando as músicas do Belchior. E o que todo mundo lembra é que ele deve algo no Uruguai, que ele se afastou do mundo, das celebridades construídas em cadernos de jornal e fotos de agência de notícia. Belchior entendeu o mundo, um comediante com frases de efeito esquecidas.

“tome um refrigerante, coma uma cachorro quente,
sim, já é outra viagem e esse meu coração selvagem
tem essa pressa de viver”
http://www.youtube.com/watch?v=OKTRc7x-zCM

Esqueci como é contar a vida sem o drama. Sem dizer entre palavras que você tropeçou forte e que as chances de encontrar o caminho por onde seguia ficam cada vez mais distantes. Esqueci também como é contar isso tudo sem soar tão depressivo e doentio, sabe. Porque, no fundo, é mais motivador do que se pensa. Recomeçar, é isso que significa. E eu pareço escolher minuciosamente a forma de transformar um pensamento motivacional como “agora vou recomeçar a vida” a soar como “tropecei e não sei onde estou por enquanto, mas espero voltar ao meu caminho em breve”. É um superpoder, eu acho.

“And I wish it could always be like
This is something I’ve been missing
It’s not too late to change what you’ve become”
http://www.youtube.com/watch?v=DrZ8tpu_VCQ

Tanta coisa.