Staying alive was no jive

Quase que completamente burro

“Eu tenho um plano
E creio ser possível
Ser de novo invisível
E voltar
Mas são quatro da manhã
E o posto ainda é meu
A esquina me acolheu
Vou honrar
Velho e acabado no espelho
Estou mal
Olhos vermelhos
Um BO de três mil graus
Travesseiro frio
Espaço vazio
Arredio
E a essência denuncia célebre ausência”
–Mano Brown, “Felizes

Eu espero meio quase que completamente burro por aquele episódio em que Ted espera Tracy dar três passos à frente, enquanto ele fica parado olhando. Ela pergunta o que é, ele diz “eu quero me lembrar desse momento”. E quando você começa um texto dizendo o quanto você é meio quase que completamente burro já significa como todas as coisas estão sendo do outro lado deste computador.

Acho que, no fim das contas, o grande mal de nossa época é basear nossas experiências de vida na indústria cultural mesmo. Grandes amores, grandes descobertas, aventuras e realizações acontecem e indepedem se você terminou ou não todas as temporadas de Grey’s Anatomy. Só não vai acontecer com você caso você seja meio quase que completamente burro e fique acreditando muito que existe uma historinha com a sua cara neste mundo e que ela pode emocionar as pessoas caso você conte.

É, eu sei, tô amargurado, superem. Sempre passa.

Eu acho que espero a cena do Ted com a Tracy porque no fundo, bem no fundo, eu acho que existe uma vida que não me seja tão babaca e errante quanto eu gosto de dizer. Que seja simplesmente leve e que me faça querer acordar todos os dias querendo viver de verdade, não apenas passar por aqui.

Enquanto isso sigo errante pela vida, falando quantas bostas tiver de falar, aumentando a compulsão alimentar a níveis estratosféricos, vendo a luz no fim do túnel se tornar apenas mais uma lembrança, dormindo sem saber como cheguei na cama e fazendo outras péssimas escolhas na vida.

Não há outro jeito de superar situações traumáticas.
Mas só funciona pra quem é quase que completamente burro.

ou não venha

Calma.
Respira.
Reescreve.

Meus processos de composição de coisas em geral precisam ser assim, ultimamente. Caso contrário vou acabar atacando firmemente pessoas e ideias, ou vou apenas dramatizar ao extremo situações banais que não mereceriam a menor atenção. Então eu acalmo. Deleto tudo, ainda que tenha escrito o maior excerto publicado em um blog pessoal nos últimos dezesseis anos. Respiro pra lembrar que já estive lá, sei como é a sensação de não pertencer, sei que ela continua e, se eu tiver paciência, ela acaba indo embora, dando lugar a uma frustração maior e talvez até mais difícil de lidar, se você olhar com carinho.

Aí volto a escrever.

Meu momento atual requer um cuidado especial. Da última vez em que estive nessa, eu dormi na rua da pior forma possível, preocupei a família, fui ofensivo com pessoas que não mereciam e receberam seus devidos pedidos de desculpas (embora a culpa fique para sempre). Bebi demais, estraguei momentos da minha vida que não deveriam ter sido trocados pela leveza extraordinária de uma garrafa de whisky de 9,90 misturada com guaraná convenção.

Eu só não consigo lidar mesmo de cara limpa, com o peito aberto e talvez seja só isso que me falte. Voltar a olhar o dia como algo útil para brincar com meus gatos, pra ver o sol nascer e se pôr, ao invés de olhar meu celular a cada dois minutos em busca de uma mensagem que resolva completamente a minha vida, que me conforte e me reconcilie com o universo.

As mensagens não vão chegar.

E este nem é o maior excerto publicado em um blog pessoal nos últimos dezesseis anos.

um demoreel das minhas bad trips em 2017

Parece que passamos, juntos, pelos piores tempos. Eu e este blog. Eu quis terminar tudo com ele ontem, percebi meu último final de ano e como ele tem se repetido de um jeito trágico durante tanto tempo. Eu passei a escrever aqui para desaguar da cabeça o monte de merda que mantinha comigo. Às vezes muito engraçada, grande parte das vezes trágica, e uma parte ainda maior das vezes cômica de um jeito psicótico, como se estivesse sendo escrita por alguém que realmente me detesta, ou quer iniciar uma nova escola de bullying profissional, com certificados do MEC.

Estes dias, durante o mais pavoroso dos finais de ano que já vivi, comecei a escrever um post amargurado sobre a fase que estou vivendo hoje e notei: estava falando o mesmo de anos atrás, mas agora sobre outras pessoas. Notei, enfim, que o problema sou eu e se existe alguém que precisa dar um tempo com isso aqui, essa pessoa sou eu.

Parece que não consigo mais ler, escrever, tocar, conversar, criar. Manter meu blog tem sido um fardo, pra dizer a verdade. Eu começo posts e não termino, eu tento mudar layouts e não quero mais, eu escrevi ontem um post de despedida e acabei de deletá-lo porque me detestei ainda mais fazendo isso.

Tem a ver com a vida que levo em 2017.

Me pego em silêncio olhando pro teto, ou pro infinito, mais vezes do que posso me orgulhar. Quando volto pra vida real, Marla me olha cabisbaixa, sem entender. Eu fiz dela uma gatinha um tanto triste com sua própria existência, assim como eu sou. Isso me machuca mais do que qualquer outra coisa.

Eu tive tantos planos pra coisas que não deram certo, tantos sonhos que não vingaram até agora, tantos amores que perdi por viver num mundo despedaçado que eu mesmo ajudei a construir. Agora eu tenho um puff grande pra deitar no chão, zero intenção de me tirar da lama, falta de criatividade, um coração rasgado em pedaços por tanta mágoa que consigo acabar esquecendo, mas que não deixa de ficar registrada. As marcas são pra sempre. Conviver com elas me faz forte, ao mesmo tempo que vai criando em mim esse ermitão que passa o ano novo com os gatos, esperando dar meia noite pra abraçá-los e evitar que eles tenham medo dos fogos.

Sou esse tipo de estereótipo em 2017. Caindo no chão de novo, olhando o mundo todos os dias como se fosse a última vez.

Minha distância do mundo das pessoas é algo pavoroso. Sinto falta de não pensar em nada que me machuque de alguma forma. É um sentimento mesquinho, egoísta, raso. Me sinto cada vez mais socialmente doente, cada vez mais sozinho e, caso pare de beber realmente, vou me despedir de vez das interações sociais (que hoje só se dão quando estou bêbado ou em vias de ficar bêbado).

E aí vem aquela vontade forte de deixar de existir.
Essa eu nunca consegui evitar.

Ansiedade

Minha ansiedade tem dado surtos catastróficos no último mês.

Acontece que eu tenho essa situação-problema da qual eu não consigo sair. A dor de cabeça já devia ter passado a essa altura, mas ela segue em frente me acompanhando. Então eu sofro. Pensando no próximo e-mail que vou receber, no dinheiro que não vou ter, nas obrigações que terei de cumprir. Eu sei o quanto corri atrás de tudo pra fazer as coisas do jeito certo. Eu sei também que deveria ter feito muito mais. E me culpo o tempo todo por não pensar com tanta antecedência sobre tudo o que poderia acontecer e vem acontecendo.

Não é nada demais, gente, mas a minha cabeça trabalha de maneiras tão misteriosas que nem sei lidar.

Acredito que tenho descoberto, finalmente, o que é ou como funciona a ansiedade. Espero que ela não evolua e acabe ficando ali quietinha no lugar dela, esperando momentos absurdos como este que vivo para agir. É preciso conviver. Às vezes eu tiro a cabeça do problema e avalio ele como se estivesse assistindo a vida de outra pessoa. E parece que fica tudo bem no final, vai ficar. Eu só não consigo ter milhões de afazeres durante o dia e ter que lidar com este verme me comendo o cérebro de dentro pra fora.

E então vem a tremedeira, o calafrio, a sensação de estranhamento e qualquer riso das pessoas de fora faz com que elas soem insuportavelmente felizes. Qualquer música mais alegre me irrita, qualquer conversa que não seja profunda ou repleta de sentido, me deprime. Portanto, não tenho trabalhado direito. Não tenho paciência para livros ou músicas, apenas para o burburinho sem sentido das pessoas na estação de metrô (eu não as ouço, apenas os barulhos, mesma técnica que uso no trabalho selecionando o Coffee Shop no A soft murmur).

Espero que tudo isso passe logo. E que não se agrave mais.
Não sei do futuro, mas os pensamentos horríveis que começo a ter sobre a vida não são exatamente um bom sinal.

Relícario descontrole

Tava pra sair faz tempo o blog de dieta. Passei pela fase de achar que um vlog era o certo a fazer, mas aí caí na real de ter 32 anos e precisar de mais do que um diário pra manter um canal no youtube. Aí criei o blog, pra não deixar os textos perdidos por aqui. Quem estiver numas de acompanhar essa saga e todas as minhas peripécias pelo caminho (21kg depois, são várias que não dá mais pra contar nos dedos).

https://medium.com/relicariodescontrole

relicas

No que você está pensando?

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Não sei de todas as coisas que me aconteceram essa semana, qual a mais peculiar. A começar pelo cara entregando folhetos dentro do shopping Vila Lobos que me disse “porra, bota um som aí nesse carro, cara, um sertanejo, um rock aí, irmão”. Aceitei o papelzinho e saí do estacionamento. Já na marginal, descobri que o papelzinho se tratava de venda de apartamentos e nada de som automotivo.

O nível de audácia de uma pessoa que te diz “bota um som aí irmão” enquanto você está tentando apenas passar o ticket na cancela da saída é algo que tenho alguma inveja, no íntimo. Afinal, eu devia estar ouvindo um som mesmo. Sábado, cacete, bota um racionais aí pra todo mundo ver que você tá ouvindo, ladrão, seria pedir demais?

Seria.

Outro caso misterioso foi a roda com saudades de sua função social. Como devo ter deixado claro neste blog, na semana passada mudei novamente e agora aqui é capão redondo porra no meu novo lugar, reconheço como estava com saudades de ouvir todos os discos do revelação em looping tocando ao mesmo tempo diferentes músicas em diferentes casas.

Daí, vamos à roda. Estava eu numa pequena grande avenida do bairro, cujas ruas transversais são, em geral, ladeiras. Parado no trânsito, olho pra frente e vejo uma roda descendo sozinha uma dessas ruas, até bater num carro estacionado na avenida. Uma roda provavelmente cansada de ser deixada de lado, vista apenas como decoração de borracharia e, como projota, resolveu descer a ladeira pra ver o que tinha por lá.

Talvez a coisa realmente peculiar foi o dono do antigo apartamento me pedindo 3 mil reais pra reformar o lugar.
Direcionem boas vibrações pra cá, não tá fácil.

Classe de 2006

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Meu reencontro com o pessoal da faculdade foi mais feliz do que eu imaginava que seria. Semanas antes já me imaginei cantando classe de 97 no caminho de volta, “prefiro ter na memória os dias em que fomos iguais”, chorando pela sensação de derrota social que estes eventos podem proporcionar numa cabeça já repleta demais de overthinkings.

O que aconteceu lá foi apenas a certeza de ter amigos distantes de verdade, mas ainda assim, amigos o suficiente. Me espanta a quantidade de histórias das quais não participei, happy hours que não frequentei quase que exclusivamente por ser como sou. A única péssima sensação foi a de que eu deveria ter encontrado mais essas pessoas todas nestes anos.

Sim, 10 anos atrás éramos outras pessoas, mais idealistas, pós adolescentes, ensimesmados enchendo a cara no bar de quinta feira. Hoje somos pessoas adultas, profissionais, com famílias novas e histórias melhores pra contar.

155

 

jabba

15 dias depois, mais um relato sobre esta tentativa de reeducação alimentar. É uma tentativa despretensiosa, mas que precisa dar certo. Acho que é porque eu preciso dar certo também. Foram 15 dias pouco mais complicados que os primeiros 21 anteriores. Digo isso porque aconteceu de sentir falta de algum sabor diferente num dia ou outro.

As tentações as quais acabei caindo foram 1 halls (não um pacote, uma bala mesmo) e uma banana num dia que cheguei no trampo e não tinham mais maçãs no cesto (agradecendo diariamente por estas frutas no trampo, sério). Ah sim, teve um dia antes de me pesar, que foi uma caralhada de melancia. Não sei porque julguei que não faria muita diferença.

Outra das tentações que me acometeram neste mês foi num dia que a Mari fez a degustação de doces finos para o casamento da Camila e do Danilo. Na ocasião, mandei mensagem pro Diego um tanto desesperado, como um ex crakeiro na porta da biqueira. Conversamos ali 3 minutos e me convenci a não comer nada, embora tenha provado um dedinho de cheesecake de frutas vermelhas, mas apenas porque não sabia qual era o sabor de um cheesecake e sempre ter sido julgado por esse fato (nota pessoal, o sabor é mágico).

Daí, na balança, menos 4kg. Decepcionei um pouco porque esperava mais. Principalmente por estar me sentindo tão bem. Subindo escadas, andando tranquilamente, quase correndo, não fosse meu tornozelo machucado.

Não me sinto menor, não me sinto uma pessoa emagrecendo, de forma alguma (ainda me olho no espelho enxergando o jabba the hut). Mas a diferença física é incontestável. Provavelmente também pelo fato de ter parado de fumar e beber e chegando ao segundo mês sem ressacas, note.

Estou seguindo em frente. Um abraço a todos os envolvidos.

Rio 2016

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Teve esse momento na vida que não sei exatamente bem quando se deu, mas provavelmente por volta dos 30, quando eu passei a me desapegar de gostos por qualquer coisa fora da realidade do meu violão e do meu pequeno universo particular. Acho que veio junto com o fato de nenhuma TV nunca funcionar em nenhum lugar onde morei fora da casa de minha mãe (e o fato de eu também não estar muito ligando em reclamar disso pro proprietário). Acontece que perdi o gosto por baladas, por confusões de gente querendo se divertir a todo custo, cinemas, praças de alimentação, teatros (não que eu tenha ido ver alguma peça nesse tempo todo). E então passei a não assistir futebol de quarta nem de domingo, nem me interessar pela NBA, nem pelas Olimpíadas.

Esta última tem me causado reflexões. Porque, veja, em todo portal de notícias que você entrar, lá vão estar notícias sobre atletas os quais você nunca ouviu falar e sequer se importa. O que não os torna menores que você, acontece que eles fazem parte da sua vida tanto quanto os tiozinhos barbados de chapéus extravagantes abraçados na Oktober Fest de um ano qualquer ou quanto uma mandioca gigante colhida numa pequena fazenda de São José do Rio Preto (pausa in memorian das 5 pessoas que você conhece que fariam piadas automáticas com o termo “mandioca gigante”).

Claro que temos polêmicas gigantes também. Gente horrorizada com a hipersexualização da mulher como se fosse a grande novidade do mundo (provavelmente nunca assistiram pânico na TV), gente rebatendo essas críticas falando de coisas como o tumblr de C. que elogia a beleza e os corpos de atletas masculinos também. Debates que deixam de lado tudo o que circundou esse evento antes que ele acontecesse, como gente que foi desalojada e humilhada durante o processo de construção de um Rio de Janeiro mais gringo-friendly que o habitual.

No fim das contas, a reflexão tem ficado num lugar comum: o futuro. Fico imaginando como será que vou lidar, caso um dia chegue a ficar velho e me perguntem “você lembra muita coisa das Olimpíadas de 2016?” e eu só possa responder com “poxa, pra ser sincero não me lembro muito bem, mas acho que C. tinha um tumblr com corpos de atletas sarados”.

Qui vivra verra.

Degustador Freelancer

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Daí estou na fila do mercado empilhando coisas em meus braços por preguiça de andar mais 15 metros até o lugar onde depositam os carrinhos e cestas, lugar este que não fica na entrada, nem tem um acesso fácil, mas dista 15 metros da porcaria da entrada.

Na minha frente, uma moça com uma garotinha e um cara, visivelmente embriagado, ou possivelmente drogado. Julgo pelos trejeitos malandros demais que as pessoas só adquirem após a quarta garrafa de itaipava ou lá pelo terceiro baseado. Num dos balanços, o rapaz pisa em meu pé e pede desculpas com um enfático Ô IRMÃO DESCULPA AÍ VIU, possivelmente após ter notado meu tamanho (um aliado forte para que as pessoas sejam gentis com você).

Mais à frente, quando a fila entrava naqueles pequenos corredores forrados de salgadinhos antes do caixa, rapaz abre uma batata Lays, “isso aqui é bom demais”. Deixa encostado nos outros salgadinhos e vai apreciando aos poucos, enquanto a fila não anda. Um passo pra frente, ele abre um Doritos, em seguida uma Ruffles. Quando a filha lhe pede para abrir um Pingo d’Ouro ele nega nervoso, “isso aí é uma bosta” e, pouco antes de ser atendido no caixa, abre um Stiksy, aqueles palitinhos viciantes.

Um verdadeiro degustador, faltou apenas um funcionário do mercado trazendo copos de água entre cada prato.

Chega a vez do degustador profissional de porra nenhuma ir até o caixa (ele tinha pego um tic tac pra pagar, coisa de assaltantes de mercado experientes). Antes do beep tocar, ele vira pra mim com 5 palitinhos cheios de sal na mão e diz a frase que jamais sairá da minha cabeça: “eles tentam jantar a gente, mas nóis almoça eles”.

Que noite.