Síndrome de Trilha Sonora

Daí que eu saio do prédio para fumar, vou até o carro e vejo que estão implodindo qualquer coisa na Pedreira próxima ao trampo. Explosões, um nevoeiro foda no horizonte e eu pouco me lixando pra tudo, quando ouço:

“Hard as a rock, it’s hard than a rock”

Um cara fumava no estacionamento ouvindo AC/DC no celular. How convenient.

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Certa vez, quando da minha fissura pelo The O.C – é, eu revelo cada coisa neste blog, depois explico melhor – gravei todos os seis CDs da trilha sonora para vir ouvindo no carro. Ligo no Dandy Warhols e saio. Esqueço a música quando começa a introdução com uns chiliques alternativos, vou passando pelo condomínio e vejo três amigos de infância sentados no banco da alameda, às 10h da manhã, porque ócio de verdade precisa ser demonstrado inloco. Me passou uma breve nostalgia ao ver os três e lembrar deles naquela fita cassete de um aniversário em 92. E então o Dandy Warhols começa a cantar:

“A long time ago, we used to be friends”

Eu tive medo.

#001

e estes olhos tão pequenos?
são para verter lágrimas, filho.

–semana tensa.

Sou Winston

Comedido, inexplicável. Tornar-se adulto é fazer parte do bando, da multidão de gente sozinha. Engrenagem da máquina, funcionário, cidadão padrão. O “sistema” que antes parecia só uma palavra boba em músicas de protesto se faz presente como nunca antes. Preso sem correntes, numa verdadeira detenção sem muros. É proibido olhar e sentir, é proibido ser.

Sou Winston e aprendi a odiar o Grande Irmão.

Adeus, Internet Móvel

Bem, bloquearam minha linha telefônica um dia antes do meu aniversário (isso vai estar também no post final sobre o inferno astral deste ano). Não recebi ligações dos milhares de amigos espalhados pelo país de meus 6 amigos atuais, nem vi as mensagens, e-mails, nada.

Por que? Porque eu não paguei.

Primeiro, me cobraram o dobro do valor nos últimos dois meses. Quando li a frase “Chegou sua conta” no envelope, imaginei alguém da Vivo segurando a risada e me entregando o envelope.

E eu, que só usava o smartphone por conta da internet móvel, ainda tentei explicar para a moça do atendimento que era uma cobrança indevida. Mas ela só fez parcelar em tantas vezes e me cobrar até o mês que eu não usei.

Vivo, incompreensão como nenhuma outra.

Agora, se me derem licença, vou desbloquear o celular, esquecer a Vivo e abraçar o SPC-Serasa. Bem-vindos à minha vida.

Robson Assis abandona a vida móvel deixando uma conta ativa no foursquare com seis badges.


Nossos sentimentos à família.

Das Primaveras

Hoje completo o ano 26 de existência.

Comecei a enxergar o mundo com olhos estranhos de uns tempos pra cá. Clichê assim.

Não sei se foi o papo existencialista naquele vídeo do George Carlin ou essa filosofia de pensar no quanto se é pequeno em relação aos universos em nossa volta. Desaniversários, sabe, aquela história? Você comemora um ano cumprido, pra esquecer que só está um ano mais perto do final da vida.

Parece que não estou só envelhecendo, estou começando a tecer reflexões dramáticas e tristes como um velho.

Hoje é meu aniversário e não vou sair de casa. De presente, ganhei dois livros da coleção de clássicos da Abril. Minha garota, sempre. Meus pais já me pagam impostos, boletos e combustíveis o suficiente pra pensar em presentes. Dá pra se sentir um moleque toda vez que se pede dinheiro pra gasolina. Mas dá pra se sentir um otário também.

Feliz aniversário pra mim.

Rascunhos de um inferno astral #2

Fiquei sabendo que meu amigo Wolvs ia me dar de presente de aniversário um ingresso para o show do Social Distortion, que aconteceu semana passada. O problema é que já tinham dado dois ingressos para o Megadeth e decidiram que não iam ceder mais um pra ele. #VDM

ps.: Social Distortion é o show de 2010 que mais me arrependo de não ter ido

***

Daí chega o maluco da gringa para terceirizar um serviço aqui na empresa. Aí nego quer almoçar com o cara e bancar o entendido da língua inglesa. Fila gigante, 12 minutos até a entrada do refeitório e uma frase:

-Here…..it’s…it’s…you know….all days, same place…tsc, tsc… [balançando a cabeça negativamente]

Impressionante o modo como as pessoas reclamam da vida pra qualquer um. Nego acha que a qualquer momento o Luciano Huck pode sair de trás de um arbusto e dizer: Amigo, você está no Lar Doce Lar dessa semana!

Eu Coleciono Flyers

Colecionar flyers é uma arte que começou ao acaso, pelas tantas vezes que acumulei restos de papéis na gaveta. Certa vez, fui arrumar a coisa toda e encontrei mais flyers do que oxigênio, e então eu comecei a juntá-los.

A coleção data de 2003.

Separo os itens em categorias pra não me perder na hora de organizá-los. E geralmente a organização acontece em feriados no meio da semana, como o de ontem.

1. Publicidade
Os de publicidade são aqueles que você encontra no caixa de algumas baladas, em lojas de roupa conceituais e cafés. Geralmente ficam em expositores e as pessoas têm vergonha de pegá-los e serem taxadas de… bem, de uma pessoa que pega papéis no expositor, sei lá.

Geralmente não gosto destes porque são cartões postais, mas se fossem SÓ cartões postais, seriam vendidos. Eles tem uma publicidade qualquer ao invés de uma paisagem bonita. Ao invés do Viaduto do Chá, tem uma televisão Samsung, ou o comercial de um novo seriado da Warner. O que lhes garante o direito de serem gratuitos.

Embora, posso dizer, alguns deles valem a pena:

2. OUTS
Na verdade, tenho poucos flyers da OUTS, mas são, sem dúvida os que mais gosto. Pelo bom gosto do papel, da arte – mesmo os de material mais vagabundo têm artes bem-feitas. Sim, a OUTS é aquele club no final da rua Augusta, em frente ao Inferno. Toca Indie Rock, termo que muitos de meus amigos trocaram por “som meio outs”. Pra encaixar numa frase o exemplo: “sabe a DJ Club, ali perto da Nove de Julho? É meio abafado e tals, mas a música é boa, eles tocam um som meio outs”.

3. PUNK
É onde está o auge desta coleção. De todos os flyers que possuo no total (cerca de 400), esta categoria ocupa pelo menos 70%. Coletados em geral na porta de shows, clubs e lojas da Galeria do Rock, os flyers de shows de rock são meu grande orgulho. E entre 2006 e 2008, se tornaram também um hobbie.

Óbvio que muitos destes shows eu não fui. Mais óbvio ainda que os flyers que peguei nestes shows estão mais maltratados que aqueles que peguei numa loja ou num club. Alguns têm fita durex na parte de trás, para garantir a integridade física. Algumas raridades como a passagem do Discharge, Vibrators e Agent Orange em SP, mais alguns clássicos como o NX Zero e Gloria no Hangar 110 e locais mais fuleiros (fãs alucinados que queiram comprá-los por preços escabrosos, me add).

A coleção completa está no Flickr:

JCVD, a comédia da vida pública

“Um ator, um lutador, um mito”. Se eu escrevesse roteiros pra TV, ia querer começar a crítica para este filme assim. Pois bem. Ontem parei pra assistir JCVD, esse documentário ficcional sobre a vida do Van Damme lançado em 2008 que encontrei na banquinha de DVDs piratas na esquina de casa e pouco conhecido.

Uma comédia pastelão é o pano de fundo para tratar das tragédias na vida pública de Jean-Claude Van Damme, que interpreta a si mesmo. Vítima do equívoco ao entrar numa agência dos correios que está sendo assaltada, é forçado a usar os resquícios de sua celebridade em favor dos bandidos.

À sua maneira inconveniente e divertida, o filme vai caminhando para lugar nenhum durante pouco mais de uma hora. Entre trapalhadas de ladrões e oficiais de polícia semi-nus, momentos de crise como uma conversa de Van Damme com seu empresário, ou as repetidas vezes que fala ter perdido seu papel em determinado filme para Steven (Seagal), você vai sacando que o filme é na verdade um grande desabafo.

E aí, no meio de uma cena, o inesperado. Van Damme é tomado por um desespero doentio dos seis minutos que valem por todos os outros 91. Fala sobre sua vida, seus erros, seus fracassos e más escolhas. A performance deste seu monólogo garantiu a ele o segundo lugar num Top 10 da revista Time:

“Este filme é para mim. Cá estamos nós, eu e você. Por que você faz isso? Ou por que eu faço isso? Você faz meus sonhos se tornarem reais. Eu pedi por isso. Eu prometi a você algo em troca e eu não fiz minha parte. Você vence. Eu perco. A menos que o caminho que você definiu para mim seja cheio de obstáculos onde a resposta vem antes da pergunta. Sim, eu faço isso. Agora eu sei porque. É a cura, pelo que tenho visto aqui. Tudo faz sentido. Faz sentido para aqueles que entendem. Então… América, pobreza, roubar pra comer… Perseguir produtores, atores, estrelas do cinema, ir a boates na esperança de ver uma celebridade com minhas fotos, revistas de caratê. É tudo o que eu tinha. Eu não falava inglês. Embora tenha feito 20 anos de caratê. Porque antes eu não era assim (mostra o bíceps).”

Travestido de caráter confessional, com JCVD Van Damme diz ao mundo que não é um exemplo, que trilhou os caminhos errados e tomou atitudes que não deveria. E o que seria uma comédia de baixo orçamento se transforma de um minuto pro outro num grande drama auto-biográfico.

Estando eu também farto de semideuses, me sinto confortável pra citar Fernando Pessoa:

“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?”

O filme é tão bom que sequer mencionei a palavra “espacate”. Ops.

Porque a vida é agora

Daí aquela operadora de cartões de crédito me liga no sábado.
Reproduzo abaixo o diálogo:

-Ow, filhão, não quer fazer um acordo? Pelo menos seu nome não vai pro SPC-Serasa.
-Demorou, fechadão.
-Nossa proposta é tantas vezes de 600 paus.
-Não vira.
-Quanto você consegue pagar?
-200 mangos.
-Vou ver, faz uma média aí na linha.
[…após a média]
-Olha, consegui em tantas vezes de 299 paus.
-Mas só consigo 200.
-Tá, olha, o que eu posso fazer por você é dar um desconto em cima da parcela, interessa?
-Sim! Vê aí.
-Olha, consegui aqui o desconto de 1 real sobre cada parcela. Assim você paga tantas vezes de apenas 298 paus.
-Porra, agora sim.
-Posso confirmar?
-Claro, mas vai logo que não quero perder essa oportunidade única!

Não aconteceram as ironias finais. Tive pena da pobre atendente de telemarketing “eu-só-trabalho-aqui-moço”.