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Todo mundo sabe escrever

Certa vez trabalhei em par com um redator publicitário raiz. Desses caras que se levam a sério demais, mas que também dão uma tremenda aula de eloquência ao defender teorias sobre um KV. Pude assistir duas vezes os argumentos dele sobre a estrutura de uma landing page de uma lava e seca (!) de uma forma que eu jamais faria. Acho que foi ali que entendi que talvez “redator publicitário” não fosse exatamente o meu forte. Eu não quero defender meu texto. Ele nem é meu, oras.

Digo isso porque nunca tive a menor intenção de deixar minha marca registrada em textos que me pagam para escrever. E com isso não quero dizer que estou pouco me ferrando pros clientes, mas sim que o texto precisa ter a cara da empresa, do negócio e não meus trejeitos engraçaralhos e puta sacadinhas, sabe? Quando um cliente revisa meu texto eu quero acreditar que a pessoa está tentando empurrar o lado institucional da parada pra tudo se encaixar, dá pra entender?

Enfim.

Acontece que esse redator do qual estava falando (é TDAH que chama né?) me deixou um dos ensinamentos que mais me fizeram pensar sobre o trabalho de redator em todos esses anos de indústria vital (e de referências que vão desvanecendo com o tempo).

Era uma terça-feira qualquer, num horário de almoço qualquer, ou numa tarde qualquer na copa. Eu reclamava provavelmente sobre nosso chefão master que estava sempre enchendo o saco querendo mudar palavras nos textos meio sem o menor critério. Porque o ponto, afinal, é esse: nós passamos horas escolhendo palavras por motivos mil. Se alguém me dá bons motivos pra mudar um texto eu entendo perfeitamente e troco sem nem pensar muito sobre o assunto. Por outro lado, se a pessoa bate o olho e simplesmente diz algo como “eu faria diferente” chega a me coçar a garganta pra responder algo como: “pois é, certamente faria. Você nem redator é”.

Mas a esculpida resposta do meu camarada foi algo assim:

Cara, um dos maiores problemas dessa vida de redator é esse. Se você ver o designer, ele monta uma arte linda, absurda, ninguém sabe o que ele teve de fazer pra entregar aquela peça maravilhosa. Assim como um dev que monta essas landing pages com todos os recursozinhos que o cara pede. Ninguém entende nada, só quer ver a mágica acontecendo.

Até ali, ele já estava coberto de razão e eu já estava vendido (sério, eloquência na voz). E então ele finaliza com a frase que aluga até hoje duas coberturas triplex  com vista pro mar na minha mente:

O problema do redator é que todo mundo sabe escrever.

Ali ele quis dizer que todo mundo vai dar pitaco.

TODO.

MUNDO.

O dono da empresa, se você pensar bem é até o de menos. Qualquer pessoa que tenha estudado numa escola e tenha assistido um aninho sequer de aulas de português pode passar por trás do seu notebook e dizer “olha, acho que caberia um travessão aqui, viu. Vamos refazer?”

Dali pra frente, essa frase nunca saiu de moda nas minhas teses solitárias de autoconsciência profissional que acontecem geralmente às quartas. E nessas teorias, a agência que eu abro mentalmente teria uma placa na redação, onde se leria: não retruque redatores com o futuro do pretérito do indicativo.

Não sei, eu faria diferente.

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LLMs e a carreta furacão do mercado

A melhor parte de trabalhar usando a inteligência artificial o dia inteiro é começar a entender como elas funcionam e de que modo operam a construção de textos. Entendo como isso pode ser perturbador, especialmente para quem, bem, opera a construção de textos como eu, mas o que a gente mais precisa entender hoje em dia é bem simples: se não começarmos a trabalhar juntos, vamos ser atropelados sem piedade pela carreta furacão do mercado.

Queria muito evitar me explicar aos contratantes aqui, mas talvez seja necessário o disclaimer: eu nunca vou entregar um texto puro que venha direto de uma LLM. O que vai acontecer é que em alguns casos vocês podem encontrar termos sugeridos, talvez até frases inteiras e tal, mas nunca um texto pronto, executado a partir de um prompt. Eu escrevo porque amo e este blog tem 15 anos (precisava soltar essa carta).

Em outras palavras, fiquem tranquilos e se apeguem em valorizar quem trampa com letras e só precisa pagar as contas. Quem sabe que as IAs talvez demorem tempo demais pra entender suas especificidadezinhas voláteis que mudam de acordo com o temperamento da Patrícia Poeta no Encontro, ou com as previsões do João Bidu.

De volta ao assunto, tem esse paradoxo que me incomoda sem incomodar tanto assim: gente que nunca escreveu um texto sequer, cria um prompt, copia o resultado e cola na rede social, mudando uma palavrinha aqui e ali. Entenda que sempre que você publicar algo feito puramente num agente de IA, nós vamos saber. Não pelo travessão, nem pelas reticências unicode ou pelos emojis demais (ok, talvez bastante por tudo isso), mas a começar pela forma.

E quando digo forma, redatores talvez entendam. Quando você trabalha com alguém diariamente e tem acesso aos textos de outro redator, você acaba encontrando vícios de linguagem, formas narrativas, um emaranhado de pequenas dicas que revelam a quem pertence aquele texto (no meu caso, por exemplo, metalinguagem e frases entre parênteses como essa aqui fazem esse papel).

Saber que um texto foi gerado por uma IA não é exatamente um superpoder. Tem gente como eu que só acha curioso e tem quem ache o máximo. Mas pensa aqui comigo rapidão: se a gente que trabalha com isso todo dia, bate o olho e pega de cara quando o texto é gerado por uma IA, imagina um algoritmo desenvolvido e treinado para valorizar e evidenciar textos que são criados organicamente sem usar ferramentas quaisquer além de um editor de textos.

Portanto, se você busca relevância, autoridade, especialização, confiabilidade ou o que quer que isso signifique pro seu negócio, procure o trabalho de um bom redator. Se precisa colocar só um monte de palavras em sequência, abrace o Chatgpt como a um amigo virtual (mas assista Her antes, vai com calma).

No fim do dia (adoro termos da moda que tenho vergonha de usar em voz alta), esse texto tem um certo gosto de redenção. Porque começou a parecer um pecado mortal usar a IA no dia a dia pro trabalho que você fez a vida toda, quando, no fundo, a parada só nasceu como mais uma ferramenta. Assumir seus usos como uma prática positiva e não como enganação é tão importante quanto precaver as pessoas do uso deliberado de plataformas que podem (e vão) acabar respondendo somente o que você acha que precisa ouvir.

Afinal, inteligência (assim como a potência) não é nada sem controle, diria o slogan.

E na carreta furacão do mercado, nós só precisamos decidir se seremos o chaves ou o fofão fazendo coreografias de tiktok pra agradar o público, enquanto tentamos subir uns muros e pular lixeiras na rua pra não perder esse bonde.

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IA está alugando mansões na cabeça dos profissionais de SEO

Se você parar pra lembrar direito, talvez a gente tenha começado a falar sobre IA coisa de pouco mais de um ano pra cá (na verdade faz dois anos que o Castanhari foi trágico e dramático naquele episódio do Podpah com o Cauê). Parece que finalmente estamos vivendo a sensação dos famosos 15 segundos de fama, pelo menos quando falamos do que publicamos sobre inteligência artificial nos blogs, portais, enfim. As notícias sobre esse assunto parecem que ficam velhas num alt+tab.

É tudo uma grande bolha que tá estourando em câmera lenta na nossa cabeça, um dia de cada vez.

Daí que saiu essa pesquisa falando da inconsistência das recomendações das IAs. Em resumo, se você juntar 500 amigos e pedir pra cada um deles perguntar pra IA qual o melhor fone de ouvido disponível no mercado, ela vai te responder com uma variação considerável de marcas, modelos e opções em cada interação.

Imagino eu que ela explique porque escolheu cada um desses produtos de acordo com o que você pediu (óbvio) e ainda finalize propondo que você agora escolha microfones USB, sei lá.

Não é maravilhoso? Alguém coloca essa criatura digital dentro de um organismo vivo e vamos viver junto esse Pluribus, gente (inclusive, assista).

Ao mesmo tempo, a verdadeira tragédia ficou para quem trabalha com a visibilidade de clientes digitais, ou seja, o profissional de SEO que precisa mostrar serviço basicamente puxando sardinha pros seus clientes/alecrins dourados.

E por puxar sardinha, eu quero dizer colocar o cliente em evidência nos buscadores, o básico do trampo de SEO. Se você trabalha para uma marca de fones de ouvido, você quer que as pessoas busquem no Google e que ela apareça no primeiro resultado, pra antes que a pessoa pense em qualquer coisa, ela clique, entre no seu site, compre com frete grátis para todo Brasil usando o cupom FONE10 pra ganhar 10% de desconto na primeira compra.

As pessoas fazem seus pedidos, os números crescem, os dashboards ficam bonitinhos, uns gráficos coloridos maneiríssimos apontando pra cima, sucesso de público e crítica.

E agora vem todo um mercado de LLMs dizendo que, melhor que os buscadores tradicionais, uma IA vai te indicar diferentes marcas e modelos de acordo talvez com sua geolocalização e seu poder aquisitivo, ou levando em consideração aquela vez que você desabafou sem querer num prompt sobre a qualidade do seu fonezinho da Sony.

Esse é o momento de repensar todo um cenário de pessoas estudando as melhores formas interagir com o “robozinho do Google” (fico pensando que eufemismo vão usar pras LLMs). Afinal de contas, está tarde demais pra gente descobrir que não tem mais tanto sentido assim fazer todo um roadmap pra aumentar o alcance orgânico porque parece a IA meio que tem vontade própria?

Google pesquisar Enviar prompt.

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o pesadão, o erudito, ou o que quer que isso signifique

Eu sei que o pessoal adora convites exclusivos. Que ser chamado para uma premiere só com os gigantes da indústria cinematográfica é uma parada que seres humanos médios dariam um dedo mindinho pra vivenciar. Sei também que festivais de cinema contam quantos minutos um filme é aplaudido depois de sua primeira exibição para pessoas com vestidos longos e smokings beirando o brega e que isso faz sentido pra eles de alguma forma. É assim que as coisas andam, é nesse passo que o mercado do cinema funciona etc.

O que me perde um pouco é a sensação de que essas pessoas se sentem um tanto superiores e escolhidas em comparação ao resto de nós, que não sabemos sequer onde assistir a merda desse seu novo documentário revolucionário para a história do cinema, mas que só foi exibido em Cannes e em dois cinemas do centro velho de São Paulo.

Estamos nós aqui, vendo filmes legendados nos cinemas populares porque é o que a gente gosta, disse uma pesquisa de mercado. A gente abraça a ideia, eles seguem o jogo. E esse abismo, me parece, só aumenta.

Acontece a mesma coisa com a literatura contemporânea brasileira, essa novela Malhação de pseudointelectuais. Gente escrevendo histórias que ouviu da empregada doméstica que os segurou no carrinho de bebê enquanto a mãe rodava os corredores do Mappin nos anos 1990. Mas que agora faz sentido, afinal, as histórias precisam ser contadas. Não as nossas. As que realmente valem a pena.

Ajudar essa pessoa que te criou a escrever o livro dela e subir num palco pra receber um Jabuti você não quer, né, meu alecrinzão rose gold?

Posso estar parecendo um tanto revoltado a esta altura.

Quanto mais você distanciar o povo da cultura pesadona, erudita ou o que quer que isso signifique, mais você aumenta esse abismo, mais distantes ficam as pessoas de verdade, mais Brasis vão se criando, alheios ao que poderia ser fundamental ao seu próprio crescimento enquanto sociedade.

Posso ter falado assim pesadão, erudito ou o que quer que isso signifique, mas só queria dizer pra essa gente das mostras de cinema e das feiras literárias que se vocês realmente se interessam pelo Brasil, pela base (a mesma que o Brown trouxe aquela mão), levem essas questões gigantes que vocês abordam para as favelas, pros guetos, pras vilas, pro povo que tá perdido entre tanto Vale Tudo e noticiário de tragédia cotidiana.

Aí quem sabe a gente não constrói uma escada nesse abismo.

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Uma recomendação para a vaga de produtor de eventos Sênior

Outro dia encontrei no Linkedin essa vaga para Produtor de eventos Sênior, o que na teoria normal das coisas significaria alguém com profunda experiência em logística, prazos, cotações e uma extensa carteira de clientes atendidos, cases e um jeito de falar talvez até um pouco prepotente pelos anos de carreira.

Mas eu lembrei de um tiozinho.

Outro dia estava aqui num ponto turístico da cidade meio de bobeira porque nunca vou lá (e desconfio de quem diz que frequenta pontos turísticos da própria cidade com frequência). Fui então deixar o carro num estacionamento que não conhecia, mas onde tempos atrás havia funcionado uma casa de show ou uma balada até um tanto grande.

O tiozinho que cuidava do local estava numa cadeira de praia na porta e parecia felizão com algum vídeo do celular. Ao me ver, ele prontamente levantou e indicou o lugar onde deixar o carro com um carismático “pode levar a chave, viu? Fica à vontade”.

Só ao descer do carro percebi: o galpão do estacionamento era exatamente a pista da antiga balada. Dava pra notar os camarotes no mezanino, o palco, um balcão possivelmente de bar na lateral do galpão. As paredes estampavam uns grafites ultracoloridos e meio toscos daqueles daqueles bares de forró de quebrada. A coisa toda certamente acontecia ali, onde neste domingo só se viam alguns poucos carros enfileirados e um tiozinho simpático anotando as placas.

Peguei algumas coisas no porta-malas e parei na saída para perguntar pro tiozinho o que tinha acontecido com a antiga balada. Isaías, o senhor de idade responsável pelo local e até agora chamado apenas de “tiozinho” neste texto, me contou que era tudo dele mesmo. Isaías veio pra cidade uns tempos atrás, encontrou o lugar e decidiu investir. A casa ficou uns anos recebendo algumas atrações locais, depois de um tempo foi cotada para alguns pequenos grandes shows, mas foi caindo em desuso (talvez pelo relativo fracasso de alguns desses eventos, pensei).

– E pra mim que era da Chic Show não deu muito certo não, eu era acostumado com casa cheia toda sexta, sabe?

– O senhor era da Chic Show?

– Era sim, fazia muitas festas lá, uma época boa demais. Você conhece?

– Opa! Não frequentei porque sou um pouco mais novo, mas é história em São Paulo né? Conheço sim, po, que honra conhecer o senhor.

– Pois é, lá era demais, bicho. Tempo muito bom, viu?

– Nossa, imagino as lembranças.

– Po, ali foi minha casa, meu. Pera aí que vou atender o carro chegando ali.

– Não fica tranquilo, também preciso ir encontrar o pessoal ali, seu Isaías. Mais tarde a gente conversa.

– Beleza, bom divertimento, cara!

Na volta, numa conversa mais solta, Isaías me conta dos artistas que conheceu, dos DJs, das festas todas. Uma testemunha ocular da história da música preta de São Paulo, caído no ostracismo talvez pelas cobranças que a vida impõe. Só mais um dos nossos, atropelado pela máquina de moer sonhos que a gente conhece tão bem.

– Agora que aqui tá fechado mesmo, eu resolvi estacionar uns carros e fazer uma graninha né? Ficar parado em casa não dá.

– Tá certíssimo. E esse som aqui conhece? (eu já dentro do carro pra sair tocando Earth Wind & Fire).

– Caramba, cara! Uma viagem no tempo. Obrigado pelo papo. Bom final de domingo aí.

– Valeu, até mais, seu Isaías.

Fica minha indicação para a vaga. Como produtor de eventos Sênior, Seu Isaías é só carisma e história boa pra contar.

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Pós-verdade, esse motor bolsonarista

Paira no Brasil e no brasileiro uma tempestade de verdades inconsequentes.

Gosto de sociologia exclusivamente por ter que pensar o outro com uma base teórica e técnica pra tentar entender situações, comunidades, épocas. Apesar disso, assumo completamente meu fascínio por ser esse sociólogo wannabe moleque que pensa as paradas sem a menor base científica ou referência bibliográfica.

Dado esse disclaimer, sigamos em frente.

Minha visão (que também é a minha verdade e talvez também inconsequente) lendo comentários de redes sociais é a de que cada brasileirinho cria na sua cabeça uma versão política preferida do Brasil. Isso é até meio óbvio, papo de pós-verdade etc, mas um primeiro ponto é: isso deixa os campos políticos meio subjetivos demais, sem uma clara definição.

Se você pegar pra assistir esses vídeos de pessoas “infiltradas” nas manifestações pró-bolsonaro, vai ver todo tipo de esquisitice. Existe um pacote pronto de coisas que você precisa odiar sendo de direita: comunismo, óbvio, orientações sexuais não-binárias, óbvio, aborto, óbvio, e sei lá, o Lula. O que vem pra além disso é uma completa maluquice.

Isso pode ir do “o que é comunismo pra você?”1 e trazer infinitas possibilidades de entretenimento.

Existe um bocado de gente falando que Lula é ladrão desde 2013 (talvez?), mas tem um outro lado de gente dizendo que o oito de janeiro foi inventado, que foram os petistas que fizeram isso para incriminar o capitão, que os estados unidos estão… bem, você entendeu. Pra cada acontecimento existem mil versões bolsonaristas diferentes que cativam de acordo com a idade, nível de escolaridade, interpretação de texto etc.

Acredito muito que isso seja método (ora ora, temos um xeroque rolmes aqui). Existem mil maneiras bolsonaristas de enxergar o oito de janeiro, por exemplo. Todas elas toscas e com camadas de absurdo muito específicas. O cara acredita que aliens levaram as pessoas até o Congresso, a tiazinha que fala do apocalipse será no final de semana com Jesus voltando meio de suéter porque tá frio nessa época, enfim, cada um sendo seu próprio King Size do RJ.

Mesmo sendo histórias fantásticas hiperrealistas e louconas, todas elas são simplesmente o que são: bolsonaristas propagando bolsonarismo (escrevi tantas vezes essa palavra nesse texto que tá me dando ânsia).

E quando eu disse ali em cima “comentários de redes sociais” não quero sugerir posts do ICL cobrindo o julgamento do golpe de estado, nem canais de direita quaisquer (não tenho as referências e não vou atrás, obrigado, de nada). Estou dizendo posts engraçados, threads de pessoas pedindo montagens de fotos (meu pequeno vício, como falei outro dia), notícias de celebridades, enfim, qualquer assunto em qualquer rincão da web se torna um ambiente hostil no qual as pessoas se sentem no direito de despejar suas versões de Brasil prediletas.

Não sei exatamente se as pessoas que desenvolveram esse método tinham exata noção do que estavam fazendo, mas se tornou uma estratégia política cabulosa pros próximos anos: inventem histórias absurdas pra provocar/chocar/agredir e espalhem isso por todos os lugares da internet.

E a verdade? Bem, ela paira solitária acima dessa camada de subverdades, como uma atmosfera: invisível, cansada e esquecida. Mas que ela está lá, ela está.

  1. *passei a achar curioso quando alguém pergunta o significado pessoal sobre algo que tem um significado simples, explicado, pronto e nada subjetivo. É como se perguntassem "o que é uma geladeira pra você?". ↩︎

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Memes e um típico país que não se enxerga

Ontem estava eu cuidando do meu atual vício de facebook: um grupo de pessoas pedindo montagens de suas fotos. Alguns são engraçados, outro meio desrespeitosos, outros até ajudam profissionais (uma excelente amostragem para resumir a internet, se você for ver bem de perto).

E claro que, em todos os eles, um monte de comentários com memes políticos, especialmente chamando lula de ladrão, ou tratando bolsonaro como coitado injustiçado. De todos eles, tem um que me deixou pensativo, a montagenzinha do nosso presidente sendo enrabado pelo presidente norte-americano.

Me faz pensar que essa briga toda é sobre pessoas, não sobre o país. Se tem alguém feliz com o tarifaço, essa pessoa não deveria ser brasileira, muito menos se dizer patriota. Mas a dissociação é tão gigante que as pessoas estão na rua com faixas e gritos de guerra reclamando de censura. “Não podemos falar nada nesse país”, diz à CNN essa senhora com o rosto pintado de verde amarelo cuja tinta vai demorar horas pra sair.

É a parada da dissonância cognitiva ganhando contornos dramáticos num país que parece que não quer muito se entender, ou mesmo se enxergar.

Enquanto isso, o Brasil de verdade sangra escondido:

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Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade

Eu não sei do que mais estou cansado. Da angústia de não conseguir pagar o cartão de crédito ou das respostas negativas de empresas das quais eu sempre penso que vai rolar uma pane no sistema para alguém ver alguma coisa boa em mim que seja melhor do que o carinha gente fina que acabou de fazer pós ou da moça super esforçada que já trabalhou na Globo, sabe?

QUE TODA ESSA DERROTA EM FORMA DE RANCOR SE FAÇA FORÇA PARA OS DIAS QUE VIRÃO.

(Comecei escrevendo a frase sem perceber o Caps Lock ativado, acabou que virou mais uma excelente frase para uma caneca, não?).


Quando comecei a sugerir a ideia de homeoffice pros mais chegados em 2009, não era muito por acaso. Eu morava no Capão Redondo e trabalhava no trevo de Itapevi/Jandira, o que significava uma viagem por todos os tipos de transporte público da cidade no começo e depois se transformou em 90 quilômetros diários de carro pelo Rodoanel e Castelo Branco.

Se eu trabalhasse com algum serviço que fosse indispensável estar presente, talvez eu nunca tivesse pensado sobre o assunto. Acontece que a gente trabalha com a porcaria da Internet, bicho. O trabalho dos antropólogos do século XXII será entender como que uma pessoa em plenas faculdades mentais fazia outra atravessar cinco munícipios para abrir uma planilha de Excel que ela poderia abrir de casa e achava isso de alguma forma inteligente ou produtivo.

(Se você pensar bem, o capitalismo tem um pouco disso né? Não adianta você simplesmente depender de um empregador gente boa que te ofereça um salário digno, mas pra dar certo de verdade você também precisa se humilhar um pouquinho na frente dele. Deve ter um puta nome científico pra isso, se alguém puder ajudar nos comentários)

Da primeira vez que vi acontecer o homeoffice de verdade, eu recebi a grande gentileza do destino de quebrar o tendão do pé no meu primeiro mês como redator contratado em uma agência nova. Isso me fez ficar em casa uns quatro meses pelo INSS sem receber nada com a perna engessada e duas muletas. O chefe me sugeriu um freela remoto de texto para redes sociais, pagando por publicação, ou seja, com quatro clientes não chegava a 300 reais por mês.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois veio uma “empresa de rh” sem escritório, disruptiva. Me contrataram como redator freelancer, que na verdade precisava ser um analista especialista de conteúdo e que no final das contas era um clássico faz-tudo-digital, de calendário para redes sociais, a publicações para blog institucional, cartas de recomendação e até edição de vídeo para o YouTube. Completamente remoto também.

Nessa empresa eu tinha tantos “entregáveis” que a chefe começou a desconfiar que eu talvez passasse o trampo pra alguém e, no fundo, nem sequer sabia mexer nessas ferramentas que eu dizia que sabia. Como assim o cara edita vídeos pro YouTube com essa qualidade, faz essas artes maneiras no Photoshop e ainda meio que escreve bem? Tem coisa aí. Foi então que ela me convidou para um dia de presencial na Starbucks de um shopping no outro lado da cidade, levando o computador da firma. Claramente era um teste pra ver se eu sabia tudo aquilo mesmo. Eu passei, aparentemente. Mostrei tudo o que sabia, como estavam salvos os projetos, os arquivos, os lower thirds que fiz na mão no Premiere. Voltei pra casa sabendo que era um teste. Continuei fazendo o trampo em casa. Ela me descartou em quatro meses.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois, a Pandemia.

A pior época da minha vida, da doença que levou meu pai, das mudanças de vida com as quais eu tenho de lidar até hoje. Ainda assim, a época em que mais trabalhei na vida. Muitos freelas, dois trampos fixos, contas pagas, algum dinheiro guardado, sabe? Parecia que ia dar certo. E tudo orgulhosamente feito de caso, da cama, cerc… bem, você entendeu.

Não sei que caralho de revitavolta aconteceu na cabeça do empresariado que precisou fazer todo mundo voltar pro escritório (talvez a falta daquela sensação de poder sobre a vida do outro que eu tava falando ali em cima: “como assim não tem ninguém se matando no transporte público pra chegar 6 minutos atrasado e eu poder dar um esporro na frente dos outros?” específico demais, eu sei).


Já ficou um texto grande demais pra falar de minhas decepções generalizadas com o universo corporativo. Acontece que hoje tenho uma estação de trabalho para fazer homeoffice, atender clientes, chamadas, editar vídeos e criar publicações fofas ou hardcore para as redes sociais das quais nem faço mais tanto uso (lembra quando era legal dizer que era early adopter?).

Não, nem eu sei qual era a intenção deste post, mas talvez pra deixar claro que estou procurando um trampo ou um freela fixo que seja, embora esteja num momento PROFUNDAMENTE enjoado de ver no LinkedIn a quantidade de gente escrevendo textos inteiros com vários parágrafos, bullet points e criando imagens provocativas mesmo tendo passado os últimos 15 anos sem a menor capacidade de formular uma frase inteira no teclado ou de dar uma boa ideia para um banner. IA às vezes parece cocaína, mas é só tristeza.

A pior parte de estar de estar desempregado tanto tempo assim e com freelas esporádicos pagando geralmente bem pouco é fazer entrevistas e ter que se esforçar muito pra convencer alguém de que você é gente fina, trabalhador e pode mesmo dar o sangue pela empresa.

Mas é como diz a CÉLEBRE frase:

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SILO

Estou assistindo SILO (Apple TV) e fico me perguntando se em algum momento da história futura vamos parar de assistir produções que interessem quase que exclusivamente ao algoritmo. Claro que SILO é um livro de 2011, muito à frente de seu tempo cujo autor jamais imaginou que entraria nas graças de uma conta matemática que o colocaria em alta com a possibilidade de uma mega produção multimilionária, mas vamo lá né, gente.

Em todo caso é uma boa série. A primeira temporada tem cenas (e até episódios inteiros) angustiantes num nível que eu não sentia faz tempo, daqueles que a gente fica se coçando ansioso, colocando a mão na frente dos olhos gritando NÃO CARA, SAI DAÍ LOGO e lembrando quando jogava Need for Speed e virava o controle junto na hora da curva.

A história trata de um mundo que parece um prédio gigante separado em níveis por uma única escada (depois não sabe porque o Adorocinema não te contrata). As pessoas moram nestes níveis e não entendi até agora até que nível vai, mas quem está na parte de cima são mais ricos e com mais possibilidades de uma vida tranquila e, quem está mais embaixo, bem, você pode imaginar.

Curti a parada de multijornadas do herói. Num mundo meio controlado e pequeno e com um monte de altas personalidades fortes, cada personagem tem uma história da pesada e muito boa de ser contada, aparentemente (entra aqui a possibilidade de um caralhau de spin-offs medíocres também).

Quando comecei este texto “reclamando”, no fundo é só porque as coisas que fazem sucesso hoje em dia juntam tudo que já deu certo numa receita só*. Isso não está essencialmente errado, mas cansa um pouco entender de cara como está sendo contado e que a segunda temporada vai ser sobre lobby, conchavo e umas pré-revoltas. Posso dizer superficialmente que SILO é uma fusão de LOST com uma pitada boa de House of Cards, ambientada naquele cenário de A Ilha (já falei aqui outro dia).

Virou minha série do almoço e está valendo a pena, embora a) tenham saído poucos podcasts para falar sobre o assunto (pra não dizer um único) e b) a segunda temporada seja escura demais e talvez eu precise trocar a TV da sala para outra parede onde o sol não seja tão forte etc.

Mas aí o problema é meu, eu sei.

*Não falo nem somente de cinema ou de séries, mas veja no mundo da música a quantidade de discos novos que parecem simular Caju da Liniker (um sucesso inegável). Um grande exemplo é aquele disco da *trecho removido pelo advogado do robsu*.
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Les Paul

Hoje por acaso caí de páraquedas numa entrevista com Marisa Orth e Miguel Falabella falando sobre uma peça nova deles. Não sou muito ligado em teatro, então nem dei tanta bola, mas em um dado momento, Marisa é questionada sobre ter atuado aos 20 anos, aos 40 e agora depois dos 60. Ela conta sobre como as sensações mudam: o que antes emocionava, hoje é trivial e vice-versa, a depender do tema, das construções, do que passamos nessa vida.

Uns anos atrás eu decidi digitalizar umas fitas que estavam esquecidas na casa dos meus pais. Umas coisas muito nossas, em casa, filmando o rodeio pela janela (sim, eu morava num prédio ao lado de um terreno baldio que, de tempos em tempos, recebia atrações como um parquinho, um circo e, por algumas vezes, o rodeio).

Depois de assistir com calma cada uma das fitas, deixei pra lá. Eram imagens desconexas e mal feitas com uma câmera velha, não tinha nada ali que falasse comigo, que me trouxesse uma mensagem da vida, essas coisas (essa semirrebeldia adolescente volta de tempos em tempos em você também?). Daí, todos esses anos depois, eu fui ver os vídeos num momento de limpeza digital que a gente vira e mexe precisa fazer. E lá estava: uma imagem que fiz em casa, sozinho, da minha primeira guitarra, novinha, de pé no sofá da sala, sem nenhum adesivo ainda. A imagem começa filmando um trechinho de malhação e depois virando pro sofá onde está uma guitarra pretinha, adolescente, quase fofa, em um vídeo de 2001.

Ela nunca esteve longe de mim, mesmo em todos os desertos que atravessei até aqui. Então vivemos um monte de bandas juntos, outros tantos projetos só nossos, um monte de baboseira também. Ela chegou a virar decoração da casa em uma crise conceitual, até o pessoal do punk fx me convencer de que dava pra meter um captador legal e salvá-la deste ostracismo.

Pois é, foi nessa que aquele vídeo esquecido no HD me trouxe uma sensação tão boa de celebrar essa guitarra, de cada lembrança de show, ou de gravação podre e despretensiosa em casa.

De repente, fiquei nostálgico.

Seja lá pra onde a vida mude, que a gente nunca deixe de celebrar com amor as sublimes pequenezas de nossa história.