CategoriasCrônicasIAprofissional

O “prezinho” do etarismo

Estava pensando em publicar no LinkedIn um outro texto mais confessional. Meu último (ou o primeiro depois de muitos anos) tinha esse sentimento, pelo menos pra mim. Aquilo ali anda cheio demais de gente postando coisas criadas por robôs.

Queria falar dos meus trampos. Da puta dificuldade em criar um portifólio que entregasse tudo o que eu gostaria que fosse visto, mas também da incapacidade de contar em detalhes o que me aconteceu nestas empresas, nestes contratos.

Às vésperas dos meus 42 anos, meu portfólio é um relicário.

É como se fosse um baú de demandas às vezes pequenas e grandiosas, às vezes gigantes e sem sentido. Quando penso nisso, imagino um baú dourado, desses de filmes da Sessão da Tarde ou aquela maleta do Pulp Fiction que sempre ilumina o rosto de quem abre. No meu caso, a luz dourada tem uns tons de cinza talvez um pouco menos interessantes.

Acontece que um dos principais problemas em ser da ala digital da classe trabalhadora é envelhecer. Não me entenda errado, eu acredito que envelhecer tendo participado desta geração híbrida (gente que usou orelhões e conheceu o chatGPT) e ter trabalhado em várias empresas é super importante pra, sei lá, não cair em golpes tão fácil e entender mais do que me orgulho sobre a babaquice corporativa.

Pronto, já sei que esse aqui não vai pro LinkedIn.

Existe uma linha muito frágil em a) ter tido blogs e aprendido html/css no começo dos anos 2000; e b) saber criar sites usando um prompt no Lovable. De jeito nenhum quero desmerecer essa nova era do no-code (afinal, criei até uma parada com isso, um dia conto melhor), mas é inegável que ela faz as pessoas terem menos interesse em aprender o básico.

Na beirada dos 42 anos de idade, ainda me sinto um garoto tentando encontrar espaço num mercado de trabalho cada vez mais cruel, automatizado e que, ao que me parece, liga cada vez menos para as empresonas em que você esteve ou pras suas experiências. A não ser que você crie um storytelling bizarro que poderia estar numa minissérie da Globo e apresente isso na entrevista pelo Teams em formato ppt e cheio de animações divertidas.

Estou chamando esta época da vida de “prezinho do etarismo”, onde a gente tá tentando entender porque esse moleque de 21 anos está pagando de sabe-tudo e me considerando um “velho paia” e como vai ser daqui uns dez anos quando as empresas vão parar de me considerar para trabalhos, afinal, nesta fase da vida você já será um autêntico velho paia que cai em golpes aleatórios e conta histórias fora de hora ou contexto para as gerações mais novas.

“This too shall pass”.

CategoriasCrônicasprofissional

Péssimos motivos para fazer homeoffice

Estou bravo.

Outro dia estava vagando pelo LinkedIn, essa crackolândia de freelancers, textos de chat gpt cheios de emojis e profissionais bem sucedidos participando de eventos, quando encontrei o post de um desenvolvedor comentado por um amigo próximo. Era mais um desses “homeoffice rainha, presencial nadinha”. Eu sempre curto essas coisas, afinal, sou defensor do trabalho remoto antes de virar moda (coisas que só quem trabalhou mais de 50km distante de casa pode entender).

Acontece que o post do cara terminava com uma frase que dizia algo parecido com “presencial ou híbrido é pior do que ficar desempregado”.

Isso mesmo. Leia novamente:

“Presencial ou híbrido é pior do que ficar desempregado”

Pois é. Confesso que a mão tremeu. A gente sabe que o algoritmo adora uma treta (já posso ouvir as trombetas das eleições chegando) e eu não queria impulsionar uma ideia que me pareceu, no mínimo, desgarrada da realidade de quem tem boletos vencendo sem emprego/dinheiro entrando na conta.

Então fiz um rascunho malcriado e quase pós-adolescente no meu blog pessoal que ainda está ativo, embora seja uma ilha perdida na rede (Never antisocial, always blogosfera). Não cheguei a publicar, mas ele terminava perguntando se esse cara gostaria de pagar meus empréstimos contraídos na época do desemprego já que era tão legal assim.

Para rebater essa babaquice e possivelmente pela primeira vez na minha vida, pensei em alguns péssimos motivos para fazer homeoffice. Não faz muito sentido mesmo, mas ainda estou bravo. Aí vão eles:

1. A gente come demais

Quando você está no escritório (e caso você tenha um lugar fixo lá, também tem essa) pode ser que você tenha guardado um biscoitinho ou um petisco qualquer na gaveta da sua mesa. Em casa, você tem todo o seu armário de mantimentos (“dispensa”, em algumas culturas) à disposição para ficar beliscando umas bolachas-maisena-quebra-dieta o dia todo.

2. Ninguém te deixa em paz

Obviamente já presumindo que você não more completamente sozinho, você pode estar a) ouvindo seu pai, mãe, avós ou tios te chamando pra comer o dia todo (voltamos ao primeiro ponto); b) morando com marido/esposa e filhos que demandam atenção o dia inteiro e sua sorte do dia está condicionada a estar em reuniões como ouvinte para poder participar dos convescotes e shenanigans familiares rotineiros; ou c) sentado na sua mesa vigiado por seu cachorro ou rodeado de gatos (se eles não estão pedindo carinho todo instante você está tendo gatos do jeito errado).

3. Ver gente, às vezes, é importante

Com exceção do cara que motivou a publicação deste post e acha que o desemprego é uma benção e claramente nunca teve que refinanciar um empréstimo (ainda estou bravo), encontrar sua equipe e trocar umas ideias com pessoas que não sejam apenas uma voz e um quadradinho na tela pode ajudar no trato com os outros, no seu jeito de se expressar e até melhorar o trampo de todo mundo.

4. Ergonomia é uma palavra que a gente só aprende em escritórios

Empresas precisam de um certo mobiliário para funcionar presencialmente. Isso não quer dizer que você vai ter uma cadeira presidente conforto extreme para se sentar todos os dias, mas certamente vai ter algo melhor que sua cadeira da mesa da sala pra passar o dia digitando fórmulas no Excel.

Esse é o máximo que consigo chegar pra falar mal de homeoffice.

O ponto aqui é não transformar o homeoffice numa verdade absoluta sem perder o filtro da noção como aquele camarada fez no post dele. Tem gente desempregada e desesperada por aí. Ótimo que você consiga fazer trabalho completamente remoto e possa escolher somente vagas assim, mas deixa o pessoal em paz. (um off topic: outro dia ri demais de uma vaga GARÇOM (PRESENCIAL) tentando imaginar como seria a ideia de um garçom remoto).

Homeoffice é maravilhoso pra quem pode fazer e jamais deixarei de apontar sobre como as empresas precisam valorizar e pensar melhor nisso, mas daí a defender o desemprego tem um abismo do tamanho da imbecilidade desse cara.

Eu avisei que estava bravo.

CategoriasCrônicasIAprofissionalTudo aqui

.promptada

Uma cena clássica no dia a dia de equipes de criação publicitária: atender uma conta em que o cliente tem uma ideia fixa de como deve ser o conteúdo que ele precisa.

Chega a demanda, o atendimento absorve o que é necessário para a entrega, faz uma reunião de discovery, de briefing, de whatever. O redator senta ao lado do diretor de arte e rascunham uma parada que ajude a traduzir a ideia central e as frases do cliente pedindo coisas como “isso aqui precisa instigar” ou “provocar curiosidade pelo CTA”. Pronto! Você entrega uma primeira versão do job e, horas depois, chega um e-mail de retorno com o comentário:

“não estou convencido do material. eu iria por um caminho mais lúdico

(Geralmente começa com “eu gostei, mas…”)

Trabalhar numa equipe de criação é, afinal de contas, precisar uma bola de cristal 24 horas ligada num powerbank místico pra entender o que as pessoas querem. Claro que existem exceções e clientes que explicam alterações com algum nível de embasamento e tá tudo bem nisso aí (inclusive falei disso no último post).

Acontece que essas solicitações exatas como: “mudar frase para”, “trocar imagem do menino no banner”, me dão a sensação de que as empresas não contratam mais agências, mas sim LLMs generativas que funcionam não com tokens ou probabilidades estatísticas, mas com pessoas.

Essa “promptada” do cliente, ou seja, a ideia fixa que se recusa a ouvir profissionais que estão trabalhando no mesmo projeto, transforma toda uma equipe dedicada em simples executores de meia tigela (quase escrevi “meros executores”, mas estou desintoxicando de termos genéricos, sabe como é). Ela pode ajudar a satisfazer o ego do cliente, ou coisa que o valha, mas tudo funcionaria praticamente do mesmo jeito usando um Gemini ou um Pomelli da vida.

O grande papel de uma equipe de criação é poder estar ao lado do cliente quando ele precisa desenvolver algo novo e refutar ou repensar uma ideia merda quando ela aparece (anota pra colocar na seção de missão e valores da sua agência).

Isso porque a gente que trabalha com criação passa horas no tal do benchmarking tentando entender particularidades e miudezas de cada cliente e concorrentes. Mais do que isso, somos nós que criamos esses manuais, guides de uso de marca, tom de voz, enfim. Acho até muito mais do que isso: a gente entende também quando o cara quer evitar uma palavra por motivos quaisquer ou quando ele simplesmente gosta mais de círculos do que formas geométricas na arte, porque isso, de alguma forma, conversa com uma curiosidade quase abstrata da história da família dele.

Portanto, não, nós não estamos fazendo isso de qualquer jeito e atirando ideias a esmo. Nós estudamos pra montar essas artes e criar esses logos e pensar nas melhores palavras pras suas peças de marketing e processo iterativos ou termos de usabilidade para o seu checkout ficar bonitinho e não perder tanta venda. Confia. Cada pequena escolha ali foi pensada não apenas pra te agradar, mas pra fazer esse projeto crescer e dar certo.

Quando você desrespeita a voz de quem está desse lado da criação, você ignora o fator humano que contribui para conectar sua marca, sua empresa ou a história quase abstrata da sua família a outros humanos e fazer aquela campanha funcionar, atingir as pessoas certas, bater recordes de vendas, ganhar prêmios se possível, oras.

O real valor de uma parceria entre cliente e agência está em fazer ideias simples tomarem contornos criativos inesperados pra gerar resultados cabulosos.

E quem sabe um dia dar algum orgulho pra história quase abstrata da sua família.

CategoriasCrônicasTudo aqui

Todo mundo sabe escrever

Certa vez trabalhei em par com um redator publicitário raiz. Desses caras que se levam a sério demais, mas que também dão uma tremenda aula de eloquência ao defender teorias sobre um KV. Pude assistir duas vezes os argumentos dele sobre a estrutura de uma landing page de uma lava e seca (!) de uma forma que eu jamais faria. Acho que foi ali que entendi que talvez “redator publicitário” não fosse exatamente o meu forte. Eu não quero defender meu texto. Ele nem é meu, oras.

Digo isso porque nunca tive a menor intenção de deixar minha marca registrada em textos que me pagam para escrever. E com isso não quero dizer que estou pouco me ferrando pros clientes, mas sim que o texto precisa ter a cara da empresa, do negócio e não meus trejeitos engraçaralhos e puta sacadinhas, sabe? Quando um cliente revisa meu texto eu quero acreditar que a pessoa está tentando empurrar o lado institucional da parada pra tudo se encaixar, dá pra entender?

Enfim.

Acontece que esse redator do qual estava falando (é TDAH que chama né?) me deixou um dos ensinamentos que mais me fizeram pensar sobre o trabalho de redator em todos esses anos de indústria vital (e de referências que vão desvanecendo com o tempo).

Era uma terça-feira qualquer, num horário de almoço qualquer, ou numa tarde qualquer na copa. Eu reclamava provavelmente sobre nosso chefão master que estava sempre enchendo o saco querendo mudar palavras nos textos meio sem o menor critério. Porque o ponto, afinal, é esse: nós passamos horas escolhendo palavras por motivos mil. Se alguém me dá bons motivos pra mudar um texto eu entendo perfeitamente e troco sem nem pensar muito sobre o assunto. Por outro lado, se a pessoa bate o olho e simplesmente diz algo como “eu faria diferente” chega a me coçar a garganta pra responder algo como: “pois é, certamente faria. Você nem redator é”.

Mas a esculpida resposta do meu camarada foi algo assim:

Cara, um dos maiores problemas dessa vida de redator é esse. Se você ver o designer, ele monta uma arte linda, absurda, ninguém sabe o que ele teve de fazer pra entregar aquela peça maravilhosa. Assim como um dev que monta essas landing pages com todos os recursozinhos que o cara pede. Ninguém entende nada, só quer ver a mágica acontecendo.

Até ali, ele já estava coberto de razão e eu já estava vendido (sério, eloquência na voz). E então ele finaliza com a frase que aluga até hoje duas coberturas triplex  com vista pro mar na minha mente:

O problema do redator é que todo mundo sabe escrever.

Ali ele quis dizer que todo mundo vai dar pitaco.

TODO.

MUNDO.

O dono da empresa, se você pensar bem é até o de menos. Qualquer pessoa que tenha estudado numa escola e tenha assistido um aninho sequer de aulas de português pode passar por trás do seu notebook e dizer “olha, acho que caberia um travessão aqui, viu. Vamos refazer?”

Dali pra frente, essa frase nunca saiu de moda nas minhas teses solitárias de autoconsciência profissional que acontecem geralmente às quartas. E nessas teorias, a agência que eu abro mentalmente teria uma placa na redação, onde se leria: não retruque redatores com o futuro do pretérito do indicativo.

Não sei, eu faria diferente.

CategoriasCrônicasIAMedium

LLMs e a carreta furacão do mercado

A melhor parte de trabalhar usando a inteligência artificial o dia inteiro é começar a entender como elas funcionam e de que modo operam a construção de textos. Entendo como isso pode ser perturbador, especialmente para quem, bem, opera a construção de textos como eu, mas o que a gente mais precisa entender hoje em dia é bem simples: se não começarmos a trabalhar juntos, vamos ser atropelados sem piedade pela carreta furacão do mercado.

Queria muito evitar me explicar aos contratantes aqui, mas talvez seja necessário o disclaimer: eu nunca vou entregar um texto puro que venha direto de uma LLM. O que vai acontecer é que em alguns casos vocês podem encontrar termos sugeridos, talvez até frases inteiras e tal, mas nunca um texto pronto, executado a partir de um prompt. Eu escrevo porque amo e este blog tem 15 anos (precisava soltar essa carta).

Em outras palavras, fiquem tranquilos e se apeguem em valorizar quem trampa com letras e só precisa pagar as contas. Quem sabe que as IAs talvez demorem tempo demais pra entender suas especificidadezinhas voláteis que mudam de acordo com o temperamento da Patrícia Poeta no Encontro, ou com as previsões do João Bidu.

De volta ao assunto, tem esse paradoxo que me incomoda sem incomodar tanto assim: gente que nunca escreveu um texto sequer, cria um prompt, copia o resultado e cola na rede social, mudando uma palavrinha aqui e ali. Entenda que sempre que você publicar algo feito puramente num agente de IA, nós vamos saber. Não pelo travessão, nem pelas reticências unicode ou pelos emojis demais (ok, talvez bastante por tudo isso), mas a começar pela forma.

E quando digo forma, redatores talvez entendam. Quando você trabalha com alguém diariamente e tem acesso aos textos de outro redator, você acaba encontrando vícios de linguagem, formas narrativas, um emaranhado de pequenas dicas que revelam a quem pertence aquele texto (no meu caso, por exemplo, metalinguagem e frases entre parênteses como essa aqui fazem esse papel).

Saber que um texto foi gerado por uma IA não é exatamente um superpoder. Tem gente como eu que só acha curioso e tem quem ache o máximo. Mas pensa aqui comigo rapidão: se a gente que trabalha com isso todo dia, bate o olho e pega de cara quando o texto é gerado por uma IA, imagina um algoritmo desenvolvido e treinado para valorizar e evidenciar textos que são criados organicamente sem usar ferramentas quaisquer além de um editor de textos.

Portanto, se você busca relevância, autoridade, especialização, confiabilidade ou o que quer que isso signifique pro seu negócio, procure o trabalho de um bom redator. Se precisa colocar só um monte de palavras em sequência, abrace o Chatgpt como a um amigo virtual (mas assista Her antes, vai com calma).

No fim do dia (adoro termos da moda que tenho vergonha de usar em voz alta), esse texto tem um certo gosto de redenção. Porque começou a parecer um pecado mortal usar a IA no dia a dia pro trabalho que você fez a vida toda, quando, no fundo, a parada só nasceu como mais uma ferramenta. Assumir seus usos como uma prática positiva e não como enganação é tão importante quanto precaver as pessoas do uso deliberado de plataformas que podem (e vão) acabar respondendo somente o que você acha que precisa ouvir.

Afinal, inteligência (assim como a potência) não é nada sem controle, diria o slogan.

E na carreta furacão do mercado, nós só precisamos decidir se seremos o chaves ou o fofão fazendo coreografias de tiktok pra agradar o público, enquanto tentamos subir uns muros e pular lixeiras na rua pra não perder esse bonde.

CategoriasCrônicasprofissionalTudo aqui

IA está alugando mansões na cabeça dos profissionais de SEO

Se você parar pra lembrar direito, talvez a gente tenha começado a falar sobre IA coisa de pouco mais de um ano pra cá (na verdade faz dois anos que o Castanhari foi trágico e dramático naquele episódio do Podpah com o Cauê). Parece que finalmente estamos vivendo a sensação dos famosos 15 segundos de fama, pelo menos quando falamos do que publicamos sobre inteligência artificial nos blogs, portais, enfim. As notícias sobre esse assunto parecem que ficam velhas num alt+tab.

É tudo uma grande bolha que tá estourando em câmera lenta na nossa cabeça, um dia de cada vez.

Daí que saiu essa pesquisa falando da inconsistência das recomendações das IAs. Em resumo, se você juntar 500 amigos e pedir pra cada um deles perguntar pra IA qual o melhor fone de ouvido disponível no mercado, ela vai te responder com uma variação considerável de marcas, modelos e opções em cada interação.

Imagino eu que ela explique porque escolheu cada um desses produtos de acordo com o que você pediu (óbvio) e ainda finalize propondo que você agora escolha microfones USB, sei lá.

Não é maravilhoso? Alguém coloca essa criatura digital dentro de um organismo vivo e vamos viver junto esse Pluribus, gente (inclusive, assista).

Ao mesmo tempo, a verdadeira tragédia ficou para quem trabalha com a visibilidade de clientes digitais, ou seja, o profissional de SEO que precisa mostrar serviço basicamente puxando sardinha pros seus clientes/alecrins dourados.

E por puxar sardinha, eu quero dizer colocar o cliente em evidência nos buscadores, o básico do trampo de SEO. Se você trabalha para uma marca de fones de ouvido, você quer que as pessoas busquem no Google e que ela apareça no primeiro resultado, pra antes que a pessoa pense em qualquer coisa, ela clique, entre no seu site, compre com frete grátis para todo Brasil usando o cupom FONE10 pra ganhar 10% de desconto na primeira compra.

As pessoas fazem seus pedidos, os números crescem, os dashboards ficam bonitinhos, uns gráficos coloridos maneiríssimos apontando pra cima, sucesso de público e crítica.

E agora vem todo um mercado de LLMs dizendo que, melhor que os buscadores tradicionais, uma IA vai te indicar diferentes marcas e modelos de acordo talvez com sua geolocalização e seu poder aquisitivo, ou levando em consideração aquela vez que você desabafou sem querer num prompt sobre a qualidade do seu fonezinho da Sony.

Esse é o momento de repensar todo um cenário de pessoas estudando as melhores formas interagir com o “robozinho do Google” (fico pensando que eufemismo vão usar pras LLMs). Afinal de contas, está tarde demais pra gente descobrir que não tem mais tanto sentido assim fazer todo um roadmap pra aumentar o alcance orgânico porque parece a IA meio que tem vontade própria?

Google pesquisar Enviar prompt.

CategoriasCrônicas

o pesadão, o erudito, ou o que quer que isso signifique

Eu sei que o pessoal adora convites exclusivos. Que ser chamado para uma premiere só com os gigantes da indústria cinematográfica é uma parada que seres humanos médios dariam um dedo mindinho pra vivenciar. Sei também que festivais de cinema contam quantos minutos um filme é aplaudido depois de sua primeira exibição para pessoas com vestidos longos e smokings beirando o brega e que isso faz sentido pra eles de alguma forma. É assim que as coisas andam, é nesse passo que o mercado do cinema funciona etc.

O que me perde um pouco é a sensação de que essas pessoas se sentem um tanto superiores e escolhidas em comparação ao resto de nós, que não sabemos sequer onde assistir a merda desse seu novo documentário revolucionário para a história do cinema, mas que só foi exibido em Cannes e em dois cinemas do centro velho de São Paulo.

Estamos nós aqui, vendo filmes legendados nos cinemas populares porque é o que a gente gosta, disse uma pesquisa de mercado. A gente abraça a ideia, eles seguem o jogo. E esse abismo, me parece, só aumenta.

Acontece a mesma coisa com a literatura contemporânea brasileira, essa novela Malhação de pseudointelectuais. Gente escrevendo histórias que ouviu da empregada doméstica que os segurou no carrinho de bebê enquanto a mãe rodava os corredores do Mappin nos anos 1990. Mas que agora faz sentido, afinal, as histórias precisam ser contadas. Não as nossas. As que realmente valem a pena.

Ajudar essa pessoa que te criou a escrever o livro dela e subir num palco pra receber um Jabuti você não quer, né, meu alecrinzão rose gold?

Posso estar parecendo um tanto revoltado a esta altura.

Quanto mais você distanciar o povo da cultura pesadona, erudita ou o que quer que isso signifique, mais você aumenta esse abismo, mais distantes ficam as pessoas de verdade, mais Brasis vão se criando, alheios ao que poderia ser fundamental ao seu próprio crescimento enquanto sociedade.

Posso ter falado assim pesadão, erudito ou o que quer que isso signifique, mas só queria dizer pra essa gente das mostras de cinema e das feiras literárias que se vocês realmente se interessam pelo Brasil, pela base (a mesma que o Brown trouxe aquela mão), levem essas questões gigantes que vocês abordam para as favelas, pros guetos, pras vilas, pro povo que tá perdido entre tanto Vale Tudo e noticiário de tragédia cotidiana.

Aí quem sabe a gente não constrói uma escada nesse abismo.

CategoriasCrônicas

Uma recomendação para a vaga de produtor de eventos Sênior

Outro dia encontrei no Linkedin essa vaga para Produtor de eventos Sênior, o que na teoria normal das coisas significaria alguém com profunda experiência em logística, prazos, cotações e uma extensa carteira de clientes atendidos, cases e um jeito de falar talvez até um pouco prepotente pelos anos de carreira.

Mas eu lembrei de um tiozinho.

Outro dia estava aqui num ponto turístico da cidade meio de bobeira porque nunca vou lá (e desconfio de quem diz que frequenta pontos turísticos da própria cidade com frequência). Fui então deixar o carro num estacionamento que não conhecia, mas onde tempos atrás havia funcionado uma casa de show ou uma balada até um tanto grande.

O tiozinho que cuidava do local estava numa cadeira de praia na porta e parecia felizão com algum vídeo do celular. Ao me ver, ele prontamente levantou e indicou o lugar onde deixar o carro com um carismático “pode levar a chave, viu? Fica à vontade”.

Só ao descer do carro percebi: o galpão do estacionamento era exatamente a pista da antiga balada. Dava pra notar os camarotes no mezanino, o palco, um balcão possivelmente de bar na lateral do galpão. As paredes estampavam uns grafites ultracoloridos e meio toscos daqueles daqueles bares de forró de quebrada. A coisa toda certamente acontecia ali, onde neste domingo só se viam alguns poucos carros enfileirados e um tiozinho simpático anotando as placas.

Peguei algumas coisas no porta-malas e parei na saída para perguntar pro tiozinho o que tinha acontecido com a antiga balada. Isaías, o senhor de idade responsável pelo local e até agora chamado apenas de “tiozinho” neste texto, me contou que era tudo dele mesmo. Isaías veio pra cidade uns tempos atrás, encontrou o lugar e decidiu investir. A casa ficou uns anos recebendo algumas atrações locais, depois de um tempo foi cotada para alguns pequenos grandes shows, mas foi caindo em desuso (talvez pelo relativo fracasso de alguns desses eventos, pensei).

– E pra mim que era da Chic Show não deu muito certo não, eu era acostumado com casa cheia toda sexta, sabe?

– O senhor era da Chic Show?

– Era sim, fazia muitas festas lá, uma época boa demais. Você conhece?

– Opa! Não frequentei porque sou um pouco mais novo, mas é história em São Paulo né? Conheço sim, po, que honra conhecer o senhor.

– Pois é, lá era demais, bicho. Tempo muito bom, viu?

– Nossa, imagino as lembranças.

– Po, ali foi minha casa, meu. Pera aí que vou atender o carro chegando ali.

– Não fica tranquilo, também preciso ir encontrar o pessoal ali, seu Isaías. Mais tarde a gente conversa.

– Beleza, bom divertimento, cara!

Na volta, numa conversa mais solta, Isaías me conta dos artistas que conheceu, dos DJs, das festas todas. Uma testemunha ocular da história da música preta de São Paulo, caído no ostracismo talvez pelas cobranças que a vida impõe. Só mais um dos nossos, atropelado pela máquina de moer sonhos que a gente conhece tão bem.

– Agora que aqui tá fechado mesmo, eu resolvi estacionar uns carros e fazer uma graninha né? Ficar parado em casa não dá.

– Tá certíssimo. E esse som aqui conhece? (eu já dentro do carro pra sair tocando Earth Wind & Fire).

– Caramba, cara! Uma viagem no tempo. Obrigado pelo papo. Bom final de domingo aí.

– Valeu, até mais, seu Isaías.

Fica minha indicação para a vaga. Como produtor de eventos Sênior, Seu Isaías é só carisma e história boa pra contar.

CategoriasCrônicasTudo aqui

Pós-verdade, esse motor bolsonarista

Paira no Brasil e no brasileiro uma tempestade de verdades inconsequentes.

Gosto de sociologia exclusivamente por ter que pensar o outro com uma base teórica e técnica pra tentar entender situações, comunidades, épocas. Apesar disso, assumo completamente meu fascínio por ser esse sociólogo wannabe moleque que pensa as paradas sem a menor base científica ou referência bibliográfica.

Dado esse disclaimer, sigamos em frente.

Minha visão (que também é a minha verdade e talvez também inconsequente) lendo comentários de redes sociais é a de que cada brasileirinho cria na sua cabeça uma versão política preferida do Brasil. Isso é até meio óbvio, papo de pós-verdade etc, mas um primeiro ponto é: isso deixa os campos políticos meio subjetivos demais, sem uma clara definição.

Se você pegar pra assistir esses vídeos de pessoas “infiltradas” nas manifestações pró-bolsonaro, vai ver todo tipo de esquisitice. Existe um pacote pronto de coisas que você precisa odiar sendo de direita: comunismo, óbvio, orientações sexuais não-binárias, óbvio, aborto, óbvio, e sei lá, o Lula. O que vem pra além disso é uma completa maluquice.

Isso pode ir do “o que é comunismo pra você?”1 e trazer infinitas possibilidades de entretenimento.

Existe um bocado de gente falando que Lula é ladrão desde 2013 (talvez?), mas tem um outro lado de gente dizendo que o oito de janeiro foi inventado, que foram os petistas que fizeram isso para incriminar o capitão, que os estados unidos estão… bem, você entendeu. Pra cada acontecimento existem mil versões bolsonaristas diferentes que cativam de acordo com a idade, nível de escolaridade, interpretação de texto etc.

Acredito muito que isso seja método (ora ora, temos um xeroque rolmes aqui). Existem mil maneiras bolsonaristas de enxergar o oito de janeiro, por exemplo. Todas elas toscas e com camadas de absurdo muito específicas. O cara acredita que aliens levaram as pessoas até o Congresso, a tiazinha que fala do apocalipse será no final de semana com Jesus voltando meio de suéter porque tá frio nessa época, enfim, cada um sendo seu próprio King Size do RJ.

Mesmo sendo histórias fantásticas hiperrealistas e louconas, todas elas são simplesmente o que são: bolsonaristas propagando bolsonarismo (escrevi tantas vezes essa palavra nesse texto que tá me dando ânsia).

E quando eu disse ali em cima “comentários de redes sociais” não quero sugerir posts do ICL cobrindo o julgamento do golpe de estado, nem canais de direita quaisquer (não tenho as referências e não vou atrás, obrigado, de nada). Estou dizendo posts engraçados, threads de pessoas pedindo montagens de fotos (meu pequeno vício, como falei outro dia), notícias de celebridades, enfim, qualquer assunto em qualquer rincão da web se torna um ambiente hostil no qual as pessoas se sentem no direito de despejar suas versões de Brasil prediletas.

Não sei exatamente se as pessoas que desenvolveram esse método tinham exata noção do que estavam fazendo, mas se tornou uma estratégia política cabulosa pros próximos anos: inventem histórias absurdas pra provocar/chocar/agredir e espalhem isso por todos os lugares da internet.

E a verdade? Bem, ela paira solitária acima dessa camada de subverdades, como uma atmosfera: invisível, cansada e esquecida. Mas que ela está lá, ela está.

  1. *passei a achar curioso quando alguém pergunta o significado pessoal sobre algo que tem um significado simples, explicado, pronto e nada subjetivo. É como se perguntassem "o que é uma geladeira pra você?". ↩︎

CategoriasTudo aqui

Memes e um típico país que não se enxerga

Ontem estava eu cuidando do meu atual vício de facebook: um grupo de pessoas pedindo montagens de suas fotos. Alguns são engraçados, outro meio desrespeitosos, outros até ajudam profissionais (uma excelente amostragem para resumir a internet, se você for ver bem de perto).

E claro que, em todos os eles, um monte de comentários com memes políticos, especialmente chamando lula de ladrão, ou tratando bolsonaro como coitado injustiçado. De todos eles, tem um que me deixou pensativo, a montagenzinha do nosso presidente sendo enrabado pelo presidente norte-americano.

Me faz pensar que essa briga toda é sobre pessoas, não sobre o país. Se tem alguém feliz com o tarifaço, essa pessoa não deveria ser brasileira, muito menos se dizer patriota. Mas a dissociação é tão gigante que as pessoas estão na rua com faixas e gritos de guerra reclamando de censura. “Não podemos falar nada nesse país”, diz à CNN essa senhora com o rosto pintado de verde amarelo cuja tinta vai demorar horas pra sair.

É a parada da dissonância cognitiva ganhando contornos dramáticos num país que parece que não quer muito se entender, ou mesmo se enxergar.

Enquanto isso, o Brasil de verdade sangra escondido: