Aconteceu comigo uma vez. Um amigo tentou me mostrar o caminho das pedras para encarar o período pós-faculdade de cabeça erguida. Acho que ele se esqueceu de que tinha terminado o curso dois anos depois de mim. Eu já sabia o que era o pós-faculdade e já tinha conseguido a minha cota de Valium pra conseguir dormir.
De qualquer forma, o cara tinha um plano: arrumar um trabalho decente pra pagar as contas sustentado por freelas em horários vagos e projetos promissores em que seríamos o Rupert Murdoch de nossas vidas.
E isso me lembrou outra ocasião, quando estava com uma jaqueta com alguns patches de bandas punk e um moleque no limiar de seus 13 anos puxa uma conversa sobre com-que-gangue-eu-andava. Depois de 15 minutos tentando convencer o garoto que eu não era o punk que ele sonhava encontrar e lhe contaria toda a história do Social Distortion, ele se vira pra mim e diz: “continua curtindo essas bandas aí cara, você tá fazendo certo”.
A vontade era responder: “Moleque, quando você nasceu eu já roubava Sonho de Valsa nas Lojas Americanas”. Ou então “Moleque, quando você nasceu eu já tinha visto duas Copas do Mundo”. Acredite, eu tenho em mente uma infinidade de variações destas frases.
Mas voltando ao assunto.
Lá estava eu, confiante que algo bom poderia realmente acontecer ao meu currículo (além do inglês intermediário e do curso de montagem e manutenção de computadores), frequentando palestras culturais, escolas de arte, bibliotecas públicas, envolvidão com aquele clima estamos-amadurecendo-as-idéias-pueris-que-tínhamos-na-faculdade e estava tudo bem. Mesmo. Aí vieram os tais projetos.
Éramos jornalistas, certo? Criaríamos a Caros Amigos do Capão Redondo. Brinks. Mas a idéia até que ficou razoável depois de numa reunião em que retiramos da cabeça do “chefão” a idéia de fazer 10.000 cópias SEMANAIS de uma revista com 240 páginas.
E então, o mano me liga:
-Vamos entrevistar o chefe regional da igreja… whatever! temos que chegar bem CQC (!) tá ligado, na caruda, ele vai estar saindo do culto, você pega o gravador e vai atrás perguntando o que ele acha das atuais acusações de lavagem de dinheiro na igreja.
-Demorou… (bocejo) onde a gente se encontra?
-Então, mano, é que hoje é aniversário da minha irmãzinha, não vou poder, mas vai lá e já era, tamos com você.
Faltou dizer… “e relatório na minha mesa às 17h. Abs!”
Se você quer mandar em alguém, você precisa assumir que é apenas o executivo por trás da idéia, o “chefão” e não vai arredar o pé para qualquer pesquisa em campo porque é insensato alguém de tamanha genialidade se misturar à raça. Ou seja, você precisa deixar claro: o trabalho é pra vocês, medíocres. “I’m the boss, I make the jokes”, como diria o Sheldon.
Meu ponto é: mesmo se você assumir toda essa sua megalomania, você ainda pode correr o risco de ninguém querer trabalhar pra você, entende? E não, eu não te entendo. Quer as glórias de mão beijada? Cria um fake do Gugu Liberato no Twitter e vai ser feliz.
Não dou valor às pessoas lutam por sei lá, salários mais altos, uma vida melhor e não têm a decência de dar a cara à tapa, ou de dizer: “Aí, Folks, o barato é comigo agora e eu vim pra brigar”. Talvez seja por isso que não temos mais grandes heróis ou grandes prêmios Nobel. Ou grandes revistas em bairros pobres.
Prezo aquele maluco que vivia reclamando da gerência do condomínio e certo dia desceu com um amplificador e um microfone na reunião dos moradores e começou a cagar suas regras contra a síndica vigente. Ele não precisa estar certo. Voltaire, que também foi meio maluco, disse mais ou menos isso “posso não concordar com picas do que você diz, mas pelo seu direito de dizê-lo, tamo junto!”.
Luto por um mundo em que as pessoas desperdicem menos tempo falando, planejando e carregando meus textos com infinitas possibilidades de gerúndio.