Procrastinate now & Panic Later

Poucos souberam explicar a procrastinação como algo palpável. O ato de abandonar obrigações sem motivo – ainda que sabendo dos resultados desastrosos a que podem levar esta ação – é elucidado em O demônio da Obstinação, escrito em 1845 por Edgar Allan Poe.

O texto é um ensaio sobre o fator irracional nas decisões humanas, induzidas por um mal supremo que nos obriga a fazer o que não se deve. A última parte trata da história de um homem encarcerado que, vítima dessa obstinação se vê obrigado a confessar um crime que esteve sem solução durante anos.

E no trecho abaixo, Poe coloca uma luz de castiçal envenenada sob sua obra e destrincha nosso conceito contemporâneo de procrastinação:

“(…)Estamos diante de uma tarefa que cumpre terminar depressa. Sabemos que a demora significa a ruína. A crise mais importante de nossa vida nos chama, com um toque de clarim, à ação enérgica e imediata. Estamos radiantes, consumidos pela vontade de atirarmo-nos à tarefa, antecipando o glorioso resultado que nos põe a alma em chamas. Devemos, precisamos começá-la hoje, e, no entanto, a deixamos para amanhã – por quê? Não há resposta, salvo que nos sentimos obstinados, usando a palavra sem compreender seu princípio. O amanhã chega, e com ele uma ânsia ainda mais exasperada por desempenhar nossa tarefa; mas, junto com essa ânsia, surge também um desejo inominado, deveras temível – porque incompreensível – de postergar. O desejo ganha força à medida que o tempo passa. Chega o último momento em que podemos agir. Estremecemos com a violência do conflito interno – do definido contra o indefinido – da substância contra a sombra. Mas, se o embate chega a esse ponto, a sombra prevalece – lutar é inútil. É quando os sinos dobram por nosso bem-estar. Ao mesmo tempo, é o cantar do galo para o espectro que há tanto nos oprime. O fantasma esvoaça – desaparece – estamos livres. Recobramos a força de outrora. Já podemos trabalhar. Mas – ai de nós – é tarde demais.”

Edgar Allan Poe, em O Demônio da Obstinação, 1845

Interpretações

Essa noite tive um pesadelo com uma aranha. Desculpem, só depois de ter escrito é que a frase soou assim, awful. A verdade é que sempre tive essa parada com aranhas-monstro. Assim que conseguir minha coleção do Freud, vou tentar me explicar – e explicar a vida de todos vocês, por conseguinte.

Encontrei umas explicações sem fundamento nesses dicionários de sonhos que prefiro não compartilhar porque não acredito nisso – alguém acredita?

Mas tenho certeza que foi por dormir ao lado do meu exemplar de O Gato Preto e outras histórias, do Edgar Alan Poe. Não tem outra explicação.

Ou tem?

Crescer

Estranho demais crescer. Sério, fica a dica para o filho que ainda não tenho, como naquele tumblr. Crescer demanda programação, empenho, determinação. Honrar compromissos, criar dívidas desenecessárias, se desesperar por situações que você jamais imaginou, ser tratado como ‘sr.’ por um cara mais velho do que você, em um banco, por exemplo. Sempre tenho vontade de responder que essa cordialidade não é necessária, mas tenho medo de soar mais repugnante ainda.

Sem contar os casamentos, chás de bebê, festas de despedida, open houses, visitas, dois beijos, três beijos, abraço desconfortável, a falta de conversa, cada coisa. É preciso saber onde se meter, onde rir. É quando você começa a perceber que os padrões, nossas conversas e situações são tão pouco verdadeiras que mais parecem uma ficção tola, que perde pra qualquer novela das oito em termos de tédio. Ou vai me dizer que se você estivesse assistindo sua vida como um seriado de TV acharia ela realmente interessante?

Ainda falando ao meu filho não-nascido, aproveite seus amigos o máixmo que puder, esteja sempre ao lado de quem você ama, não dê muita atenção a gente que só reclama de tudo – com exceção de seu pai, claro. Você poderia encontrar essas dicas nas prateleiras de auto-ajuda que eu espero que você jamais frequente (e espero também, do fundo do meu coração, que você um dia leia aquele livro do Will Ferguson e nunca acredite nesses autores que têm respostas pra tudo).

And you’ll be where you want to be…


Wilco, When you wake up feelings old

Livros digitais e meu presente de natal

A questão dos livros digitais me deixa curioso, mas raciocine comigo: as pessoas vão aceitar comprar arquivos de livros digitais por 20 ou 30 mangos? Apesar de saber que é um modelo de negócio e os investidzzzzz… Sou descaradamente a favor da MP3zação do e-book.

Então minha fissura pelo e-book reader finalmente despertou quando encontrei o Reader Daily Edition da Sony. Ele não tem essa besteira do Kindle de ler apenas os arquivos vendidos pela Amazon e custa o preço de uma consciência tranquila, que convertidos a nossa moeda soa algo como 500 reais. Mas isso se você tiver um amigo que viaje para o exterior e traga. Isso se você comprar com a cotação do dólar de hoje. E isso se você aguentar a espera até ele ser lançado, porque só agora descobri que é pré-venda.

Tantos poréns e uma Santa EIfigênia tão perto de mim.

Um novo retorno

Após uma singela passagem pelos servidores inúteis do WordPress, este blog está de volta ao Blogger.

Neste meio tempo, dispensei uma oportunidade de emprego ótima simplesmente porque não ia dar pra pagar as dívidas (fuck), escrevi uma crítica sobre o reality show dos mineradores do Chile antes que o Observatório da Imprensa o fizesse (RÁ!). Terminei de ler o Um Grande Garoto, livro meio boring, mas que acaba sendo como um compêndio geral sobre as famílias desestruturadas dos últimos 20 anos. Guardei algumas idéias para o meu futuro que jamais devem ser colocadas em prática. O Itaú conseguiu me rejeitar uma ajuda básica (consegui de novo, amigos) e o Jack Ribs provou ser a pior merda em fast-food de shopping. Entre outras felicidades, o Meleca voltou e eu me declarei fã do Nilson César.

Obrigado pela vista. Agora sim, programação normal.

EU ESTOU ARREPIADO, QUARTAROLLO!

ou…

Não sei exatamente o que faz alguém tornar-se ídolo de uma personalidade qualquer. Também não tento explicar aqui o motivo que leva garotinhas pré-adolescentes e seus respectivos amigos andrógenos a tumultuarem a entrada da MTV pra ver um integrante do Restart passar para uma entrevista, deixando malucos os seguranças e meu único amigo que vive o sonho de qualquer garoto nos anos 90 trabalha lá.

Digo ‘tornar-se ídolo’ apenas sobre o conceito básico de admiração. Eu admiro muita gente, mas sou fã de poucas pessoas. É um degrau acima, acredito. Na minha base de preceitos para se tornar fã de alguém não é preciso ser íntegro, não é preciso ser correto. A maestria pura e simples me basta. Como bem explicou o amigo André Câmara:

  1. Andre Camara
    andremca Pra mim o conceito de arte é muito claro: eu conseguiria fazer igual? Não? Então é arte. 06 May 2010 from Echofon

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Aí entra o Nilson César. Ouço jogos de futebol pela rádio desde pequeno, no carro com meu pai ou em casa, quando a Globo decide passar jogos de outros times, o que é perfeitamente normal. Mas de uns tempos prá cá, não tenho conseguido ver os jogos na TV. Na Globo, o Cléber Machado deixa muitos espaços vazios na narração, quase como se estivesse sem graça de falar; Galvão Bueno salva a equipe (me processem!). Apesar de ter um contador de imbecilidades ditas por segundo, ele pelo menos tenta fazer bem seu trabalho. Na Band, Luciano do Valle e Silvio Luiz dão uma aula de como superar o Alzheimer esquecem e trocam nomes de jogadores à deriva e, se o Neto não corrigir, eles deixam exatamente como está. E qualquer um que seja corrigido pelo Neto não merece nossa atenção, certo?

Nilson César é narrador titular da Rádio Jovem Pan, onde trabalha desde 1982. Essa parte institucional eu encontrei em seu blog. Pra mim, Nilson César é o narrador que aparece na minha mente quando se diz a palavra ‘narrador’. Nilson César faz com que eu queira ser um daqueles tiozinhos que assistem TV com o radinho de pilhas do lado (ou com fones de ouvido. Como é que esses tiozinhos não pensaram nisso antes?).

Procurei uma forma de ouvir suas narrações via internet, mas não encontrei nada e encontrei as narrações dos gols de todas as rodadas e alguns poucos vídeos do youtube. O negócio é que cada jogo narrado por sua voz é uma obra de arte única e infelizmente passageira, pois tem seu fim quando encerrados os 90 minutos. Nunca soube o que responder quando me perguntavam se eu tinha algum ídolo. Aliás, soube: ‘meu pai’, ‘meu avô’, mas esses não valem, são minha história. Da próxima vez, vou bradar sem medo: ‘Sou fã incondicional de Nilson César’.


*pra validar o texto, o áudio acima é de um gol contra meu próprio time e não deixa de ser emocionante.

Look who’s back

É de se dizer que jamais nos veríamos novamente. Estudante da GV, moleque bom, hippie de coração. Sempre o encontrava de passagem pela livraria em que eu trabalhava, uns 6 anos atrás. Meleca é parte do que eu queria ser quando crescer – ainda que seja mais novo do que eu -: Pegar uma bicicleta e viajar o Brasil, a América do Sul, vivendo de meus próprios êxitos, do ‘lucro’ de badulaques confeccionados em clips e rolhas de garrafa pet, ou coisa que valesse.

Certo dia, pegou sua bicicleta e saiu. Passaram-se anos com poucas notícias suas. Desaparecido? Não, na verdade, talvez estivesse encontrando a si mesmo. Foi ‘quando ele saiu pra vida’, concluiu o Wolvs. O moleque da zona sul desapegado das regras invisíveis criadas sobre a base de nossa sociedade pegou a bicileta e viajou o Brasil inteiro vendendo artigos hippies. Ganhou uma comunidade no orkut, pra você não pensar que conto aqui uma história de ficção, uma fantasia sem base na realidade.

Voltou dia desses e já podemos encontrar a estrela do Meleca nos bares e lugares comuns do Campo Limpo e Capão Redondo, com sua garota do Amazonas e certamente mais histórias pra contar do que poderemos ter durante uma vida inteira.

Quando encontrá-lo, certamente vou perguntar timidamente sobre a viagem, sem querer um parecer ou uma resenha a respeito, porque talvez um ano inteiro de conversa não dariam conta de ouvir e conhecer cada lugar por onde passou, cada pessoa que conheceu e cada sensação que a liberdade e o desprendimento lhe proporcionaram.

Meleca está de volta e fiquei realmente feliz por saber.

O Texas, definitivamente, não é aqui

Escolhemos o domingo a noite para pegar um filme no shopping Villa-Lobos. Porém, os horários avançavam demais madrugada adentro pra ver uma comédia romântica ou um filme que dava pra esperar em DVD.

Decidimos jantar lá.

O shopping porta uma praça de alimentação respeitável, sem dúvida. Sempre me deixa escolhendo por horas e tal. E então, pra não escolher o Burger King rotineiro, decidi pelo Jack Ribs.

Ao chegar no balcão e pegar o cardápio, as atendentes pararam as piadas internas e contiveram os risinhos na medida do possível. Eu não sou um cara excessivamente chato. Sei quando preciso ser respeitado e sei quando não dar a mínima. E aquele era um momento ‘não dar a mínima’.

Pedi meu sanduíche com fritas, sentei esperando minha senha. Quando chegou, o lanche tinha a parte de baixo encharcada pelo molho barbecue (I hope so). O pão estava duro, amanhecido e recém retirando do microondas.

O hamburguer de picanha era lindo, sério, mas fora feito de maneira tão porca que estava cru por dentro e parecia chiclete de carne. As batatas eram claramente velhas e requentadas. Pelo menos com o refrigerante estava tudo certo.

Apesar da crítica positiva no blog Eu Comi – pedi exatamente o mesmo combo relatado no post do Guilherme, com exceção da Coca-cola ao invés de Fanta – tive uma primeira impressão tão terrível do serviço prestado pelo Jack Ribs que dificilmente voltarei lá.

Da próxima vez é Whooper, sem inventar.

Itaú, nem parece banco

Daí que mudaram as datas de pagamento aqui no trabalho. Agora recebemos vales, pra não ficarmos sem grana o mês inteiro etc. E, claro, para os desorganizados como eu o negócio se tornou uma tempestade irreparável.

E fui em minha caríssima agência do Banco Itaú (linkei até o twitter para esses covardes do monitoramento web encontrarem rápido essa crítica), alterar datas de pagamento de um velho acordo.

Acho que tenho uma certa habilidade para escolher agências em que os gerentes são antipáticos e arrogantes no limite da falta de sensibilidade. (tem a ver também com a localização da agência e o pensamento que negros desajeitadamente fora de moda não devem ser tratados decentemente, mas isso é pra outro texto). A primeira resposta é, naturalmente: ‘não posso te ajudar, tenta ligar na central’. Ao contrário do que se pensa, eles só ajudam o cliente em último caso, antes de dar alguma merda jurídica.

E, bem… não, eles não podem alterar a data de vencimento sem fazer uma odisséia a respeito.