Notas do trânsito

Além de toda essa minha biografia jornalista, escritor e whatever, sou também criador e cool hunter de jargões politicamente incorretos para um trânsito menos opaco. Isso tudo, basicamente consiste em inventar e perceber expressões e frases de efeito para serem utilizadas sem critério, em qualquer ocasião, neste emaranhado de ruas que chamamos de cidade.

Existe também uma linha padrão para esse tipo de criação: é feito sempre quando minha garota está no carro. Quanto mais vergonha ela sente, mais eficiente é a expressão.

A mais nova – que eu não me arrisco mais a dizer ao lado da Denise, depois de um pedido formal (ameaças included) – acontece quando você pára num cruzamento e o carro na outra rua também pára. Você dá sinal para ele passar, mas ele não passa e só acaba saindo do lugar quando você também decide sair. Daí você rasga na frente dele e quando passa o mais próximo possível do carro, grita:

-TÁ INDECISO? DILMA É 13!

Acredito que não seja necessário esmiuçar aqui todo esse enorme trabalho de pesquisa sociológica por trás dessas expressões (mesmo se existisse algum).


1. Post na vibe do Curso de Etiqueta para Principiantes, um dos sensacionais blogs aleatórios do meu amigo Sandro.
2. Não, eu não votei na Dilma.

A síndrome de perdedor

O mundo faz com que eu pergunte se sou bom o suficiente, se sou o cara certo para a vida certa e me mostra três ou quatro linhas para seguir, três ou quatro rumos dos quais não posso escapar. Sorria como se você quisesse mesmo fazer isso, a música diz. Ou algo assim, não quero mais saber. Tento apenas não me importar, tentei a vida inteira não me importar, morrer na Lira dos 20 anos, virgem e eternizado como um doente maluco que não deve ser ouvido.

E, por mais que se tente jogar o jogo, com as cartas que nos deram, na mesa que nos colocaram, você sabe que algo está errado, fora do encaixe e você não deveria estar neste lugar, você não tem esse direito.

Não consigo lembrar quando foi que eu parei de imaginar a vida de um milionário. As pessoas desejam tanto ter dinheiro para esnobar, desfazer, destruir, humilhar. Eu não quero dinheiro. Nunca quis. Viveria bem se não precisasse dele. O homem fica perturbado quando deixa de querer ser rico. Você é criado com a premissa de que um dia vai querer ser rico, vai querer pisar e passar por cima de alguém, vai querer a boa vida.

Quando você não se importa, você passa a ser um perdedor maior que os outros, pela sua falta de ambição e cobiça, por não ostentar nada além de sua própria paz, deitado na cama, de seus braços cruzados por trás da nuca, batendo a havaianas na madeira da cama e imaginando o que pode acontecer depois. Por não querer um terno e um currículo impresso em pergaminho sagrado, você desiste de acreditar que um dia vai se pegar pensando em que carro dar para sua esposa de aniversário.

Pode ser a maior desculpa que já inventei para meu fracasso, mas não querer ser rico é também a minha verdade.

Até quando?

Apesar da minha linha de pensamento em que as pessoas só se metem em encrencas amorosas porque optam por fazer da vida uma grande escola prática de teatro, deixo vocês com essa reflexão de Nick Hornby, no melhor trecho de Alta Fidelidade:

I know I’m being stupid, but I don’t want her coming to my shop. If she came into my shop, I might really get to like her, and then I’d be waiting for her to come in all the time, and then when she did come in I’d be nervous and stupid, and probably end up asking her out for a drink in some cack-handed roundabout way, and either she wouldn’t catch my drift, and I’d feel like an idiot, or she’d turn me down flat, and I’d feel like an idiot. And on the way home after the gig, I’m already wondering whether she’ll come tomorrow, and whether it will mean anything if she does, and if it does mean something, then which one of us it will mean something to, although Barry is probably a nonstarter.

Fuck. I hate all this stuff. How old do you have to get before it stops?

Três negros e meu sonho de Copa do mundo

Estávamos assistindo a Copa do Mundo USA de um ano qualquer. Era um negócio bem 3D, dava pra ver o jogo perfeitamente, o bar era bacana, as garçonetes prestativas, a coisa toda.

Foi quando, do.nada, levanta o Akon do outro lado do bar e bate numa garçonete, que cai no chão aos prantos, derrubando a bandeja com copos e guardanapos. Um pessoal, indignado vai pra cima do cantor, que continua rindo e bebendo, como se nada de terrível tivesse acontecido.

O pessoal reclama, mas não faz nada a respeito e sai de perto.

É nesse instante que eu, já cego de raiva, levanto e parto pra cima do Akon, que de relance segura meu soco, mas depois não aguenta quando eu o coloco no chão e esmurro sua cara. Ele fica desacordado por alguns minutos, se mexendo pouco. Volto pra minha mesa, com as mãos ensanguentadas e recuperando minha visão moral dos fatos.

Quando ele acorda e se levanta na mesa, volto lá. Mas, como por encanto, o Akon tinha virado o Adolfo (eles são parecidos mesmo), amigo meu. Discutimos muito, ele disse que eu não deveria me intrometer, a vida era dele etc.

Ele se levanta. Quando eu viro a cara, ele se transforma no Daniel, outro amigo, que com os olhos roxos pelas porradas estava também desgostoso comigo e com o Guto, que agora me ajudava para que ele percebesse a merda que tinha feito ao bater na garçonete (perceba, era a mesma pessoa que se transformava em várias).

Dizíamos algo como ‘Mano, quando você fizer dessas a gente vai te dar três tapas na cara, seu puto’. Ele começa a voltar da bebedeira em que se encontrava, pega um prato de salada de tomate e joga nos meus ombros com um ‘vão à merda vocês’.

Um sonho sem final, como todos os outros, mas categoricamente épico.

Copacabana, Bitch

“(…)São as primeiras gravações do Gil no exílio, feitas em dois canais e são só seis músicas, mas, repito, destrói com garbo, elegância e bicho-grilice, toda a onda atual de violãozinho. É tipo você se achar foda porque é designer de flyer duma balada de moderno e de repente descobrir que seu vô inventou o LSD”

Trecho extraído da resenha do disco Copacabana Moun Amour, de Gilberto Gil, na revista Vice desse mês.

Manifesto para que nos deixem em paz

O envelhecimento precoce traz à tona o que temos de pior, aflora as angústias, polui os pensamentos e cataloga nossas depressões em ordem alfa-numérica. Uma das características dessa minha fase é a aceitação do que não seremos em nossas vidas. Saber que você tem quase 30 e um carguinho ‘na área’, acaba se tornando a única forma de se sentir mais humano e menos especial, como todo mundo.

Tudo o que me incomoda, que me joga um balde de água fria, tudo o que faz com que eu não tenha sonhos, ambições ou metas a cumprir (pra enlouquecer de vez a Denise) é saber o que eu não posso mais fazer, seja porque não cabe mais a um homem de minha idade sair para colar cartazes de shows punks na rua Augusta, seja porque é inviável financeiramente manter bandas, zines e posturas.

A teoria aqui mostrada é que o desenvolvimento do homem dá margem para que toda a sociedade lhe diga o que fazer, como ser, ou defina que espécie de aparelho portátil para abdominais e geladeira duplex você deve comprar para que alguém mais além da sua mãe tenha seu nome na agenda telefônica.

Desde pequeno você ouve seus pais. E alguns anos depois de uma conturbada juventude permissivamente rebelde, você volta a ouvi-los. E, inconsciente, gostaria de ter apenas eles para ouvir, como quando era um bebê nos colos sangrentos da sociedade (ok, nessa eu peguei pesado).

No fundo, ninguém quer ser criança novamente. Ninguém quer se machucar nos brinquedos do play, quebrar a perna pela primeira vez ou ser enganado pelo tiozinho do cachorro-quente que jurou que ia voltar com o troco da sua mãe.

Só queremos menos regras, menos gurus dizendo o que temos de fazer para que nossa vida dê certo, menos Patrycias Travassos e garotos propaganda usando verbos imperativos. Só queremos que nos deixem viver nossas vidas da maneira que bem entendermos.

E quando digo isso tudo em terceira pessoa estou apenas tentando colocar toda minha geração junta nessa depressão que é tão minha. Desejo um forte abraço a todos os envolvidos.

Quase fiz uma piada com ‘panela depressão’, mas não o fiz. Podem me agradecer nos comentários.

Walking Dead, tudo na rede

Walking Dead é uma série com zumbis. Isso me bastou para passar o último mês completamente maluco por cada notícia e cada cena das gravações, novos trailers, o de sempre. Até quando o episódio vazou* na rede, assisti sem legendas, numa qualidade terrível. Porque, inacreditavelmente, eu não tenho vergonha desse tipo de atitude de adolescente fã de Crepúsculo.

O primeiro episódio, dizem, é melhor do que a HQ. Não posso comparar, uma vez que só li a primeira edição da revista, que não conta todo o piloto, mas boa parte dele. O que posso dizer é que o seriado começa com uma variação de cenas nojentas, corpos mutilados e um elenco de zumbis e outros personagens menos caricatos do que em Zombieland, por exemplo.

Apesar de tudo, a Fox conseguiu cortar uns pedaços da série. E não digo ‘pedaços’ sem necessidade, que resumiriam a história, por motivos comerciais e bullshits. Estou falando de trechos importantes, que dariam outro contexto à história. É como não pagar o dublador do Homer Simpson na hora que o público mais precisa dele. Como teste, assista os dois (primeiro a versão web e depois a versão da Fox) e preste atenção no cavalo. Você vai entender.

E, bem, para me culpar completamente pelo copyleft da obra, você pode ler no WalkingDead.com.br toda a série de HQs.

*’vazou’ neste contexto significa viralizar por trás das cortinas, pra parecer um simples engano de logística. Conspirações, amigos, conspirações.