Reveillón sempre traz de volta aquela sensação da sua tia do interior que você gosta tanto, embora ela cozinhe porcamente. Então ela te oferece o clássico bolo de laranja grudento e doce demais, você diz que está uma delícia, mas não quer outro pedaço.
Todos nós temos sonhos, desejos, fazemos promessas, queremos uma vida perfeita. Listas de desejo para o ano seguinte tendem a fracassar, embora todos as façamos. Emagrecer, estudar mais, parar de fumar. Queremos todos nossos próprios shows de Truman, nossas dramédias particulares, que o mundo gire em função de nossa vida, não o contrário. Don’t get me wrong, o errado nisso não está em querer ou desejar alto demais, mas em não enxergar no espelho exatamente quem somos e o que precisamos para que nossa vida melhore significativamente.
O afastamento da infância me criou sérios problemas de ordem psicológica e comportamental. Substituí a vergonha de conversar com as pessoas por dificuldades de convívio, sublimadas pelo post rock e trilhas sonoras instrumentais de filmes; troquei também alegrias de jogos lúdicos pela rotina de escritório. E também tem isso de perguntarem o que queremos ser quando crescer.
Não viver o que queríamos ser quando crescêssemos é de uma intrincada melancolia. É isso que gera pessoas vazias, enfeitadas e escondidas em seus avatares. Ter o conhecimento de causa, saber que não fui o astronauta, nem o cientista com um laboratório maluco me fez perder a confiança em muita coisa, me fez pensar que o mundo não foi feito pra gente como eu. Mas para tudo, diria Einstein, existe um meio termo (ele diria que tudo é relativo, mas vamos lá).
Uma música um tanto desconhecida diz, ‘Sim, a vida é maior que nós‘. Podemos contar com inúmeros momentos felizes, sempre, por mais passageiros que eles sejam. Costumam dizem que é isso o que ‘dá jogo’ à vida. Estar com seus amigos, lembrar de seus pais, olhar o futuro com esperança e incerteza, é o que nos faz seres humanos. E a felicidade está nesse limbo, nesse meio termo, na linha tênue que separa nossas insatisfações do caminho correto, da vida que esperamos.
A virada do dia 31 para o dia 1º significa então o momento da conclusão do caminho, ou da continuação do caminho, não importa, desde que seja um inevitável rumo à mudança.
Sua tia vai sempre tentar melhorar seu bolo, tal qual o tempo vai sempre tentar melhorar o ano seguinte. E décadas se passam assim. Vão embora deixando algumas saudades e lembranças de outros sabores ruins que gostaríamos de esquecer. No final de tudo sigo dizendo que gostei, embora não aceite mais outro pedaço.