Quando você se lembra que na tarde inconsequente do dia anterior você entrou na piscina com o pendrive no bolso e abraçado com um cabrito bebê, tudo começa a parecer mais estúpido do que o normal.
Dignidade, não trabalhamos.
Quando você se lembra que na tarde inconsequente do dia anterior você entrou na piscina com o pendrive no bolso e abraçado com um cabrito bebê, tudo começa a parecer mais estúpido do que o normal.
Dignidade, não trabalhamos.
O final de semana foi a prova definitiva para manter a última frase do meu perfil (ao lado) no lugar em que ela está. Ou trocá-la por ‘eu não presto, mano, sério’. Minhas expectativas não erraram. Eu, esse bêbado inconsequente e descontrolado, não mereço nada mais que uma vida merda. Obrigado, mundo, por fazer seu trabalho tão lindamente.
E toda essa indiferença, cara, vem de onde? Dessa vez eu não consigo me sentir completamente errado. E veja que, ‘completamente’ é o que dá sentido na frase. Eu sei do que devo e não devo fazer, embora possa ocorrer erros de percurso, inadvertidamente. O que não posso entender é como um erro pode anular todo o resto. Isso facilita bastante. Quando você tem tanta coisa boa pra lembrar, você não consegue imaginar como esse negócio de beber incontrolavelmente te faz um cara escroto do dia pra noite.
Talvez eu consiga guardar as alianças na caixa de recordações, ou alterar o status do relacionamento, ou devolver os livros dela que ainda nem cheguei a ler. Mas agora pouco, no carro, deixando ela em casa, tive a sensação de estar assinando um atestado de fracasso sentimental que vale pelo resto da minha vida.
Ela só era boa demais pra mim. =(
O ano, 2006. A faculdade, Unisa. Tinha acabado de terminar um namoro de pouco mais de um ano com uma mina que estudava na minha sala e estava no período traumático em que se recolhe as misérias no silêncio e no riso contra vontade. Último ano de faculdade, isso é também preciso dizer. Recentemente demitido do estágio, outro fato importante desta trágica historieta.
O trabalho de conclusão de curso tive que fazer sozinho após acabar o relacionamento. Optei pela monografia clássica, cujo maior problema eram as regras da ABNT e o contato do Mr. Manson, uma vez que a parada se tratava de blogs.
Sem contexto definido, li muita coisa entre conclusões de curso, estudos, livros de cibercultura, mas nada disso me entregou de bandeja a base para tematizar meu texto. Acabei escrevendo sem rumo, separei os capítulos, fiz um trabalho de pesquisa digno, ao menos. Se tivesse tempo, Deus sabe, teria feito um compêndio sobre a blogosfera mundial.
E o mundo se degladiava dentro da minha cabeça.
Na hora de apresentar, gravei um CD com AC/DC, Explosions in the Sky, Interpol, New Order, Mogwai e God Speed You! Black Emperor, músicas de background para poder falar tranquilamente sem perder o foco e tal, me arrumei mais decentemente que no resto do ano, chamei o From e o Regino, que me deram o conforto de suas presenças.
Subi no palco, discursei para três professores que me olhavam – e se entreolhavam – com uma indiferença que jamais vou esquecer, enquanto minha orientadora (até então não mencionada no texto pois falou comigo apenas uma semana antes da apresentação) tentava claramente entender o que eu dizia. Terminei. Parei de tremer e esperei alguma observação, crítica construtiva ou coisa que acalentasse o terror da oratória.
-Você fala aqui de interatividade, pode nos explicar um pouco melhor?
-Bom, interatividade é a relação entre o leitor e o produtor do conteúdo, o blogueiro, através de comentários, de citações e hyperlinks. São as possibilidades de aproximação entre o usuário e o público.
-Mas esse é um conceito vago, não?
-Bem, o conceito geral é esse.
-Não, interatividade para o tema do seu trabalho não é isso, interatividade é como o leitor lê o blog, como isso é facilitado, como, sabe… de que forma o leitor enxerga, como ele lê, como ele acessa o site…
-Também, mas isso tem mais relação com usabilidade, que não achei necessário abordar no trabalho
-Bom, mas tem uns erros de português também e…
O que testemunhou-se a seguir foi uma execução sumária de quatro anos de estudo e disciplina (deixei de frequentar o boteco ainda no primeiro ano). Fui taxado de iletrado, pouco dedicado e analfabeto digital. Minha orientadora, na sua vez de falar, desculpou-se por não ter exercido seu trabalho corretamente e tentou amenizar a fúria desregrada dos outros professores da banca, que comandavam o excrutínio.
Tirei um sete no trabalho, média que me garantiu o diploma e a participação na festa da formatura. Embora, desde então, eu considere como se nunca tivesse terminado a faculdade.
***
Nota: A professora que começou a me escrotizar publicamente em frente de todos os meus amigos, alunos de anos anteriores e inclusive da ex-namorada em questão, costuma me adicionar em suas redes de relacionamento e me convida para sites tipo Bebo e essas redes brasileiras que prometem porcamente ser os Twitter Killers.
ou Falta de posição (anal é coisa séria).
Estava escrevendo um texto que sairia gigante sobre o amigo secreto daqui do escritório, mas preferi abster este servidor de tamanho cansaço. Porque a galera do trampo marcando amigo secreto é a receita da preguiça, sério. Nego reclama do bar, do horário, do preço, dos pacotes de consumação, quer a comemoração no meio da semana e depois inutiliza toda essa militância pelo nada com um e-mail típico ‘gente, eu escolho o que decidirem’.
Confesso sentir uma inveja desmedida dessas pessoas que sabem exatamente o que escolher num bar, restaurante ou banca de pastel. Esses governadores da predileção, que sabem escolher cada ingrediente de seu ravióli do Spoletto como se fosse algo absolutamente óbvio.
Isso sempre me pareceu pouco fácil, se tornando um massacre sem tamanho ter de decidir entre pimenta do reino, milho ou pedaços de bacon (eu sempre escolho o bacon, BTW). Como naquele jogo do Big Bang Theory com perguntas do tipo ’em um mundo em que rinocerontes são animais domesticados, que vence a Segunda Guerra Mundial?’. Não existe lógica nenhuma, a não ser aquela que consigo inventar de bate pronto, em que o bacon e a ervilha tem nível 4 numa escala internacional de sabores, ficando abaixo apenas do alho poró e da cebola roxa, respectivamente.
Sem contar os fancy choosers e é desses que eu realmente quero falar. Do malandro que não sabe chegar numa barraca de pastel e pedir ‘um de pizza e uma coca’, ele tem que encher os pulmões e esvaziá-los dizendo: mê vê um de carne seca com cebolas picadas e azeitonas pretas chilenas, com um suco Del Vale de frutas cítricas no copo de plástico e dois canudos de cores diferentes.
Outro tipo clássico é o que não sabe pedir um café puro ou pingado e um pão na chapa. Ele precisa pedir um café espresso macchiato com bastante espuma e um sanduíche de queijo brie na chapa com algumas pitadas de cebola. Sempre a cebola, reparem, este é o condimento principal para se tornar insuportável.
A parte disso tudo, meu sério problema é com aquela cafeteria que salvou a vida de Michael Gates Gill. Não consigo pedir a bebida adequada em ocasião nenhuma. Sempre peço ‘aquele gelado de café e chocolate tamanho grande’ e sempre tenho respostas secas para confirmar quando o atendente me diz: ‘o senhor quer então o Frappuccino Blended Beverage Java Chip à base de café tamanho Venti?’. Daí respondo com aquele olhar cínico, esbanjando uma fingida superioridade: ‘claro, amigo, claro’.
Outro fato completamente insensato dessa minha vida infernal é que não consigo pedir pizzas além da prática, default e pouco espirituosa meia mussarella, meia calabresa. Embora eu devore todos os sabores sem nenhum problema, é necessário que, de alguma forma, em algum oitavo das pizzas haja queijo e calabresa.
É aí que está o segredo. Parece de uma frescura sem tamanho, mas é exatamente o contrário. Eu tenho uma boa relação com todos os sabores, o que não me confere exatamente a liberdade de optar pela quatro queijos em detrimento da marguerita, afinal que culpa ela tem? E assim eu sigo dramatizando conceitos culinários como respostas para minhas grandes fraquezas.
O relógio marcava errante entre três e quatro horas da manhã de segunda-feira, quando acordo de um susto e percebo que uma mulher gritava a plenos pulmões, repetidamente, na área comum do condomínio:
-NATIF, DEVOLVE A MINHA FILHAAAAA!
Deixando de lado a idéia de que a mulher era só uma maluca qualquer, noiada de crack, vagando numa madrugada e imaginando que o tal do Natif realmente desceria com sua filha e diria ‘ok, agora nos deixe em paz’, o condomínio estava sem energia elétrica e eu, que não consegui mais dormir, não pude ver o Friends maroto que passa na Warner quando ninguém está assistindo.
Sei lá, achei que esse desconforto pudesse interessar a alguém.
E, bem amigos, foi só agora que eu, trabalhador otário honesto desse mundo injusto, ao ocultar a barra de tarefas do Stumble Upon, perceber que estou sem comer há pelo menos 12 horas e olhar para o relógio do escritório que marca 22h03, descobri que chegou o final do ano e para nós, que vendemos produtos desnecessários que as pessoas compram como mariolas para esquecer a merda das suas vidas que trabalhamos com e-commerce, o mundo torna-se um lugar menos sadio e respeitável.
O ano inteiro é esse terror psicológico, mas em dezembro o negócio aperta seu cérebro como um vírus, invade cada centímetro de decência que ainda existe em você e faz com que você desista dela (lembre-se, eu entrei às 10 da manhã, são 10 da noite e eu ainda estou por aqui). Mais do que isso, faz você querer o começo do ano novamente, um ciclio desnecessário que não se pode interromper. Ao menos não tragicamente.
Portanto nos vemos, entre uma transpiração ou outra, quando minha cabeça funcionar durante os dias que se seguem.
A imagem é do Graphic Design Blog