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Minha Tia Paula

Algumas pessoas são responsáveis diretas pelo meu bom entendimento com as letras e a literatura, meu pai por escrever cartas à minha mãe, minha mãe por ser professora, meu tio Nel que me deu um livro de teatro infantil feminino – que só hoje entendi, ele deve ter comprado de última hora, como eu faço sempre com presentes de natal quando preciso – e, entre elas, minha tia Paula, irmã de minha mãe.
Foi na casa dela, lá, no estado mais pobre do país, que descobri a riqueza de Castro Alves, a magia do sertão, a beleza das Iracemas. Foi também lá o primeiro lugar em que estranharam o fato de eu não querer sair e optar por ficar lendo “trancafiado” em casa (coloquei os parênteses porque, ora, não me considero realmente trancafiado quando estou com um livro qualquer sentado numa rede, olhando um rio encher com a chuva amena e uma brisa tranqüila).
Ela tem uma coleção de literatura brasileira bem antiga, dessas cheias de pó, com a capa dura e uns detalhes dourados, vários volumes intocados por anos na prateleira da sala. Se bem me lembro, era dela também a primeira máquina de escrever que tive à disposição para escrever (embora ainda me lembre disso como um sonho antigo de quando era pequeno e que não sei diferenciar da realidade).
Foi também ela que me incentivou a escrever um diário de viagem, um dos meus primeiros contatos com a caneta e o papel em branco. Nada especial, era apenas um garoto descrevendo como era divertida aquela cidade com pessoas iguais às de onde eu tinha vindo, mas que falavam diferente e, sem dúvida, eram mais felizes do que as que ele conhecia.
Além disso, ela me ensinou a comer carne seca de um jeito que só nossa família sabe cozinhar, me chamou de besta por não gostar de peixe e camarão, mas dela eu só conseguia ouvir isso como um filho ouve a mãe, com um ‘você não sabe o que tá perdendo’ implícito. Faz um bom tempo que não vejo seus óculos fundos e não troco palavras por telefone com sua fala mansa e forte, faz tempo que ela não pergunta se já arrumei uma namorada só pra me causar algum constrangimento, talvez ela sequer saiba que isso não me causa mais esse efeito.
Tudo isso é só pra dizer que desde a semana passada minha tia Paula está internada na UTI de um hospital meia boca na capital do estado e que, aqui em casa, estamos completamente aflitos com a possibilidade trágica de perdê-la. Tentei escrever um texto que exemplificasse a dor de minha mãe por estar longe da irmã, mas percebi que nada disso vem ao caso. A semana foi, inclusive, excelente para lembrar cada bom momento como esses que citei. Porque se algo der errado, é nisso que temos de nos apoiar.
Então, por enquanto, eu só me atenho a essas boas lembranças.
  1. Texto lindo, como sempre, me fez voltar no tempo e lembrar tanta coisa.
    Espero que sua tia melhore, estarei torcendo por aqui!

    Bjos

  2. Belíssimo texto!

    É como eu sempre digo. Nossas histórias nós as deixamos tecidas nas vidas dos outros, daqueles que amamos.

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