Chovia muito. Na sala, à meia luz, eles falavam sobre como eu era inteligente, sobre como conseguia articular tudo isso sem me tornar chato, insensível ou arrogante e como conseguia explicações simples para qualquer complicação que fosse. Comentavam também meu comportamento tímido, meu humor negro, cada um contando sua experiência individual de adaptação ao meu convívio. Diziam que eu lia muitos livros, muitas notícias, raramente não sabia do que estavam falando. Verdade, também comentavam que eu sempre sabia do que estava falando e, caso não soubesse, procurava entender.
Algum trecho do meu cérebro ainda conseguia ouvir essa conversa, bem longe, enquanto me escondia numa bebedeira que só teria fim quando eu não conseguisse mais chegar na geladeira para alcançar outra lata. Lembrei de uma ex-namorada que lia o dicionário pra poder lidar comigo. Ela não lidou e sumiu. Eu lidei, deixei de ouvir a conversa da sala e fui até o bar, tomar um conhaque com limão e tentar provar de uma vez por todas que nada daquilo que falavam era sobre mim.
[causo da festa da firma, 2010]