Enoch é um senhor de nome bílbico que tem um bar nas redondezas da casa dos meus pais, onde, merda, detesto dizer isso, ainda moro. O bar do Enoch tem uma mesa de sinuca, quatro freezeres e uma sala devidamente escondida para máquinas de caça-níquel. Possui uma clientela que gira em torno de tiozinhos desesperançosos pagando doses de Fogo Paulista com o dinheiro do INSS, traficantes à paisana (se você puder considerar “à paisana” um moleque de 19 anos de bermuda, sem camisa, usando corrente e relógio de ouro) e vez ou outra um pessoal descolado da vila que fica ouvindo aquele clássico do Pharoahe Monch no som do carro e relembrando bons tempos que viveram.
Aquém desse universo, Enoch e seus funcionários costumam ter táticas matreiras de expulsar seus clientes com civilidade, fingindo ao mesmo tempo que isso tudo é apenas parte do trabalho. Primeiro, eles param de vender fichas de bilhar à meia noite em ponto. Depois, cadeiras vazias dessas de metal começam a ser entrepostas sobre a mesa, de forma que uma batida de olho gera o raciocínio imediato de que o bar está encerrando suas atividades. Coidigênio, uma aula de semiótica, bem ali, no coração do comércio local.
Então, eles deixam de vender bebida. Se você quiser alguma especialidade como o notório Dreher com limão, eles vão te servir em copos plásticos e você deverá esperar um bocado, pois os três funcionários já estarão executando a terceira parte desse processo de exorcismo ao varrer a calçada, seu pé e o de quem mais estiver na equipe de resistência. Alguns muitos rebeldes teimam em permanecer no local e então segue-se um plano alternativo em que, após varrer a calçada, eles lavam tudo com água e sabão e o bar fica com apenas uma das portas entreabertas.
Se ainda assim sobrar alguém, apela-se para o lado afetivo. Neste momento, os três funcionários saem com cara de sofrimento e dizendo, po, “amanhã eu tenho prova da faculdade”, ou “minha mulher e minha filha, cara, minha mulher e minha filha” ou ainda clássico “eu também tenho uma vida fora daqui, cara”.
É uma maneira do Enoch dizer, adoro vocês, caros clientes, mas agora chega, vão procurar uma conveniência ou mercado 24 horas. Não é nada pessoal, mas eu preciso da minha liberdade pra poder estar aqui amanhã às 7h preparando o primeiro garrafão de café do dia, mas agora não dá mais, vão embora, eu imploro.
Um belo compêndio introdutório para dizer que (excetuando a relação dono x cliente) a sensação de viver com meus pais às vésperas dos 27 anos é exatamente a mesma de estar no bar do Enoch às 00h15. No final, as táticas para expulsar clientes indesejáveis e filhos beirando os trinta são as mesmas.
——
ps1.: Inspirado na terça-feira em que ninguém estava numas de conversar comigo em casa. Provavelmente com o pensamento de que eu estou me aproveitando da situação e qualquer outro gasto que esteja fora do programa Minha Casa, Minha Vida será o estopim que vai me manter morando lá durante a próxima década.
ps2: Não vou nem comentar o quanto a frase principal de Simon Says (a música do link) tem relação com este texto.
Texto do caralho. Nem que eu quisesse fazer esta analogia Bar do Ciço x Minha Vida, conseguiria. O Bar do Ciço é heavy.
A trilha sonora merece um post..
Get the fuck up!