Há pelo menos 10 anos, eu costumava andar com um rosário enrolado no punho direito. Sim, um rosário, esse pokemon evoluído do terço. Eu fui colaborador da igreja católica depois de um encontro de jovens, aos 17 anos. Então, digamos, quando você estava indo pra faculdade ouvindo AC/DC no CD Player, eu era o cara do seu lado quieto, de cabeça baixa e trocando as contas de bolinhas a cada oração. Eu tocava guitarra na missa, violão no grupo de jovens, pedia comida nas comunidades, me reunia para organizar as paradas e fazer um monte de gente maluca pensar algo além das festas juninas do bairro.
Era isso que representava pra mim, fazer alguém poder pensar, mais do que isso, era poder me ocupar em algo além de tocar violão e beber vinho no mercado. Ainda que você me diga que pensar em religião é um pensar menor, oblíquo e quase alienável, é um pensar. E isso, para muita gente vale mais do que qualquer faculdade. Sabe aquele pequeno trecho de um livro que mudou sua vida, aquela palavra que te deixou desconfortável na cadeira, aquela banda, aquele filme, aquele grupo, aquela época que foram essenciais e sem as quais você não teria livrado seu pensamento do Domingo Legal, Parangolé e Band FM? Algumas pessoas nunca tiveram seu ponto de mudança para um pensamento mais livre e desapegado do imaginário popular. E a religião pode funcionar como esse ponto.
Mas isso é bobagem. O negócio é que eu andava com as porcarias das bolinhas enroladas no punho. E as tiazinhas do ônibus adoravam puxar conversa enquanto eu trocava bolinhas, mesmo sabendo que eu teria de parar de me voltar ao CRIADOR DO UNIVERSO, para dar atenção a uma FREE TALKER COM SENSO DE OPORTUNIDADE. Eu era bem mais amargo que hoje, a propósito.
Hoje lia em frente à lareira saboreando um cabernet Sauvignon no trem, rodeado de gente feia, “Espere a Primavera, Bandini”, primeiro livro de John Fante. Um dos capítulos começa falando de Arturo, um dos meninos da história, que tinha certeza de que não ia para o inferno:
“A maneira de ir para o inferno era cometer um pecado mortal. Ele havia cometido muitos, acreditava, mas o confessionário o salvara. A confissão sempre chegava a tempo… isso é, antes de morrer. E batia na madeira sempre que pensava naquilo – sempre chegaria a tempo… antes de morrer. Por isso Arturo estava bastante seguro de que não ia para o inferno quando morresse. Por duas razões. O confessionário e a de que era um corredor veloz.”
Sou desses malandros que acreditam em Deus, mas ficam sem jeito de dizer que não são religiosos, como a definição pede. Existe um quase martírio ao admitir sua crença, mas também uma culpa mortal de negá-la e ser esquecido. Permanecer sozinho na imortalidade, como dizia a introdução de outro livro do qual já não me lembro.
Poderia omitir isso tudo, mas meu maior medo é o de que não exista nada. E estarmos levando toda essa vida desgraçada para inexistirmos, para termos existido um dia. E começo a me torturar pensando em quantas pessoas vão se lembrar de mim na virada do outro século (tá, tio, se o mundo não acabar em outubro). Olho para as pessoas ao meu redor no trem, apressadas e desgostosas, não parecem estar se importando tanto com isso. Mesmo com a falta de brilho no olhar, eles continuam tementes, inertes, caladas e distantes.
E então cheguei em casa e olhei para o rosário, pendurado na parede do quarto. E dei um nó cego em todo esse pensamento, pedindo a Deus que me garanta um pouco mais dessa ingenuidade bonita e menos dolorosa das pessoas do trem e de Arturo Bandini.