Daí você chega no trabalho e mudaram tudo. E você fica lembrando seus insights incríveis no chuveiro, com aquela euforia de que todo mundo vai ouvir suas idéias numa reunião cheia de risinhos de reconhecimento e cabeças confirmando tudo, olhares cínicos invejando seu júbilo, sinfonias tocando Wagner nos seus ouvidos ao sair da sala e um ‘belo trabalho, Robson’, sinal de gratidão, cereja do bolo.
Apesar de tudo, não foi nada tão assustador assim e basicamente vai continuar tudo a mesma coisa, por enquanto. Eu é que estava com planos demais na cabeça.
“É próprio das pequenas almas soterradas sob o peso dos negócios não saber se desprender totalmente deles, não saber largá-los e retomá-los”
–Montaigne, Sobre a experiência.
Finalmente terminei os Ensaios, de Montaigne. Assustadora e vergonhosamente, o primeiro livro do ano. Quase 600 páginas de puro êxtase filosófico sobre tudo o que a gente teme ou evita pensar. Aspas de Sêneca, Ovídio e vários outros clássicos que deveria ter lido há mais tempo, grandes citações, um volume da Companhia das Letras que me orgulho de guardar todo marcado com post-its e páginas amassadas, trademark dos vagões cheios na linha 9 da CPTM.
“Os Essais são um auto-retrato. O auto-retrato de um homem, mais do que o auto-retrato do filósofo”. Marquei isso na Wikipédia enquanto tentava definir minha sensação ao terminar o livro. E foi isso, exatamente. Fica nítida também a evolução ou amadurecimento do pensamento de um homem que troca seus primeiros escritos ferozes e cheios de vida da mocidade (olha, “mocidade” é uma palavra bonita em extinção) por reflexões sobre cólicas renais e males da medicina ao envelhecer.
Como a vida, sempre.