Worried Shoes, Karen O & the Kids
A vida é esse grande supermercado de lembranças. A gente caminha pelas ruas e encontra num dos corredores aquele amigo com quem batia figurinhas na escola, aquela menina que te ensinou significados novos para a palavra “platônico”, embora não faça a menor puta idéia disso. Gente que fez diferença para que você construísse isso que você é.
Infelizmente, “isso que você é” não é algo que seja feito apenas de grandes gênios, bons corações e existências iluminadas. Acabamos invariavelmente encontrando também aquele setor abandonado de frutos do mar, uma bancada que cheira azedo e só pode oferecer pedaços de escamas perdidos entre o gelo, alguém de quem tentava se esquecer, alguém que traz seus pesadelos mais escondidos à tona, alguém que talvez não se importe muito com tudo isso e talvez nem saiba de que forma sua presença pode causar terror.
A gente sempre sabe. E passa batido, em frente, a mente tentando abominar a imagem, como a de um fantasma, um monstro que escapulira do armário de onde nunca deveria ter saído. Mas a lembrança continua com você, pra sempre. É ela que você carrega no carrinho, embaixo de todo aquele amontoado de potes de geléia e sacos de arroz de cinco quilos.
Não adianta esconder seus monstros, nunca adianta, eles sempre voltam. A única receita a tudo isso pode ser a mais fácil que é saber conviver com eles, que retornam em momentos inoportunos, como um nariz que sangra, para você lembrar quem foi um dia. Vão te dar aquele olhar de que sabem mais sobre você do que você mesmo. E voltam para aquela ilha escondida em um lugar qualquer que nossa alma cria.