Existem pessoas que se esforçam para fazer parte de grupos, para estar na cópia dos emails da galera, ser convidado em festas de aniversário no Facebook, esse tipo de forçação. E existe essa gente que tenta emendar as piadas. É normal estar com uns amigos no bar e espremer uma piada até que ela deixe de fazer sentido. É quando não há mais de onde tirar criatividade que eu e meus amigos dizemos “ou não” e fica claro que não dá mais pra emendar nada ali. E isso é normal, acabamos dando risada disso depois de tudo. How I met your mother tem algumas esquetes assim.
O humor, né, gente, virou commodity. Você precisa ser engraçado pra ser aceito, pra que as pessoas te vejam como uma pessoa legal. Denúncia: Ninguém que seja absolutamente sério e centrado é visto como uma pessoa legal, atente. Você precisa ser uma espécie de comediante a todo instante para que a vida seja mais fácil, para conhecer pessoas, para conseguir empréstimos no banco ou um chorinho de suco de laranja na padaria. Impressionante dizer, mas os “sérios e centrados” estão no mesmo patamar dos derrotados sociais. Ninguém liga se você é uma boa pessoa se você mantém sua cara fechada. Da mesma forma, ninguém liga se você aparecer como cara de derrotado na padaria, “eu hein? Pra esse aí não tem chorinho não” (“chorinho” e “derrotado” não foi proposital, juro).
Tem esse comercial da Toddy, com um garoto querendo saber uma verdade. Arrisco dizer que é o comercial mais triste dos últimos tempos, embora os personagens vestidos de vaca gargalhem como se fosse realmente engraçado o que estão falando. Depois da pergunta, as vaquinhas dizem que aquela garota que ele gosta pode estar invisível no MSN e ainda mais: pode tê-lo bloqueado. Eu queria que alguém me explicasse em que nível de demência isso pode ser considerado uma piada.
E tem o Rafinha Bastos e aquela piada infeliz sobre órfãos e uma outra sobre mulheres feias estupradas. De um lado os puristas, reclamando que ele não tem direito de dizer, não pode, deve ser preso, acorrentado, enforcado em praça pública. De outro, os admiradores de Nelson Rodrigues, argumentando o óbvio: se fosse vivo nos nossos dias, o anjo pornográfico se mataria. O que não posso entender em todo esse debate é, se você sabe em que ponto de idiotice o tal do Rafinha pode chegar numa piada porque você faz tanta questão de tratá-lo como absurdo apenas quando ele pisa nos seus calos?
Tenho uma posição bastante inofensiva a respeito disso: é preciso deixar o cara falar o que ele bem entender. Mesmo se ele achar o ato de amamentação nojento, ou que pessoas feias precisam ser estupradas ou lembrar os órfãos sobre como é terrível o dia das mães. Se existe um público para isso, Rafinha Bastos é apenas um fruto podre alimentado pelo tempo em que vivemos, é vítima de um auto estupro moral, com lembra o Dimenstein.
Claro, acabei de descobrir, perdi o tino completo desde post. Falava sobre essa gente que emenda piadas. Outro dia assistia um jogo qualquer, quando um dos comentaristas diz algo sobre como o futebol é cheio de surpresas: “bom o cara que fez esse filme futebol, não é?”, ao que Cléber Machado, do alto de sua magnitude complementa “digo mais, deve estar rico hoje!”, rindo naquela vibe de quem conta piadas para si mesmo. É preciso dizer que não há o que complementar se, logo de cara, você não entendeu o espírito. Era sobre isso que falava, acredito.