em Pessoal

Faz parte do meu show

Houve uma época em que eu queria ser sozinho. Ter meu apartamento alugado, perto do centro, provavelmente com uma boa vista pra nove de julho, usar araras ao invés de armários, ter o Playstation instalado permanente no rack da sala, aquele tapete de banheiro do Wu-Tang clan, o o espelho da revista Time. Afinal, quem mais gostaria de ficar em casa lendo, ou no escuro à luz de um abajur ouvindo Paralamas do Sucesso? Quem gostaria de debater as notícias mais rasas e frias do jornal com a profundidade de várias ciências sociais que eu debatia sozinho? Não havia nada desse mundo que me movesse da minha visão de futuro que era eu falando sozinho sentado numa escrivaninha à meia luz batendo o cigarro num cinzeiro do Malvados.

E aí, houve a Denise, o plot twist da história da minha vida.

Eu poderia dizer que as coisas mudaram e que agora eu sei o que é certo e o que é errado na vida, essa coisa de namorado adestrado. Mas não funciona assim. Na verdade eu tenho sorte de ter encontrado aquela pessoa que aceite essa maluquice de curte debater comigo todos esses pontos profundos em notícias cruas, enquanto ouvimos Lanterna dos Afogados na luz baixa da sala. E não consigo ver mais sentido na arara porque os vestidos dela talvez empoeirassem e a integridade física dos vestidos dela talvez façam tanta diferença quanto meus livros ou meu DVD do Clube da Luta. Acho que naquela época eu precisava entender que ela não estragaria nada dos meus planos, ela entraria neles junto comigo. Talvez acrescentasse alguma coisa e tentasse me dizer que aquilo do cigarro deixaria de fazer sentido em alguns anos. Naquela época que eu projetava o futuro do meu apartamento com vista pra Nove de Julho eu achei que outra pessoa atrapalharia todos os meus planos, hoje eu digo que não consigo pensar mais os planos sem colocar ela no meio.

É como um desses romances bonitinhos, inocentes e simples das músicas do Cazuza que a gente acha bobo e dedicado e afetado demais, e que na verdade é tudo isso mesmo.

  1. E aí a gente descobre que ‘esses romances bonitinhos, inocentes e simples das músicas do Cazuza’ fazem a gente tão feliz e dão sentido a todo o restante!

    Lindo texto, Robson! Queria ver a carinha da Denise ao lê-lo.

    Beijos!

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