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Wrong Way

Eu sempre procuro aquela curva errada que fiz na estrada. Aquele ponto em que eu virei e as coisas começaram a descarrilhar junto do meu raciocínio. A fração de segundo em que eu escolhi essa realidade e não uma outra em que estou voltando pra minha casa com um sorriso no rosto e esperança renovada para o dia seguinte, aquela luz, aquela respiração mais leve.

Aconteceu um acidente próximo ao escritório da Aldeia da Serra e eu passava uma semana lá ajudando um pessoal a entender um processo novo do trabalho, pra resumir. E então subi a serra pra almoçar. No meio do caminho havia um acidente meio frio, pra rimar com a sexta-feira de nove graus. Quando voltei, haviam bloqueado a pista e tive que fazer um caminho tortuoso, de terra, até chegar à rodovia. Descer uma serra pela montanha, sem asfalto, nem sinalização. Lindo de se ver.

E eu desci atrás de um carro que, aparentemente, sabia o caminho. não, eu não conhecia o ser humano que dirigia o carro, apenas seguia. E quando ele desviou da estrada principal, algo me disse para continuar por onde os carros vinham, de onde era o lugar que eu deveria ir, mas eu entrei e continuei seguindo o outro carro, meio devagar, pensando direito se era mesmo por ali.

Nos próximos 200 metros que segui em frente, imaginei que ele houvesse sumido e acelerado demais, corri, não alcancei nada. Nos 300 metros seguintes, fui olhando pelo retrovisor pra ver se alguém aparecia, nos últimos 100 metros eu procurava um lugar que me deixasse fazer o retorno.

Quando voltei, percebi que o carro que eu estava seguindo havia parado numa oficina, ali, pouco depois de eu tê-lo perdido de vista. Voltei pra estrada de terra principal, passei por um cachorro e tenho certeza de tê-lo visto balançar a cabeça com desdém.

Se eu pudesse descrever essa fase da minha vida, eu diria que estou naqueles 600 metros que me separavam do caminho certo, das atitudes que deveria tomar e do raciocínio mais certo pra mim. Estou perdido e ainda assim imagino que existe alguém lá na frente que poderia me ajudar, então preciso correr pra alcançar, mas talvez, como nessa história, nada disso resolva.

A vida não dá certezas e isso dificulta tudo. Não é como se houvesse alguém dizendo o tempo todo quando você erra ou quando você acerta. No Top Gear, um antigo jogo de corrida, quando você rodopiava pela tela e seguia pelo caminho contrário, aparecia algo como ‘WRONG WAY’, piscando sem parar na tela. E quando você acertava o carro na direção que ele devia seguir, o jogo apenas continuava. Meu palpite é o de que a gente passa a vida toda esperando a mensagem de ‘WRONG WAY’ do Top Gear.


Warren Haynes, Indian Sunset (Elton John)

  1. Parece que vc entrou na minha cabeça e escreveu tudo o que estou pensando. É muito foda isso, mas devemos pensar que infelizmente na vida a gente tem que aprender “the hard way”, se houvesse sempre a tal plaquinha nos dizendo que estamos errados, então nós nunca iriamos de fato pensar, aprender e por aí vai.
    As vezes precisamos pegar a travessa errada, pra que da próxima vez, vc pense “Bom, se eu seguir esse carro de novo, não vou chegar no lugar que preciso” e então, em teoria, tudo será diferente e talvez melhor.

  2. Nossa, Robson, que texto. Não sei choro, rio, te abraço ou peço um autógrafo. Já nem sei se vc consegue ler mentes, se há uma imensa empatia de sensações ou se essa questão das certezas é inerente ao ser humano. O que sei é que sou fã incondicional dos seus textos.

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