Neosorolândia

Gripe é tudo isso que faz a gente pensar que viver debaixo de um cobertor é sempre uma opção possível. Posso listar aqui as medidas que tomei a partir do momento em que me peguei tomando chuva e vento forte no último sábado: (a) me mantive na chuva e no vento forte do sábado com uma blusa leve (b) não tomei remédios durante a semana (c) fumei e bebi como um condenado à cadeira elétrica resisti na minha fidelidade ao suco de laranja.

Luciana, minha amiga que escreve umas paradas sobre noivas nesse site (publicidade do bem), me contou que era viciada nessas soluções nasais que abrem nosso nariz para respirar melhor sem ter que dormir sentado, essas coisas.

Virou assunto da roda no mesmo momento. Não imaginei que nada disso pudesse viciar alguém. A imagem automática na minha cabeça era uma praça da Sé tomada de desabrigados lutando pela última gota de Rinosoro, enquanto um pós adolescente passa na Mercedes do seu pai usando uma versão spray sorrindo e buzinando para uma menor de idade amendrontada na porta da farmácia (eu sei, vou longe nisso).

Nenhum desses remédios tinha funcionado bem comigo, até eu descobrir o Neosoro, o néctar definitivo do nariz desentupido. Passei dois dias inteiros ao lado de um e comecei a ter uns ataques neuróticos quando, numa consulta no meio da tarde, percebi que havia esquecido ele no escritório.

Portanto, guardem meu edredon, meu maço de Eight e meu carrinho de supermercado, porque a cracolândia dos narizes entupidos ganhou mais um adepto.

Redson, um aperto de mão

Redson, Cólera (1962 - 2011)

Eu estava encostado numa porta que dava acesso ao “palco” de shows, no Black Jack, um extinto bar da zona sul de São Paulo. Eu tinha uma banda de hardcore, mas não podia me considerar um fanático pela cena independente, pelo faça você mesmo. A gente ensaiava, conhecia pessoas e bebia, basicamente nessa ordem.

A banda da noite era o Cólera, que quando comecei a ouvir esse tipo de música, meu irmão tentava me convencer que era boa, mesmo usando apenas a distorção footswitch do amplificador para todas as músicas (é, esqueci de dizer, eu era um idiota nessa época). Eu conhecia, tinha ouvido umas fitas gravadas, sabia da mitologia punk envolvida no processo, fui no show de 20 anos no Hangar, tinha ainda o Redson, uma lenda q…

– E aí, cara, tudo bom? – Aperto de mão
– Beleza, mano, e aí?
– Po, lotadão hoje, vai ficar louco isso aqui.
– Ah, vai sim.
– Deixa eu arrumar as paradas ali, até mais, cara.

Foi um aperto de mão do Redson, esse frontman do Cólera, que não me conhecia. É, o vocalista da banda que encerraria a noite. Um cara que eu vi algumas vezes em cima do palco e que, por uma iluminação qualquer do destino, decidiu me cumprimentar e trocar umas palavras. Até hoje eu sinto esse momento como um dos mais importantes que já tive na vida. Não pela tietagem pura, mas pelo que viria seguir.

Claro, por um lado foi só um aperto de mão. Entretanto, pelo lado que até hoje me faz lembrar desse dia, foi algo que, caso não tivesse acontecido eu não teria prestado tanta atenção em como aquele cara era sério com a sua banda, como dizia umas paradas interessantes. Jamais teria coragem de levar minha banda à frente, de ter organizado shows e saído com uma mochila cheia de cola artesanal para apregoar cartazes no centro da cidade. Jamais teria dado o valor exato à música e a capacidade que ela tem de mudar a sua cabeça, de fazer você raciocinar. Nunca teria feito tantos amigos diferentes, nem teria feito parte da multidão que lotava festivais, que comprava discos e distribuia flyers. Talvez nunca tivesse colado um patch na jaqueta, nem sequer decorado o nome de bandas finlandesas. Dedico tudo isso que vivi na cena punk independente (e que talvez ainda possa viver) a esse dia no Black Jack, a esse pequeno enlace de acontecimentos casuais com alguém que foi e sempre será um ponto de referência para o cenário punk no Brasil.

Mas, principalmente, caso nada disso tivesse acontecido, eu nunca teria parado aqui para reverenciar e demonstrar meu eterno respeito e admiração pelo cara que conseguiu me impulsionar tanta experiência de vida com um simples aperto de mão.

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Sobre
Morre Redson Pozzi, líder da banda Cólera

Bonner e Gentili, uma bonita amizade

Eu assistia o Jornal Nacional, quando, no último bloco, William Bonner começa a divagar sobre seu mais novo amigo, o Danilo Gentili, que lhe fez uma homenagem. Bonner discutia a real importância de usar roupas sociais e sobre o caráter formal do jornalismo, uma vez que Danilo era um verdadeiro mestre em unir o humor ao noticiário de maneira brilhante, brilhante!

– Denise, você percebeu que ele tá com uma camisa de seda verde limão?
– hauhauhauhhahah, ninguém merece.

Bonner, que agora manifestava-se na TV como um amigo próximo, um quase irmão de seu telespectador, abaixa a câmera para mostrar que está descalço e com um shorts de futebol. Rindo alto, manda um abraço para seu amigão Danilo, coloca os pés nus na bancada do JN e cruza os braços, como se o seu trabalho estivesse cumprido.

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Esse aí não dá nem pra procurar no dicionário de sonhos.

Vamos falar de coisa boa

As pessoas que já trabalharam ou conviveram um tempo comigo sabem que costumo tomar mais água do que qualquer pessoa normal. Não que eu tome três ou quatro copos durante o dia. Talvez se você chutasse três ou quatro litros poderia chegar mais perto.

E, para tanto, eu tinha em casa uma jarra azul, sim amigos, o mais cobiçado e desnecessário artefato no merchandising do Mulheres da TV Gazeta, devidamente adquirido pela minha mãe nos idos de 2003. Uma garrafa cujo propósito era oferecer água magnetizada para a cura de diversos males e que, oito anos depois, claramente já havia perdido todos os seus super poderes.

Mas não é só isso.

A garrafa de três litros (!) havia se tornado uma companheira inseparável a qualquer lugar que eu fosse, como uma grande e gorda long neck itinerante. Algumas pessoas gostam de dormir ao lado de panos mal cheirosos, outras de seus aplicativos de iPhone, há ainda quem curta cabeças de reis destronados, outras dão exemplos demais e perdem o ponto. A jarra azul era meu tótem. Se ela estivesse ao lado da cama quando eu acordasse, ficaria tudo bem.

Essa semana, a garrafa se mandou, após um conselho deliberativo entre Denise e minha mãe, corroborando para a extinção do meu tótem. Admito, ele podia ser um tanto sujo, acumular restos de comida nas beiradas e feder um pouco depois de algumas semanas sem ser uma lavagem brutal com água sanitária. Ainda assim, vou sentir sua falta, até que alguma marca de água resolva lançar uma garrafa descartável assaz simpática e com uma boa alça para gente bruta como eu.

Pensando seriamente em comprar uma nova com o Alexandre Pimentel,
quase um homem Teleshop. Mas copo é para os fracos.

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What you do? Go!

O Aprendiz: Bicos

Me alistei num desses trabalhos de fim de semana. Desses que a gente tem vergonha de dizer por fazer parte de uma classe média que não consegue admitir que um marceneiro ganhe mais dinheiro que um analista de mídias sociais (nota mental: escrever sobre isso qualquer dia). Não, não é marcenaria. Agora, em alguns finais de semana, sou digitador de contratos nesses stands de venda de condomínios.

Não é um trabalho de todo mal, eles entendem que estão te roubando seus dias de descanso e até pagam relativamente bem. Não foi tempo perdido, somos tão jovens. Pra resumir a função: um casal feliz passa em frente ao stand de vendas e decide comprar um apartamento. Levam os documentos, preenchem formulários e aguardam enquanto eu encaixo todas as informações num modelo de contrato em duas vias com uma formatação horrível, cheio de redundâncias e subtítulos.

Posso dizer que dei um valor muito maior ao meu emprego atual depois do meu segundo dia de trabalho nesse famigerado bico. É necessário pra comprar uns presentes e pagar as contas. Quando eu tinha uns 19 anos descobri do pior jeito que vender não era meu forte e agora descobri que não tenho muito apreço por gente que vende, gente que precisa vender pra garantir comissão. Portanto se minha vida dependesse disso, eu pensaria duas vezes antes de aceitar. Nesse nível.

Eles têm coragem de me chamar de freelancer. O que não deixa de ser verdade e confere até um certo profissionalismo. MINTO. Confere o único profissionalismo do lugar. É uma espécie de remake de Loucademia de Polícia, mas neste caso o Eddie Murphy é uma gordinha simpática com síndrome de gatinha cantando Pôneis Malditos de.hora.em.hora. Aquela velha sensação de que todos os softwares são ilegais, a rede sem fio é roubada do vizinho e o dinheiro que te pagam é proveniente de uma vaquinha dos funcionários. Eu devia ter desconfiado quando eles exigiram que eu tivesse um veículo próprio, mas mudaram de assunto quando perguntei se eles pagavam combustível (o que, convenhamos, devia ser uma pergunta desnecessária).

Estou naquele impasse de deixar pra lá, afinal, todo mundo entende que você está sem grana pra comprar aquele presente de aniversário; ou então continuar, afinal, acontece apenas uma ou duas vezes por mês, a grana vale a pena e, com a trilha sonora certa, a ida e a volta podem ajudar muito. Vamos ver como me comporto quando vier uma nova escala, porque uma gordinha saliente (diria minha mãe) cantando uma música chata não é exatamente o tipo de coisa que me incentivaria a continuar com isso.

Se pá

Se pá eu não consiga encontrar um bom texto que comece com ‘se pá’. Se pá, nada do que eu realmente quis pra minha vida aconteceu, mas se pá o que veio em consequência disso tenha dado uma volta em torno do eixo e se mostrado tão bom ou até melhor. Se pá eu só não consiga enxergar isso de um jeito que me faça completo. Se pá cheguei naquele ponto crucial em que cada escolha que eu fizer vai parecer absolutamente desacertada. Se pá, acabei de descobrir que esse termo é flexível com os verbos. Se pá me sentir parte de uma multidão caminhando na baldeação da estação Santo Amaro um dia possa fazer um sentido maior pra mim. Se pá a gente nunca encontre sentido em nada e esse puzzle que a gente chama de vida seja baseado em ficar buscando sentido em tudo. Se pá eu só esteja escrevendo esse texto com base em uma gíria porque precisava de um gancho mais perto da vida real e mais distante daquele mundo de frases de efeito publicitário que ninguém lê com muita atenção. E se pá eu acredite que um texto de um parágrafo só seja o maior perjúrio que um redator pleno possa conceder à sua classe. Se pá eu posso não me importar muito com isso, se pá.

Um arquivo .exe do bem

Se eu tivesse um site de compras coletivas, ou qualquer um desses que tenha clientes, faria uma promoção em que a cada 10 mil acessos, para o exato 10.000º apareceria um banner gigante escrito PARABÉNS, VOCÊ É NOSSO 10.000º CLIENTE E ACABA DE GANHAR UM IPAD, CLIQUE AQUI”.

E então o malandro ia clicar e abrir automaticamente um arquivo ‘.exe’, mas não se engane. Esse arquivo iria instalar apenas um programa simples de cadastro no computador do cliente, sem malwares ou barras de navegação pro IE. Assim que ele completasse o cadastro (considerando que ele conseguisse resistir a todo esse terror psicológico até aqui), receberia uma mensagem em seu e-mail pessoal confirmando a entrega do prêmio em três dias úteis.

Internet é para os desbravadores.