Daí me contratam pra escrever o press release da carreira solo de um artista novo aí, de família influente, the whole package. Digo ‘me contratam’ para ocultar o fato de que aceitei fazer o trampo em troca de horas de gravação no estúdio do empresário dele. E o artista quer que eu escreva o release sem ouvir suas músicas. Imploro uma. O autista anexa um MP3, uma música dessas de praia, que é reggae sem ser, é pop sem ser, fala de onda, vento, mar, praia, mas opa! Um momento, ele não quer que você mencione a palavra ‘praia’ em lugar nenhum do seu texto, se vira nos 3000 (caracteres) e esquece review do NME, sua almejada carreira musical não tá das melhores, amigo, supere.
E volto pro trabalho no pós feriado, passo a madrugada vendo Breaking Bad, perco a hora e chego tarde, desmaio no metrô, fico com síndrome de perseguição no trem me perguntando se minha cara estaria tão ruim assim. E estava. Chego no trabalho, termino de subir exatamente 20.609 (vinte mil seiscentos e nove, isso) arquivos no FTP, tentando entender de que forma isso vai me ajudar minha carreira um dia. E então chamam toda a fileira para responder uma pesquisa de satisfação sobre a empresa, coisa simples, 60 questões de múltipla escolha sobre as condições de trabalho, sobre o que está certo e o que está errado, até a derradeira pergunta de mil reais: “Você se sente realizado com o seu cargo?”
Quase levantei dizendo “gente, chama o big shot lá, precisamos ter uma longa conversa”.