Gloria Kalil do gueto

É um impasse foda quando os únicos bares que você frequenta funcionam no meio do bairro mais assustador que você poderia indicar para os seus amigos (e esse é o seu bairro, a propósito). E a gente não cogitou a hipótese de recusar quando D. sugeriu ‘Vamos pro Maracá, no bar do Negão, ali pra cima, é tranquilo, sou de casa’.

Uma Jukebox tocava uma das últimas músicas novas do Dexter, uns quatro caras na porta que só te estranham nos cinco segundos antes de você passar por eles e lançar um natural “opá, beleza?”, que quebra qualquer gelo e pode ser considerado a maior vacina para não causar problemas em lugares que você não conhece. E esse sou eu dando dicas de etiqueta da malandragem, ok, já percebi.

Acontece que havia esse tiozinho com macacão de mecânico, a quem apelidamos de Walking Dead após uma amizade criada à base de conversas sem sentido como:

-Onde o senhor mora?
-Bebi não, bebo nada
-Não, perguntei onde o senhor mora
-Me deixa cantar uma música pra vocês, posso cantar?

Não sei outra forma de contar que eu empurrei ele com o pé nas costas, enquanto parado na porta do bar, tamanha afinidade que tínhamos após a segunda dose de conhaque com limão servida pelo Negão himself.

Sabendo dizer/fazer tudo nos momentos certos, você não precisa se preocupar em estragar festas ou criar um climão maneiro com qualquer grupo de traficantes/irmãos à paisana. Mas esse é apenas meu lado Glorinha Kalil de etiqueta para a quebrada falando novamente.

Tudo isso era pra dizer que o bar, apesar de infinitamente bom e impregnado de boas e escabrosas histórias, talvez não entrasse para review no nosso mais novo empreendimento:

http://somentebareslegais.com.br

Cês que se virem

Lembrei com saudades de uma época que não vivi em que prestava atenção em cada mínimo detalhe da vida. Desci do metrô a passos lentos para contemplar a Paulista e chegar até meu único lugar no mundo, a rua Augusta. Comprei água de três reais para poder usar o banheiro do restaurante de rico, mas essa parte era desnecessária no texto, desculpem.

Aconteceu muita coisa na noite de sexta. Dei uma moeda a um solitário tocador de sanfona que executava a música triste mais linda que já ouvi na vida. Conversei com um andarilho do Heliópolis a quem reservei outra moeda. Me tornei amigo de um carismático malabarista de rua que falava espanhol. E poderia dedicar todo esse texto a essa galera a quem esgotei meu bolso de moedas e ao BOOMSHAKALAKA de estar entre alguns dos poucos e bons amigos que conheci na vida.

Mas nunca é só isso. Os detalhes da vida começam a se auto arquivar para um outro momento quando a história do post começa a acontecer de verdade.

Descia o escadão da Frei Caneca/Nove de Julho lá pelas cinco horas da manhã (não recomendo etc). Um cara subia meio assustado, mas balançando a cabeça negativamente. O bom senso me faria olhar antes e hesitar. Uma noite de Brahmas na minha cabeça me fizeram seguir em frente, afinal, ‘a responsa de chegar garante o seu retornex’, lembrei de termos concordado com o Criolo em grande parte da noite.

Ao descer o primeiro lance que dá acesso ao restante da escada, percebo dois garotos de calças abaixadas praticando sexo ao ar livre. Exato. Numa normalidade como se estivessem trancados num quarto, longe dos julgamentos preconceituosos da sociedade. Não era um local ermo, não às cinco da manhã quando gente já passava indo trabalhar ou voltando do trabalho, era no canto do lance de escadas.

O garoto que comia o outro olhava pra trás com receio e continuava, como se não visse ninguém, mesmo sabendo que os passantes viam tudo, numa notável habilidade de I don’t give a fuck. Eu passei batido, óbvio. O que você tem a ver? Já vi acontecer com prostitutas, com pessoas comuns e se fosse um homem transando com uma foca adestrada eu passaria incólume da mesma forma.

Ouvi uns gritos de socorro quando cheguei ao final da escada e, graças a Deus, nenhuma notícia triste no jornal de hoje. Foi uma correria, um pega pra capar, uma treta feia provavelmente de cunho moralista dispersa em segundos, quando perdi de vista todos os envolvidos.

O moralista ideal escroto diria que o casal pediu pra apanhar, ou facilitou. Eu só diria que toda essa falta de bom senso numa sociedade cheia de moral e bons costumes como a nossa só garante o arrimo ao preconceito, uma militância ao contrário, um reforço ao pensamento “Tá vendo? Esses viados não respeitam ninguém. Só querem saber de sacanagem”, como lembra o idiota feliz. O que estou tentando dizer é que já deve ser difícil ser homossexual no Brasil por motivos óbvios e transar na rua não ajuda em nada.

Como lidar quando está tudo errado? Existe ponderação ou é um conceito absoluto? Quem está mais errado neste caso, o cara que se intromete, o cara que não tem bom senso, o ovo ou a galinha? Respostas que dariam eficientes teses de doutorado sobre sociologia, acredito.

Se você cavar bem fundo é até meio moralista pensar nisso, porque no fundo eu fecho com todo mundo pelado ganhando desconto. Mas aí vocês se virem pra julgar também.

Imperfeições

Olhava o ecrã do notebook como se procurasse espaços escuros para enxergar meus próprios olhos no reflexo, para ampliar o alcance e ir mais fundo, cavar a alma, organizar com a habilidade de um tetris aquele pequeno canto reservado às dificuldades que imponho à vida, das complicações às quais somos reféns. E na bola do olho tem uma verdade que se esconde e responde todas as coisas, mas não é tão fácil assim reconhecer-se através dos próprios olhos.

Tenho fases difíceis na vida e, como que de maneira autoexplicativa, esta não é uma delas. Um amigo me disse que é maturidade. É possível. Faz muito tempo que não estive tão disposto a ser exatamente o que sou, a dizer o que penso e às pessoas certas. Haja o que houver, a vida segue em frente. A sua vida segue em frente, ninguém vai tirar isso de você (mas evite aproximar um disco do Smiths de uma corda ou artefato afiado, pode ser um ultimato).

Estou relembrando como é dizer coisas sobre si mesmo sem citar fatos ou contar histórias menores para ilustrar. Às vezes eu esqueço desse mundo das ideias. Porque no mundo real, as pessoas conversam, se relacionam e mantém vivas as estruturas sociais e seus pequenos guetos de afinidade, mas no fundo, se você parar um minuto e se perguntar melhor, vai perceber que ninguém se conhece, ninguém sabe praticamente nada sobre o outro, sobre o próximo (pra citar uma palavra bíblica). Você conhece uma representação física, mas não sabe os maiores medos e os verdadeiros anseios de quem pode passar a vida inteira do seu lado.

Em resumo, as pessoas se adaptam a limites, barreiras de convivência e minúcias desnecessárias da vida alheia que fazem a história da civilização esse grande programa do Nelson Rubens aumentando, mas não inventando sobre a vida de grandes homens. Detalhes. No fundo, nós apenas ‘queremos perfeição e nos lambuzamos com as imperfeições dos outros’.

Existe espaço para a verdade no mundo solitário que Jürgen Schmieder criou quando tentou dizer apenas a verdade durante 40 dias e perdeu quase todas as relações pessoais. Exatamente o contexto daquele Renato era Chato. Não temos mais esse direito de violar os limites, de extrapolar as conversas abertas que precisam de um ponto final, se alimentam da neurose, do cochicho, das suposições e pré julgamentos. Ninguém mais tem direito a responder um ‘e aí, beleza?’ com um simples ‘não, briguei com a mulher, dormi no sofá e tô com uma dor de estômago absurda, fui no banheiro três vezes e nada, conhece algum remédio?’. Talvez ninguém jamais tenha tido esse direito.

O que pode significar levar todos os seus segredos para o caixão e viver uma vida de aparências bonita e tediosa. Mas esse sou só eu tentando me convencer de que nunca temos saída pra nada.

Ser lembrado

A cena a seguir é de Wilfred. Contém spoilers. Digo, contém praticamente um capítulo resumido do seriado (S01E10), portanto, se pretende assistir, não leia. Eu curto fazer isso com cenas que representam alguma coisa pra mim, portanto, me julguem.

No bairro tranquilo em que o seriado é ambientado, um ladrão resolve quebrar os vidros dos carros e roubar tudo de dentro dos veículos. Os vizinhos desconfiam de Ryan, cujo carro permanece intocado.  A pedido de Wilfred (o cachorro que fala, sério, assistam), no dia seguinte Ryan comparece na festa do bairro que já vinha sendo organizada, mas é hostilizado e volta antes de terminar. Ao chegar em casa, encontra o mendigo local revirando seu lixo:

MENDIGO: Isso é tão vergonhoso, pensei que ainda estaria na festa.
RYAN: Não era o meu lugar.
MENDIGO: Por que não estou surpreso? Típico comportamento de cara solitário. Comida congelada, vários lenços grudentos. E isso, só duas ligações mês passado. Isso é muito triste, Ryan.
RYAN: Você sabe meu nome?
MENDIGO: Eu sei o número do seu CPF. Você precisa mesmo de um triturador.
RYAN: Quer saber? Vá em frente. Roube minha identidade. Seja feliz sendo eu.
MENDIGO: Você parece comigo quando era mais novo.
RYAN: Que encorajador.
MENDIGO: Vim pra cá em 1977. Não falava a língua aquela época, então… Difícil fazer amigos, aí eu parei de tentar. A solidão me tomou. Depressão. Arruinei a minha vida. Quando eu morrer, será como se eu nunca tivesse existido. Serei esquecido. Peguei pesado, né? hahah
RYAN: Então esse é meu futuro.
MENDIGO: Não precisa ser. Ryan, você precisa se comunicar, criar uma conexão com seus amigos humanos. Você pode começar comigo agora, me deixando bater uma pra você por 20 dólares.
RYAN: Que?
MENDIGO: Preciso de heroína, cara.

Uma reviravolta depois, Ryan é inocentado, primeiro culpam um garotinho do bairro e depois o mendigo em questão, que é encontrado morto e com os itens roubados em seu carrinho.

RYAN: Wilfred, diga que não matou o mendigo.
WILFRED: Claro que não, Ryan. Só deixei 20 dólares pra ele. Mas o quadro de papelão que ele tinha era bem claro. O dinheiro era para comida, não para drogas. Além do mais, ele conseguiu o que queria.
RYAN: Ser lembrado como um morto viciado que roubou as coisas deles?
WILFRED: Exatamente. Ser lembrado.

Uma spin-off versão do diretor

Era uma noite de sábado e passava das onze e meia. Estávamos no quarto assistindo a segunda temporada de um seriado que gostamos. Como eu já tinha visto alguns dos capítulos, saí para comprar cigarros e deixei ela deitada vendo TV.

Quando peguei o carro para ir até a loja de conveniência fazia um friozinho bom, daqueles pra se manter debaixo do edredon com quem quer que seja que você ame. Peguei o maço de cigarros, o frentista disse que eles estavam com um problema para passar o cartão, mas que seria resolvido em 20 minutos no máximo, então fiquei fumando no canto do posto de gasolina.

Ao olhar pros lados sinto uma calmaria intensa, mesmo para uma noite de sábado. Nessa hora aparece um carro bem lá na avenida, cheio de gente, cabeças pra fora e som alto. Descem cinco pessoas. Cinco amigos muito próximos. Bêbados, exaltados, felizes, estavam vindo comprar cigarro e mais algumas coisas para levar na festa que já estava rolando na casa de um deles. Me chamaram mais de três vezes, mais de três vezes eu neguei, com aquele pequeno remorso que sempre existe quando isso acontece.

Eles partiram, eu entrei e paguei o cigarro. Entrei no carro pensando muito sobre o que aconteceria se eu estivesse naquele posto antes do natal de 2008 quando comecei a namorar com a Denise. Perguntei se meu coração estava mesmo naquele edredon, em casa. Pensei se tudo aquilo valia a pena, voltar pra casa, ficar com ela vendo TV até adormecer. E aquele pequeno remorso por não ter ido voltou mais forte quando estacionei o carro e entrei em casa.

Deixei o maço sobre a mesa, tirei o tênis e, ao abrir a porta do quarto, ela estava quietinha, iluminada apenas pela luz da TV e me olhou com os olhos mais vivos do mundo, abrindo um sorriso que iluminou o quarto inteiro e fez toda aquela dúvida desaparecer como que por encanto. Voltei pra sala e deixei as lágrimas escorrendo enquanto ela continuava vendo o seriado e depois voltei pro quarto pra contar o que tinha acontecido. No fim das contas eu e ela fizemos tudo valer a pena e eu pude acertar o lugar em que estava meu coração.

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Pra vocês que estão acompanhando esse middle season, não está tudo bem ainda, estamos reformulando os contratos da terceira temporada, sem previsão para retorno. =/

E o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria

Prefiro postar aqui, enquanto esse blog é um recanto relativamente escondido. Comecei com tantos lamentos no Facebook que comecei a ter pena de mim, o que é preocupante.

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É difícil aceitar uma vida que atualmente não é a sua. Beira o impossível. Mesmo sabendo que é isso que você um dia vai precisar pra viver e que enquanto você ama, vale a pena, como diz uma amiga. Minha vida de hoje eu não imaginava aos 20, como provavelmente não imagino como será ano que vem etc. Acho que mais triste de tudo isso é querer levar pra frente alguma coisa que faz tão mal pra nós dois.

Nada era tão difícil quando era só a gente.
Só tá me faltando essa coragem de mudar o status no Facebook.

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