Uma sensação estranha ser o cara velho. Em qualquer coisa, no trabalho, entre seus amigos. Os amigos da minha banda são quatro ou cinco anos mais novos que eu. Talvez eu tenha visto mais coisas do que eles, mas talvez eles tenham vivido muito mais do que eu, isso é relativo. Estranho mesmo é o gosto que as coisas adquirem com o tempo. Por ter visto tanta gente entrar e sair da sua vida, você toma suas relações pessoais cada vez com mais ardor, você preza mais por quem está ao seu lado.
E eles são desses moleques de uma quase geração anterior, que ficam perplexos sobre como você prefere passar a noite em casa vendo uns filmes com sua garota. E eu geralmente me queixava quando eles bebiam demais, ou começavam a extrapolar as coisas, foi assim em algumas festas, foi assim em alguns shows que tocamos juntos. Eu sempre fui contra isso de não ter nada a perder então posso fazer o que quiser. Sim, você acaba tendo muito o que perder com o passar do tempo.
E ontem eu estava nesse show que tocaríamos juntos, não fossem as brigas internas deles, não fosse a falta de uma boa conversa que não envolvesse orgulho próprio ou aquele “Oh you didn’t say that!”**, eu estava lá sem eles dessa vez.
Não tenho uma banda famosa, embora as pessoas que me conheçam saibam e me perguntem sobre. E eu estava lá, um tanto chateado por não tocar no festival que um amigo nosso organizou e esperando que a qualquer momento um Uno subisse a rua com aqueles três moleques dentro que abririam o vidro no meio de um som alto e um monte de fumaça saindo pelas frestas, me dizendo “já é a gente?”.
Eu estaria feliz por estar nervoso com eles.
Mas o tempo é implacável. Ele derruba frases prontas, desmonta ‘galerinhas’, mostra o que é de verdade e o que era claramente passageiro, mostra também os sinais que você não percebeu naquela época. Os sinais que diziam que tudo aquilo tinha prazo de vencimento. Mostra como as coisas mudam entre moleques. E eu, parado na esquina esperando aquele Uno chegar e assistindo uma banda tocar no nosso lugar, com amigos de dez anos atrás, mostrava a mim mesmo o que era de verdade e o que pode se perder com o tempo.
Que o tempo os traga sabedoria e paz, mas que eles nunca deixem de manter a alma inquieta. Eu amo esses moleques e detesto os ver separados ou brigando por motivos que em dois anos vão se perder na memória. Sei que muito provavelmente, por mais que eu queira, as coisas não se resolvam assim facilmente, a vida é muita treta, isso a gente aprende também. Só espero que um dia nos encontremos novamente num estúdio, rindo constrangidos e sem saber o que dizer de toda essa época nebulosa das nossas vidas.
Esse post é dedicado a esses três moleques.
*Desculpem, não encontrei um título melhor.
**Retirei essa frase do filme God Bless America (último que assisti com a Aline que tá com um blog manero e muito mais atualizado que o meu, a propósito), num trecho em que a personagem principal fala algo sobre a geração do “Oh you didn’t say that”, excelente filme sobre psicopatia e aversão social. Um Mickey e Mallory dos escrúpulos, assassinos pela natureza cruel da nossa sociedade. Muito legal de assistir.