Um homem, de pé, se prepara para desferir suas primeiras palavras em cima de um palco. Sério, porém despojado, ele tosse algumas vezes colocando a mão sobre a boca. Olha para os lados e dá o ok a alguém da equipe que não aparece para o público.
– Boa noite a todos, acho que vocês vão ter que prestar atenção em mim, eu sou o comediante aqui.
Silêncio na platéia. Um barulhinho de tosse e sacos de pipoca sendo manejados contemplam o ar.
– Não? Ok. Estou sendo pago e vocês compraram as entradas, vão ter de me aturar e eu vou ser pago de qualquer modo, então…
Mais silêncio. O homem bate no microfone para ter certeza de que está funcionando corretamente.
– Vocês estão me ouvindo aí, certo? Ou eu fiquei mudo e por um lapso de percepção só eu estou ouvindo minha voz neste momento, é isso? HAHAH, é? Só pode ser.
Nada na platéia.
– Bem, vamos lá. Outro dia encontrei um menininho de rua que queria conhecer melhor minha filha, eu disse “ei, cara, olha pra suas roupas, você não prefere conhecer melhor uma loja de departamentos?”
Sentir o silêncio frio de uma platéia doía, não estava na sua noite, claramente. De qualquer forma deixou-se levar e transcorreu seu texto ensaiado.
– Impressionante esse Brasil, não é? Tem uma bolsa pra cada necessidade do pobre. Cara vai preso, bolsa reclusão, cara não tem nada, bolsa família, cara é vagabundo, seguro desemprego. Daqui a pouco a dona Dilma vai começar a distribuir Bolsa filha pro moleque de rua poder conhecer melhor as menininhas de bem por aí.
O homem espera o momento exato em que esperaria caso as pessoas definitivamente começassem a rir. Elas não começam, ele segue em frente.
– Sabe, às vezes eu acho que o Datena tá certo, sabe, bandido tem que morrer. É sim, bandido tem que morrer. Se matassem todos os bandidos do Brasil sobraria eu e alguns de vocês aqui, não seria legal? Ninguém passando necessidade, todo mundo curtindo seu showzinho de comédia, mas aí teríamos que ir pra capital governar o brasil, não ia sobrar ninguém lá, não é mesmo?
A banda que toca nos intervalos – também em silêncio – se volta toda ao baterista quase que implorando silenciosamente pra que ele ajude. Com uma feição de estafa, ele toca nos tons e no prato, pra causar maior efeito à piada do homem no palco, que agora tira o microfone do pedestal afim de se sentir mais a vontade. Dá um gole curto no copo d’água e prossegue.
– Sabem – diz, olhando o copo – fico pensando nesse pessoal violento que arruma briga com gay. Eles não podem nem chamar o cara de viadinho, porque né? E se o cara for meio sado, gostar de apanhar, não dá pra julgar né?
Nada. Então ele apela ao pastelão imitando vozes esbaforidas e afetadas.
– Hellow, vocês estão aqui mesmo? Toc toc. Quem bate? É o segurança do comediante, ele está pedindo encarecidamente que vocês gargalhem. Uma vez só. Numa piada. Custa muito? E se de repente eu…
O homem finge tropeçar nos cabos e cai no chão, causando um susto na platéia mais pelo barulho que ecoou com o peso do corpo batendo sobre o palco de madeira. Um garoto, no meio do público solta um risinho.
– Ei, ei, você riu, quem foi? – apontando pessoas aleatórias – eu ouvi uma risada, quem foi?
Uma mulher atrás do garoto aponta.
– Ah sim, foi você né garoto, tá gostando do show? Como é seu nome?
– Renato.
– Finalmente alguém riu aqui, Renato, estava ficando apavorado, cara. Curtiu ver o comediante cair no chão, né? Fala aí, pô!
– Na verdade foi o SMS de um amigo meu dizendo que seu show era uma bosta.
Platéia gargalha e aplaude efusiva.
O homem reverencia, cínico.
Fecham-se as cortinas.
*
Acho que foi logo que parei de achar graça em “comédias de escárnio”, standup comedy, essas coisas. Tive a excelente (e humilde) ideia de editar vídeos de shows de comediantes retirando o áudio de todas as risadas da platéia, cenas de pessoas rindo etc. Deixaria apenas um cara, com um microfone, dizendo barbaridades sobre a sociedade. Tenho a hipótese de que sem as risadas da platéia, alguns shows são apenas discursos de ódio.
Mas esse sou apenas eu, às 04h09 da madrugada de quarta iniciando frases com conjunções adversativas.