não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

Vitae

Robson Assis
29 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

  • Escrevo o que você quiser e da forma que preferir
  • Pego pouco café durante o dia
  • Quase nunca paro o trabalho pra fumar
  • Costumo inventar trocadilhos diariamente mantendo o clima do setor
  • Acho sacanagem trazer biscoitinho da viagem de férias pra Cancun
  • Estalo os dedos apertando-os contra a palma da mão
  • Minha vontade de nunca ter existido diminuiu 3,4% nos últimos anos

Formação

  • Vesti um macacão do Santos quando bebê, mas me tornei São Paulino
  • Aprendi a ler vendo slogans de marcas famosas na rua
  • Meu avô me ensinou a jogar truco, eu devia ter cinco ou seis anos
  • Gostava muito do meu laboratório de química de brinquedo
  • Escrevi diários de viagem a partir dos 12 anos
  • Primeiro contato físico com uma garota aos 17 anos
  • Desaprendi a beber aos 22; Reaprendi aos 28
  • Toquei em, pelo menos, 10 bandas
  • Quis morrer aos 22 anos como um poeta do qual não me lembro mais

Experiência

  • Já falei idiotices na frente de pessoas e soube pedir desculpas
  • Tive os piores médicos que um ser humano é capaz de ter
  • Sei lidar bem com pessoas rindo da minha condição física
  • Fui auxiliar do meu pai quando pequeno (último salário: 10 reais/dia)
  • Já achei um cheque de 100 reais
  • Fui até o final do trem por ter dormido
  • Fiquei trancado pra fora de casa por três vezes

Pretensão salarial

  • Quero pouco dinheiro de modo geral, acho que vocês conseguem pagar, coisa simples, aluguel, dinheiro pras roupas, pra comida e mais uma grana pra ajudar meus pais. O de sempre. Me arrumem uns convênios com postos de gasolina, essas coisas ajudam.

Atividades Extracurriculares

  • Tive um time de basquete sensacional na escola
  • Joguei futebol contra um time chileno que catimbava sem razão
  • Quase fui expulso do shopping tentando encontrar uma entrada por trás do cinema
  • Estraguei a parede do quarto pintando com spray
  • Uma vez joguei um saco de açúcar na cara de um segurança de show

Conhecimentos e Softwares

  • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
  • Sei usar o photoshop a serviço do bem (montagens com fotos de amigos)

Algo único

Queria dizer a ela que essas crises acontecem toda hora na minha cabeça, que eu sei por onde ir, mas às vezes não consigo lidar com o que penso e com o que sou ao mesmo tempo. Que ela está fazendo tudo certo e que eu espero novamente acreditar no que sou. Outro dia li algo num tumblr que dizia “esteja rodeado por tudo o que te faça sorrir” e, cara, ela é o ponto principal de tudo isso de viver com alguém que saiba pelo que seu coração se move.

Eu precisava estar de pé quando outro mês chegasse, quando conseguisse superar toda aquela fase pesada e ela estava lá, com uma pasta cheia de trabalhos debaixo dos braços e eu, com meu embaraço, sem acreditar no que poderia estar acontecendo ali.

Descobri querer que as coisas sejam pra sempre porque preciso de paz, preciso levantar todos os dias de manhã e saber que ela está lá, que está comigo e que não estamos perdendo tempo com escolhas desacertadas. Eu passei um bom tempo pensando que o máximo que a felicidade poderia me proporcionar era estar presente na vida de alguém que fosse feliz e, dessa forma, mesmo se eu estivesse distante da minha própria vida, tudo ficaria bem. Ao lado dela nada tem a necessidade crua de ser feliz, por isso é tudo tão natural e bonito e confuso – 29 anos de insegurança não conseguem ser derrubados da noite para o dia.

Estou cheio de constatações. De terríveis constatações sobre mim. De traumas e lições de vida que não me causaram nada além de dor e afastamento. Queria dizer a ela que o silêncio às vezes é por isso. É como se você estivesse no meio de um sonho e os personagens começassem a te avisar, mas você está vivendo grandes dias e não pode estragar tudo só porque tem um cara criado pelo seu subconsciente dizendo que tudo não passa de imaginação.

Sigo esperando que ela continue a enxergar em mim esse algo único que eu enxergo nela.

É impossível não amar alguém que lhe cause ataques de riso com coisas bobas. A despeito de todo o desamparo em que me encontro emocionalmente, Aline está fazendo o nerd do colégio, da adolescência e da faculdade se sentir o maior brasileiro de todos os tempos™.

Broken

Você realmente sente algo quebrar. Algo que não é de verdade, mas faz doer. Faz você ficar pensando a todo instante se está mesmo tudo bem, se tudo que você tem na vida não vai se transformar em água e escapar pelos seus dedos. Todo mundo tem uma música pra quando as coisas dão errado (ninguém tem). Talvez por isso eu tenha essa lista de execução tão meticulosamente elaborada (duas músicas até agora). É estar na pele daquele personagem que esperava que nada em sua vida fosse dar muito certo e, de repente, quando começa a querer reverter sua situação, tudo desaba à sua frente, como se estivesse esperando um sinal. Todo esse tempo livre me trouxe a sensação de que os afazeres da vida adulta não apenas te limitam, mas te privam de pensar sobre a vida, pra onde tudo está indo e, droga, como essas pessoas do sacolão trabalham tão sorridentes? Mas ainda assim te livram de uma solidão existencial destinada apenas aqueles que estão escrevendo posts depressivos às cinco da manhã e aceitam falhar miseravelmente ao tentar dormir nas horas certas.

A velha sensação de se sentir alheio a tudo muito provavelmente nunca vai passar.

“A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados”

–Vinicius de Moraes, 1933

O arrastão psicológico

Parecia apenas outra virada cultural. Dessa vez, diferente dos anos anteriores fui especialmente assistir apenas duas bandas e não atravessar toda a terra média. Não fui ver o Racionais, nem o Blackstar, nem o George Clinton. Embora quisesse, não estava nos planos enfrentar aquilo tudo sem o Gandalf.

O que vou contar se passou após voltarmos de lá. E não tem (quase) nada a ver com assaltos ou arrastões..

Depois de sair do centro, paramos naquela rede de comida árabe famosa por criar aperitivos pequenos como mini hot-dogs, mini bolinhos de bacalhau e mini churros. Bem, acho que ela é mais famosa pela esfirra de carne mesmo. Estávamos lá de madrugada, eu, Aline e K.

Todo e qualquer ambiente que funcione até o último cliente jamais imaginou que existem grandes possibilidades do último cliente ser um babaca em potencial. Não íamos ficar ali muito tempo, mas percebemos uma mesa com algumas mulheres e dois caras que falavam muito alto e chamavam os atendentes de “bicha” e “chupetinha”, em doses alternadas, sempre que pediam algo. Faziam questão de falar também alto no celular “tem mulher? só vamos se tiver mulher!”, bradava o George Clooney do Capão Redondo às três da madrugada de sábado.

Eis que entra um casal, tranquilo, naquela paz de quem acaba de sair do motel pegou um cineminha e parou pra comer algo. Eles ficam numa mesa ao fundo, de canto, quase que escondidos. Falavam baixo e pareciam estar juntos pela primeira vez. Acontece que o pessoal que gritava perjúrios da mesa infelizmente conhecia o moço. E, visivelmente bêbados, começaram a chamá-lo – palpites? – de “bicha” e “chupetinha”, também de maneira alternada.

As cenas que se seguiram foram constrangedoras para todos os presentes, bem, exceto pelos dois bêbados que pareciam não se importar ao dizer coisas como “porra, chupeta, já tá com outra? ontem era a morena, hoje é a loira, assim não dá” e chamar a atenção do casal com um bullyng ainda mais agressivo em frases como “essa daí é aquela que te ajudava com as entregas de pizza?’ e “porra, bicha, você tava com uma hoje lá na rua eu fiquei sabendo hein”.

Paramos a conversa e espiamos o casal que, desconcertado, agora sentava de costas para os agitadores. Claramente perturbados, não pediam nada. Aline tomava seu sorvete e nós três na mesa, que antes vínhamos tratando de assuntos ótimos desde a saída do centro, paramos de conversar e procurávamos nos esconder no celular, ou na taça de sorvete.

Já estávamos consternados, sem ter o que dizer a nós mesmos e esperando apenas o momento de levantar e se retirar de todo aquele clima de recreio de escola. Pouco antes de sairmos os caras superlegais da mesa pediram para entregar um pudim na mesa do chupet… do moço, que recusou, o que gerou ainda mais impropérios e um “ô chupeta, vê mais duas caipirinhas de vodka pra gente aqui?”, dessa vez se referindo ao garçom que, anotando o pedido, sorria como se estivesse entre grandes amigos.

Foi dessa forma que sofremos um arrastão psicológico depois da Virada Cultural.

***

Esta rede de quase comida árabe já me esculachou de todas as formas possíveis faltando apenas que um garçom mandasse minha mãe tomar no cu tratou super bem, sempre atenciosos, lisonjeiros e jamais me pressionaram a pegar uma sobremesa. Ao receber a conta, percebemos que constavam apenas duas batatas fritas e um valor abaixo de dez reais. Nós que somos vidas loka da pior espécie isso mesmo, não estamos nem aí ótimas pessoas resolvemos que era melhor avisar aqueles cavalheiros que nossa conta havia sido hackeada por um acaso e que pagaríamos tudo que fosse nosso dever como cidadãos de bem.

Só que não.

Ainda deu pra zerar a falta de compromisso cívico ao ajudar uma tiazinha que pedia dinheiro no estacionamento.

***

Apenas para constar: passamos duas ou três horas da noite de sábado na virada cultural, no largo do Paissandu, onde estava montado o Palco Test, com bandas de metal, onde veríamos alguns amigos tocar. Presenciamos (e por muito pouco não ficamos no meio de) diversos arrastões pesados, desses de espancamento que estão falando por aí. Vi um cara ser agredido numa crueldade que espantar e as gangues correrem livremente pelas pessoas, escolhendo suas vítimas, procurando carteiras fáceis e isso tudo que estão falando. E tenho lido relatos de amigos e conhecidos que foram violentados, espancados e roubados por essas gangues de moleques e que sofreram também pelo mal atendimento das enfermarias e no atendimento policial.

Se você olhar bem de perto é toda uma estrutura feita pra dar bosta.

Sobreviver

Eu olho pros lados e tem um monte de livros na estante, um monte de páginas que nunca tive a coragem de abrir e desistir no caminho, uma caixa de discos velhos, meus CDs e a certeza de que me daria bem montando um consultório médico pela quantidade inacreditável de revistas. Um monte de coisas com um dono invisível, como naquela tirinha em que o cara do futuro volta numa viagem do tempo e se encontra com oito anos de idade, pega pelo braço e joga o garotinho que era dentro de uma máquina de fazer linguiça porque “não vale a pena de qualquer forma”. Gostaria de voltar do futuro e dizer “mano, pára de ser otário”. Sério, gostaria muito de pelo menos uma vez por semana voltar ao presente e dizer a mim mesmo o que fazer. Porque existem respostas indecifráveis, pensamentos que não quero ter e toda essa confusão que caminha dentro do meu cérebro como um monte de urânio enriquecido dentro de uma coqueteleira que ao ser chacoalhada de verdade promete explodir. Explodir feio. Se é que urânio pode ser mesmo enriquecido dentro de uma coqueteleira. Eu tenho andado com a cabeça fria. Mesmo esses tempos atrás, em que estava na época que chamam de inferno astral, o mês exato que antecede seu aniversário, ou coisa que o valha. Pelo que estou entendendo de astrologia (absolutamente nada, veja), isso consiste em te arrumar problemas imensos e trágicos, mas que de uma forma ou de outra você consegue resolver. E então, como presente de aniversário, te livram de todas essas pequenas misérias solucionáveis para te jogar novamente no mundo real repleto de pequenas misérias não solucionáveis que vão perturbar a sua cabeça como duas crianças mimadas brigando pelo último boneco do Ben10 num drive-thru qualquer. E enquanto isso eu tenho os livros e os discos e a mobília como abrigo quando não tenho com quem conversar. No final de junho preciso deixar esse apartamento, caso nada dê muito certo na vida. Não tem dado. Eu sou um dono invisível de histórias e músicas que não tem pra onde ir. E eu não confio mais tanto assim. O azar existe pra me dizer que as coisas podem não se ajeitar e que você vai ficar na merda por um tempo, mas hora ou outra a coisa toda vai melhorar e você poderá novamente ter dinheiro pra comprar seus cigarros e beber para esquecer a semana que terá sido, por sinal, uma merda. Sobrevivência eu chamo. Sobrevivência, eu acho.

Toda vez que chego em casa o wi-fi da vizinha tá na minha… sala!

Passei o último ano inteiro usando a internet da vizinha amiga que até hoje não soube como colocar uma senha, ou esteja numa solidariedade tamanha conosco que não tivemos a boa vontade de procurar instalar a parada aqui em casa, mas como vocês devem se lembrar (claro que não se lembram, mas é uma ótima frase), ela desliga o roteador em intervalos de tempo que ela determina.

(Observação a tempo: eu não sei de que vizinho é a internet sem fio da qual estou tratando aqui, mas o nome da rede é “pucca” o que fez com que eu estabelecesse que é uma mulher, ou uma garota, ou uma senhora. Claro que pode ser de um cara mais sensível que curte o desenho etc, ou de um senhor pervertido e doente, bem, preferi optar pela hipótese mais racional)

(Outra observação a tempo para um futuro terapeuta que talvez venha a visitar este blog: Por que tento explicar tanto as coisas?)

Pois então uma nova rotina tornou-se necessária por conta dessa internet usada ao acaso. Toda vez que está disponível aqui eu tento (a) acessar tudo o que posso e isso conta como facebook, emails, linkedin (ainda sem trampo, me ajudem) e atualizar isso aqui (b) zerar Google Reader* que mudou pro Old Reader e agora não diz mais o seco e grosseiro “+45000 items” em inglês e sim algo como “faz tempo que você não acessa aqui, deixamos apenas esses 11.000 itens fresquinhos” (c) ler blogs dos amigos e saber assim da sobrinha do Leo e da falta de tempo de todo mundo pra atualizar essas coisas com mais de 140 toques.

Portanto, sim, o wi-fi alheio mudou minha maneira de usar a internet. Inclusive os amigos que frequentam minha casa conhecem a rede por nome e não raro chegam perguntando se a pucca está, antes de perguntarem se estou bem, como vai a casa etc. Seus espertofones estão devidamente configurados para acessar a rede sempre que ela estiver disponível. Meu notebook está configurado da mesma forma, como se a rede fosse, ora, por que não, minha!

Acho que isso explica um pouco toda minha quase ausência nas redes sociais, neste blog e nas coisas da rede no último ano, afinal só uso quando sei que não estou atrapalhando (não vou baixar torrent em horário nobre, por exemplo). Na minha última hipótese, imaginei que a pessoa que deixa esse wi-fi aberto sabe das consequências e, gente boa, opta por deixar assim mesmo.

Portanto esta é uma singela homenagem. De todos os utensílios domésticos que ganhei no open house do ano passado para poder me adaptar bem ao fato de morar sozinho (agora realmente sozinho, falei que meu irmão mudou? enfim, numa próxima ocasião) a internet da vizinha foi definitivamente a melhor de todas as doações. E ela nem apareceu na festa que quase me ocasionou uma multa na primeira semana de condomínio.

Obrigado, ma’am.

*O Google Reader vai acabar dia 1 de julho, mudem seus feeds pro The Old Reader que parece mais compromissado com a causa (ninguém deve usar essa informação, mas vale a pena deixá-la registrada aqui)

Tipo Comédia

Um homem, de pé, se prepara para desferir suas primeiras palavras em cima de um palco. Sério, porém despojado, ele tosse algumas vezes colocando a mão sobre a boca. Olha para os lados e dá o ok a alguém da equipe que não aparece para o público.

– Boa noite a todos, acho que vocês vão ter que prestar atenção em mim, eu sou o comediante aqui.

Silêncio na platéia. Um barulhinho de tosse e sacos de pipoca sendo manejados contemplam o ar.

– Não? Ok. Estou sendo pago e vocês compraram as entradas, vão ter de me aturar e eu vou ser pago de qualquer modo, então…

Mais silêncio. O homem bate no microfone para ter certeza de que está funcionando corretamente.

– Vocês estão me ouvindo aí, certo? Ou eu fiquei mudo e por um lapso de percepção só eu estou ouvindo minha voz neste momento, é isso? HAHAH, é? Só pode ser.

Nada na platéia.

– Bem, vamos lá. Outro dia encontrei um menininho de rua que queria conhecer melhor minha filha, eu disse “ei, cara, olha pra suas roupas, você não prefere conhecer melhor uma loja de departamentos?”

Sentir o silêncio frio de uma platéia doía, não estava na sua noite, claramente. De qualquer forma deixou-se levar e transcorreu seu texto ensaiado.

– Impressionante esse Brasil, não é? Tem uma bolsa pra cada necessidade do pobre. Cara vai preso, bolsa reclusão, cara não tem nada, bolsa família, cara é vagabundo, seguro desemprego. Daqui a pouco a dona Dilma vai começar a distribuir Bolsa filha pro moleque de rua poder conhecer melhor as menininhas de bem por aí.

O homem espera o momento exato em que esperaria caso as pessoas definitivamente começassem a rir. Elas não começam, ele segue em frente.

– Sabe, às vezes eu acho que o Datena tá certo, sabe, bandido tem que morrer. É sim, bandido tem que morrer. Se matassem todos os bandidos do Brasil sobraria eu e alguns de vocês aqui, não seria legal? Ninguém passando necessidade, todo mundo curtindo seu showzinho de comédia, mas aí teríamos que ir pra capital governar o brasil, não ia sobrar ninguém lá, não é mesmo?

A banda que toca nos intervalos – também em silêncio – se volta toda ao baterista quase que implorando silenciosamente pra que ele ajude. Com uma feição de estafa, ele toca nos tons e no prato, pra causar maior efeito à piada do homem no palco, que agora tira o microfone do pedestal afim de se sentir mais a vontade. Dá um gole curto no copo d’água e prossegue.

– Sabem – diz, olhando o copo – fico pensando nesse pessoal violento que arruma briga com gay. Eles não podem nem chamar o cara de viadinho, porque né? E se o cara for meio sado, gostar de apanhar, não dá pra julgar né?

Nada. Então ele apela ao pastelão imitando vozes esbaforidas e afetadas.

– Hellow, vocês estão aqui mesmo? Toc toc. Quem bate? É o segurança do comediante, ele está pedindo encarecidamente que vocês gargalhem. Uma vez só. Numa piada. Custa muito? E se de repente eu…

O homem finge tropeçar nos cabos e cai no chão, causando um susto na platéia mais pelo barulho que ecoou com o peso do corpo batendo sobre o palco de madeira. Um garoto, no meio do público solta um risinho.

– Ei, ei, você riu, quem foi? – apontando pessoas aleatórias – eu ouvi uma risada, quem foi?

Uma mulher atrás do garoto aponta.

– Ah sim, foi você né garoto, tá gostando do show? Como é seu nome?
– Renato.
– Finalmente alguém riu aqui, Renato, estava ficando apavorado, cara. Curtiu ver o comediante cair no chão, né? Fala aí, pô!
– Na verdade foi o SMS de um amigo meu dizendo que seu show era uma bosta.

Platéia gargalha e aplaude efusiva.
O homem reverencia, cínico.
Fecham-se as cortinas.

*

Acho que foi logo que parei de achar graça em “comédias de escárnio”, standup comedy, essas coisas. Tive a  excelente (e humilde) ideia de editar vídeos de shows de comediantes retirando o áudio de todas as risadas da platéia, cenas de pessoas rindo etc. Deixaria apenas um cara, com um microfone, dizendo barbaridades sobre a sociedade. Tenho a hipótese de que sem as risadas da platéia, alguns shows são apenas discursos de ódio.

Mas esse sou apenas eu, às 04h09 da madrugada de quarta iniciando frases com conjunções adversativas.

Fauna

Um dos prazeres de morar sozinho, definitivamente é conhecer muito mais sobre a fauna deste nosso Brasil. E não que eu esteja morando numa cabana na Amazônia, veja bem, estamos falando das peculiaridades que nascem junto a comidas estragadas, panelas esquecidas no fogão e a certeza de que aquele pote de maionese discutindo materialismo histórico com o tupperware de carnes deveria ter saído dali meses atrás, afinal, eles nunca vão chegar a um acordo.

Aqueles animaizinhos estranhos que deixam o arroz esverdeado são horríveis, faz você se sentir em A Colheita Maldita, aquele filme que, curiosamente, me fez ver bichos inexistentes na maçã quando pequeno. Claro que são bem mais comportados e menos aterrorizantes que o bolor que nasce no macarrão quando você deixa a panela sobre o fogão fechada durante cinco dias. Ao abrir aquilo, veja, não vai ser algo bonito, ou apenas uma coisinha verde, mas sim um ecossistema com arvorezinhas, bolhas e pequenos pântanos, isso tudo sobre a crosta do que passou de macarrão a litosfera. É basicamente uma maquete de Pandora, inclusive com pequenos seres azuis.

Passemos às larvas (está ótimo este assunto). O brigadeiro de panela parece atraente, gostoso e perfeito pra ver uns filmes domingo a noite, não? Pois vamos quebrar aqui toda essa beleza. Sim, nascem as larvas mais violentas dentro desse poço de delícias. Uma pena que não cresçam o suficiente para usar de isca numa pescaria, por exemplo.

Já o bicho que nasce no óleo usado realmente é uma forma de vida que a ciência está nos escondendo. Parece um daqueles brincos enrolados em forma de concha ou qualquer coisa assim. Eles boiam e ficam rodeando o pote, não deixei crescer o suficiente, mas só pelo tamanho que ele conquistou, posso dizer que dá uma boa pescaria em alto mar (calcule).

Parece tudo muito nojento, eu sei, mas é a vida. Sim, a vida, nascendo em cada pedaço esquecido do laboratório de criação que você chama de cozinha.

De qualquer forma este post surgiu por ter encontrado hoje mesmo um bicho numa batata, mas era um branco, tão delicado, fofo e cheio de patas que estou pensando em colocar um cercadinho e deixá-lo brincar pelo apartamento por um tempo. Quem sabe chamá-lo de Floco de Neve. Esse tem carisma, merece atenção, um lar e talvez uma ou duas batatas podres pra se alimentar e poder crescer como os outros bichos brancos delicados fofos e cheios de pata merecem.

Tanta coisa

A sociedade da informação desnivelada, da informação nenhuma, do facebook pra saber das notícias, das novas piadas, de qual time está sendo aloprado por qual torcida rival que vai torcer contra outro time qualquer numa outra semana qualquer e estamos aqui, eu a vitrola nova, que não desiste de mim, com todos esses discos de um real e toda essa compaixão por ouvir de novo a Elis Regina cantando as músicas do Belchior. E o que todo mundo lembra é que ele deve algo no Uruguai, que ele se afastou do mundo, das celebridades construídas em cadernos de jornal e fotos de agência de notícia. Belchior entendeu o mundo, um comediante com frases de efeito esquecidas.

“tome um refrigerante, coma uma cachorro quente,
sim, já é outra viagem e esse meu coração selvagem
tem essa pressa de viver”
http://www.youtube.com/watch?v=OKTRc7x-zCM

Esqueci como é contar a vida sem o drama. Sem dizer entre palavras que você tropeçou forte e que as chances de encontrar o caminho por onde seguia ficam cada vez mais distantes. Esqueci também como é contar isso tudo sem soar tão depressivo e doentio, sabe. Porque, no fundo, é mais motivador do que se pensa. Recomeçar, é isso que significa. E eu pareço escolher minuciosamente a forma de transformar um pensamento motivacional como “agora vou recomeçar a vida” a soar como “tropecei e não sei onde estou por enquanto, mas espero voltar ao meu caminho em breve”. É um superpoder, eu acho.

“And I wish it could always be like
This is something I’ve been missing
It’s not too late to change what you’ve become”
http://www.youtube.com/watch?v=DrZ8tpu_VCQ

Tanta coisa.