das padocas

Daí eu tava longe de casa, numa padoca (vale atentar que o termo “padoca” refere-se mais a um estado de espírito e pode ser uma lanchonete ou bar, desde que tenha um balcão e que sirva pão na chapa) com uns módicos seis reais em notas de dois, esperando que o pão na chapa e um café não saísse mais caro que isso. No fim das contas, o café custava bem barato.

Na TV do lugar, Ana Maria Braga falava sobre tipos de café, com um monte de potinhos cheios de grãos sobre a mesa e uma especialista (sommelier de café, tendência) falando sobre cada particularidade, sobre grãos exóticos, essas porcarias que a gente que toma café todo dia não curte nem ouvir falar.

Eu ali comendo meu pãozinho esquentado com um café quente o suficiente pra você não se ligar muito no gosto, embebido pelo espírito imortal da padoca, enquanto o provável dono assistia decidido a TV, ao mesmo tempo em que contava moedas e notas do caixa. E então Ana Maria Braga mostra um café de uma parte inusitada do mundo, um dos mais caros do planeta, ou qualquer coisa parecida. E então, o dono vira pro cara da chapa:

– Ô Amaral, segunda-feira o pingado vai pra 230 real, hein!

Me sobram motivos pra amar uma boa padoca.

Esquete #001 “Não saia daí”

Menina entre 18 e 19 anos, simples, de vestido, entra numa loja de foto digital e caminha até o balcão:

Menina (sorrindo simpaticamente): Oi, eu tenho uma revelação.

(neste momento ela entrega um papel pequeno, que dá a entender ser uma espécie de comprovante de pagamento e retirada)

O atendente neste momento está com a roupa da empresa e pode ser um cara com os trejeitos e semelhanças do João Kleber, ou o próprio.

Atendente arregala os olhos, segura o papel e faz cara de quem não acredita

Atendente: Você… Espera aí, você tem uma revelação, é isso mesmo?

Menina: Sim, taí no papel, tinha que vir hoje e tal.

Atendente (apontando para um lado qualquer do cenário): Olha Brasil, o que essa menina veio fazer aqui hoje não é brincadeira, viu? Não é mesmo. Como é que é o seu nome, meu amor?

Menina faz cara de não entender nada e olha confusa pra parede onde aponta o atendente, estático.

Menina: É Rosana, mas o que que isso tem a…

Atendente interrompe: Menina Rosana, Brasil. A menina Rosana veio até o nosso programa com uma revelação a fazer, veja (olha pro papel)… ai ai ai, não é pouca coisa não hein, pelo jeito ela vai chocar muita gente aí de casa.

Menina: Moço, o que raios você tá dizendo?

Atendente: Eu não to dizendo nada, viu, hoje é você que vai dizer tudo, porque essa revelação aí vai, olha, Brasil… A Rosana tem aqui uma revelação que vai chocar muita gente, se tiver criança na sala é melhor levar pra brincar porque olha, o que tem aqui não é brincadeira não, viu.

Menina: Ai, moço, para você tá me assustando, ficou tão ruim assim?

Atendente pede um instante com o dedo em riste e levantando as sombrancelhas e vai até a faxineira que varre o chão sem notar a presença daquela conversa toda.

Atendente: Oi, como é o seu nome?

Faxineira assusta e para um instante. Olha com desdém pro cara e pra menina.

Faxineira: Marcelia.

Atendente: Marcelia, me diz, o que você acha disso daqui?

(atendente abre o pequeno papel e mostra a faxineira)

Faxineira olha a menina com reprovação

Faxineira: Isso aí é dela?

Atendente: Sim, essa revelação é da Rosana. O que você achou?

Faxineira: Olha, não dá pra saber direito como vai ficar né? tem que entregar.

Atendente: Realmente, Dona Marcelia tem toda razão, não é todo dia, Brasil é por isso que o que a gente tem aqui hoje não é brincadeira, a Rosana tem que entregar tudo aqui hoje, mas vem cá, como é que tá o ibope aí meu diretor?

Atendente para por alguns segundos apertando o ouvido como se tivesse com um ponto eletrônico.

Menina balança a cabeça negativamente em reprovação.

Menina: Moço, o que tá acontecendo?

Atendente: tá, ok, só um momentinho Rosana. Ah ok, temos a confirmação parece que a história da Rosana já colocou a gente em primeiro lugar do ibope

Atendente aperta o play num pequeno rádio que toca uma marchinha de carnaval e joga confetes pro alto, dançando enfaticamente, comemorando.

Menina: moço, deixa, depois eu volto e…

Atendente: Sim, muito bem lembrado Rosana, segura aí a sua revelação que agora a Lucélia tem uma novidade pra gente, são produtos da Jequiti, certo Lucélia?

Atendente aponta e a câmera vai junto até uma moça sentada num canto da loja folheando uma revista da Jequiti.

Lucélia: Ai, claro João, essa revelação pelo jeito vai dar o que falar hein, mas veja bem, com os nossos produtos da Jequiti você vai ter a pele mais bonita e os melhores cosméticos do mundo com um preço IN-COM-PA-RÁ-VEL! Quem compra sabe. Jequiti, a sua melhor escolha! É com você João!

Nesse instante a menina está impaciente e com a cara emburrada encostada no balcão.

Menina: Você vai me entregar essa merda ou não?

Atendente: Claro que vou, eu não gosto de enrolação não, mas infelizmente meu diretor tá dizendo aqui que temos que chamar os comerciais.

Atendente começa a caminha lenta e dramaticamente em direção a parede.

tendente: Então, veja bem, você telespectador: no próximo bloco…

Cena da menina saindo da loja batendo a porta

Corta.
Créditos.

Cena dos créditos: Menina folheando um pacote de fotos reveladas ao lado do Atendente.

Menina (contando rindo, embora constrangida): Olha João, essa aqui sou eu com sete anos depois de dois anos morando na rua, essa aqui sou eu fumada de crack aos 9, ah essa aqui é boa, eu aos 11 depois de uma briga da escola, esse negocinho é um pedaço da Ritinha, foi triste. Olha, que linda essa! Ai, nem sabia que tava aqui, foi depois que mandei matar meus pais, numa viagem com o Tomás, foi tão lindo, João. E tem essa também que…

Atendente levanta cautelosamente e caminha para fora da cena.

(este post corresponde ao ‘Day 23 – Escreva algo engraçado’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

O velho BUK

Nem sei por onde começar, acho que posso dizer que o fato de nunca ter tido um cachorro me fez uma pessoa meio apática aos animais, de modo geral. E posso dizer o quanto a Aline mudou minha concepção nesse sentido, tendo em vista que o Augusto (gato dela) tem tanto apreço por mim que me fez considerar a hipótese de ter um animal para companhia em casa.

Daí veio esse cachorrinho um tanto velho que mora na rua dela, que é alimentado por vizinhos, vive brincando com todos e não precisava ter muito carinho por mim, uma vez que só o via de passagem, até que, numa passagem, ele entrou no banco do passageiro e sentou, confortável da situação. Não o trouxe pra casa nesse dia, ainda tinha algumas coisas a aprender, pelo visto.

E numa das noites mais frias do ano, Aline o viu dormindo na rua e não aguentei, eu tinha que tirá-lo de lá, mas não sem antes procurar um lugar pra ele ficar em casa, o que me fez correr a um supermercado e comprar um pequeno futón, um pote de comida e alguma ração. Isso na madrugada, sim. Cheguei lá e ele não estava, fiquei na rua uma meia hora esperando que ele aparecesse e fui embora, um tanto desolado.

No dia seguinte, voltei lá e imagino que alguém o tenha colocado pra dentro de casa. Dei algumas voltas no bairro em sua busca, mas depois de virar e revirar o Jd. Mitsutani fui embora, antes de virar a lenda urbana do cara do carro preto que passa as madrugadas a procura de um cachorro que apelidou de BUK, antes mesmo de levá-lo pra casa.

Veja bem, não existe na vida nada que aconteça sem razão e, portanto, acredito que essa seja uma das pequenas tramóias do destino e de Deus que, em sua infinita sabedoria enquanto fustiga a barba branca, quis me dizer para esperar um momento melhor. A esperança é a de que o velho BUK esteja nesse momento em um lugar mais seguro e quente que a rua. E que eu, um dia, aprenda o suficiente para trazê-lo pra casa.
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este post corresponde ao ‘Day 18 – escreva sobre animais’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

Terças-feiras

Daí que saímos de casa pra ver o Black Alien, na Clash. Saímos de casa porque estávamos empolgados com a apresentação do cara que tem uma personalidade esquisitíssima (não digo isso de maneira pejorativa) e excentricidades tão ótimas quanto suas músicas.

Mas não, não fomos lá pra ver as excentricidades dele.

Chegamos por volta das 0h30 da madrugada de terça-feira (mas já é na quarta, dsclp xerifes), numa balada de terça-feira cheia de pessoas que curtem baladas de terça-feira e que, obviamente criticam gente que frequenta baladas aos finais de semana, mas são ao mesmo tempo julgadas pelas pessoas que fazem baladas de segunda-feira, muito melhores, na opinião destas últimas.

Obviamente também, não é preciso frequentar essas porcarias para saber que estar dentro de uma balada numa terça-feira faz você se sentir dentro de uma revista Capricho.

Acontece que, tomados pelo sono, indisposição e por rir da Aline gritando do carro chamando todo mundo de boy (<3), decidimos que o preço a se pagar pelo show era muito alto. E não pelo dinheiro, porque o valor da entrada até me parecia justo (garotas entravam de graça, a propósito).

Foi assim que fomos parar no Prime Dog, o maior Gygabite do centro e esvaziamos a sensação de um monte de gente semirrica se apropriando das nossas pequenas coisas.

Lá chegamos a conclusões díspares sobre como o Maicknuclear é o Carlos Adão de uma geração e eu descobri que a bomba do Mate é feita de açaí com pó de guaraná e o açaí que consumimos aqui tem um monte de beterraba misturada, segundo L.

Às duas horas da manhã estava em casa com Aline, sem fila, sem empurra-empurra, sem olhar torto pros moleques fazendo bosta. E ainda com um tempo pra conversar e nos despedir vitoriosos por transformar um erro de noção (imaginar que seria tranquilo ver o Black Alien numa terça-feira gelada) em muitos acertos (um tempo bom e irrecuperável com a sua garota etc).

Dois frascos

Naquele dia, João chegou atrasado por havia esquecido os comprimidos. Suava muito durante a noite, acordava espantando, como um sobrevivente de uma guerra que atormentava sua mente durante o sono. Tomava remédios pra dormir e pra se manter vivo num lugar praticável. Dois frascos. Limpos, grandes, sempre lotados de pequenas pílulas. Sonhava com o dia em que deixaria tudo aquilo de lado, ou que deixaria de mentir a si mesmo e finalmente encarar que sua vida regrada em pilhas de receitas médicas também era uma forma de fugir da realidade.

Saía cedo e, geralmente, muito atrasado para seu trabalho numa loja de calçados do centro. Contava as horas, era tomado uma inércia absoluta diversas vezes ao longo do dia – era quando alguém o acordava com uma palavra alta, o chamando pelo nome. Ele estava dormindo acordado, estava em outro lugar, ainda que parecesse apenas estar encarando um cesto de lixo, ninguém jamais entederia aquilo. Uma pílula de cada frasco e ele se renovava. Se trancafiava num mundo em que só existiam sorrisos e possibilidades, em que tudo era interessante, novo e bonito.

Naquela tarde, os chefes da loja em que João trabalhava decidiram fechar as portas mais cedo, haveria uma manifestação na grande avenida, algo sobre os hospitais, ou sobre os médicos, sugeria seu colega do trabalho. Era muito maior, era protesto pelo direito de protestar. Fecharam a loja cedo e começaram a se envolver na primeira pequena multidão que encontraram. Muitos adolescentes no centro, pessoas mais velhas nas pontas das aglomerações.

– Deixemos o orgulho de lado! – diz a moça num megafone
– Deixemos o orgulho de lado! – repete a multidão
– Nosso inimigo é o Estado! – segue a moça
– Nosso inimigo é o Estado! – o grito do povo se mistura

Em meio ao alvoroço ele tentava decifrar as frases vindas do microfone humano que nascia na voz de uma moça muito nervosa que gesticulava o suficiente para dar a entender uma possível tradução instantânea para surdos. João obteve pouco sucesso em compreender a integra do discurso que ela tentava ler, mas não podia evitar a sensação que aquelas palavras de ordem lhe causavam, uma estranheza de sentidos, um quase convite à guerra.

Olhava deslumbrado todas aquelas pessoas, seus cartazes, suas bocas se mexendo. E tinha parado de tentar repetir comportamentos. O remédio tinha deixado de fazer efeito e, de repente, viu-se entre o ódio de seu descontentamento social e uma espécia de fim de fogueira, onde colocava suas frustrações por jamais sentir-se merecedor de sua família, de seus amigos, seus amores. Aqueles dois frascos de comprimidos estavam ali por esse motivo. João jamais havia conseguido se sentir presente e atuante em porra nenhuma. Nos dois segundos que se passaram, ele conseguiu reparar bem em duas pessoas gritando no celular, um casal abraçado tentando atravessar a avenida, um garoto de feições extremamente infantis escrevendo uma frase numa cartolina, só não deu tempo de ver a primeira bomba de gás que caiu  próximo ao epicentro de toda aquela gente.

A cortina de fumaça causada pelos outras quatro ou cinco bombas lhe abriu o peito em desespero. Embora tomado de uma sede impulsiva contra o Estado, contra a corporação, ele não podia se mexer e, muitos empurrões e pisadas depois, continuava sentado, sozinho, em meio à grande avenida, com a tropa marchando em sua direção. De pernas cruzadas, parecia meditar de olhos abertos, com a serenidade de um sábio. Com dois frascos de comprimidos nas mãos, contemplava bucólico o avanço dos soldados que atiravam medo. Nem os fotógrafos que estavam próximos o incomodavam, uma vez que o melhor ângulo para uma capa de jornal era por trás do rapaz, capturando uma parede de policiais a sua frente. Seu colega, sabendo da mania de ser maluco do amigo (se você costuma tomar muitos remédios sejam eles quais forem, fica aqui uma dica para a vida, as pessoas te consideram automaticamente um maluco), resolveu correr para o meio da avenida e socorrer o rapaz e. Após poucas palavras trocadas João finalmente recobrava os sentidos e seguia em direção oposta aos tiros.

– Que aconteceu rapaz, você tá ficando maluco?
– Cara, me desculpa, Não queria causar problema – ainda sem entender a preocupação do colega
– Mas o que que houve, bicho, você tá bem?
– Sim, melhor do que nunca. Eu tava me entendendo com o universo.
– Vambora que vai ficar pior que isso, diz o amigo rindo com desprezo.

João passou a acompanhar de perto uma boa quantidade de protestos enormes e pequenos, viu nascer gigantes e não lhe passou pela cabeça desistir quando deixaram de apoiar suas causas. Algumas das fotos que retrataram o momento de paz em meio a via foram destaque em galerias de imagens, parece até que um deles ganhou um prêmio no final daquele ano. Outra foto boa (embora menos histórica pro jornal) foi de uma cena que passou despercebida para a grande maioria que fugia dos conflitos daquela quarta-feira: dois frascos de antidepressivos abandonados com cuidado no meio da grande avenida, a despeito do avanço das tropas.

Nem por um segundo depois daquele dia João voltara a fugir da realidade.
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este post corresponde ao ‘Day 2 – escreva sobre algo histórico’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

ah, mas a vida é assim mesmo

Daí que minha dor de dente deu pra despertar justamente nesse momento em que estou sem convênio, mas ok, só prova que Murphy está trabalhando por nós 24/7. Daí que começo a tomar essas coisas para passar a dor e, uma delas, cujo nome não vou dar aqui, minha mãe indicou como:  o remédio que você não pode tomar se for dirigir.

E então eu, aqui, precisando acordar cedo, tomo um antes de dormir, às 20h, porque né, se eu desmaiar muito, a certeza que tenho é que não vou conseguir ficar mais de doze horas na cama. Tomo um, a dor não vai embora, mas o sono bate, bem, lá vamos nós acordar sem olheiras amanhã, estou com fome, mas logo cedo me faço um café legal e resolvo isso, vai ser lindo, obrigado.

Se eu desse três opções pra vocês chutarem o que aconteceu e a última delas fosse: acordei quatro horas depois morrendo de fome e sem sono nenhum, com a dor de dente agravada, mas mesmo assim a churrasqueira está acesa e estou fazendo comida às 0h38, em que opção você chutaria?

O final é com você, brasil.

Amigo, eu me desesperava

Eu queria certezas. Eu temo por elas, sofro por elas. Tudo o que pedi desde que não tive tempo de decidir que tipo de vida adulta eu levaria, tudo o que peço é alguma certeza. Uma dessas que me incomode, que conviva rechaçando suas dúvidas, porque é fato, não há lugar para o sossego, senão na tristeza.

Daí quando tudo parece ficar bem, vejo a própria Marla Singer me pedindo pra escorregar naquela caverna de gelo, com a fumaça do cigarro lhe encobrindo a cara, me dizendo especialmente pra seguir em frente que é a melhor saída pra tudo, que na verdade é a única saída pro autoconvívio.

Essas palavras não querem dizer nada além de uma fria e angustiante luta contra a noite.

E eu não posso ver um cara desconhecido mais de três vezes seguidas no mesmo dia sem achar que é o próprio Tyler Durden.

Headquarto e cozinha

Ok, é oficial: eu só consigo manter o blog devidamente atualizado quando participo de desafios como o 30 days writing challenge. Esse é o primeiro post da série. Obrigado a todos os envolvidos.

*

A primeira vez que entrei era como se jamais fosse voltar. O lugar parecia apertado demais, escuro demais, errado demais. Eu fechei negócio mais pelo medo de não encontrar um aluguel melhor pelo preço que me ofereceram. me deram uma data pra pagar e eu teria apenas que dividir quintal com uma pessoa que só aparece de vez em quando. Agradeci e comecei a trazer as coisas aos poucos.

Me assustou bem quando na primeira noite eu exagerava cada barulho que ouvia do lado de fora da casa. Até descobrir que a geladeira faz mais barulho do que imaginava. Mesmo a minha com tão pouco tempo de vida. É difícil saltar de um apartamento para uma pequena casa de dois cômodos. Na primeira semana eu só conseguia lembrar de uma frase do Guia do Mochileiro das Galáxias quando Arthur Dent se vê no espaço após a devastação do planeta terra (ou algo assim): “posso não ter ido aonde queria ir, mas creio que estou exatamente onde deveria estar” (descobri que se tornou uma puta frasezinha piegas também).

Ficou bem com os móveis certos e, depois de ter pendurado aquele porta utensílios de cozinha, ficou com cara de minha casa mesmo. Ainda que o microondas não tenha lugar definitivo e a vitrola ainda não tenha feito uma estréia exuberante, pelo menos a churrasqueira já encontrou seu lugar e descobri que basta aspirar de vez em quando que o pó deixa de incomodar.

Mas a geladeira, essa sonoplasta de sons perturbadores, vai continuar fazendo os piores barulhos.

Daí que chamei de caverna porque preciso manter a luz ligada ou as portas abertas mesmo durante o dia. Porque é nos fundos de um portãozinho escondido que dá vazão a meu universo invisível. E não cabe muita gente pra fazer festa, cabe meu monte de ideias pra coisas novas, meu pessimismo babaca e minha vontade contraditória de que tudo acabe dando certo com o tempo.

A casa é excelente, na verdade. Aline adorou o silêncio e a paz do lugar que é distante da rua e, se rola um carro tocando Anita, só incomoda pelo fato de lembrar a gente da porcaria da música, porque o barulho é bem distante.

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este post corresponde ao ‘Day 1 – descreva um lugar’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

A caverna

Estava aqui nessa madrugada sentindo o peso do mundo por não acordar cedo nessa segunda chuvosa. São as manifestações, o Brasil campeão com o Galvão relembrando o grito de “é tetra” (vai fazer 20 anos ano que vem, repare), talvez o nacionalismo tardio dessa gente, ou apenas minha dor de dente e a falta de um sono justo. Lembrava de uma época em que os problemas pareciam mais simples de se resolver. Um lugar livre de choro, livre de autorrepulsa, livre do meu caderno de capa preta cheio de borrões nas linhas.

Outro dia li um texto sobre como resolver seus problemas de uma forma simples. O cara contava como quitou suas contas, emagreceu e tal. Só podia ser coisa do Zen habits esse monte de resoluções simples que nunca se casam com o que vive gente comum como a gente. Saio de lá sempre desesperado. Se uma cultura zen não acabar com meus problemas, o que mais vai?

*

Estive acompanhando os protestos de longe. O mais próximo que estive foi quando Aline esteve lá nos primeiros dias, os dias de horror, antes do fuzuê do largo da batata e uns dias antes do despertador da nação tocar. Ela estava lá e me contou eufórica sobre como foi pesada a linha de frente, como sentiu fragilizar o aparelho do Estado. Tenho um orgulho imenso dela que tanto me incita, que tanto me diverte.

Minha distância dos dias de fúria aconteceu porque estava numa semana de mudanças, pintando o apartamento pra poder devolver a imobiliária com as paredes relativamente limpas. Consegui. E finalmente me mudei para a caverna, a casa nova. “Caverna” porque é distante da rua, distante do mundo, embora dê pra ouvir de longe um carro ou outro tocando a música da Anita.

E aqui é lindo.

A casa tem meu jeito, meu silêncio, meu desapego. É daqui que tenho escrito tanto e publicado em lugares invisíveis. Está tudo correndo bem e a solidão é menor do que eu esperava. Me sinto bem com os móveis e com as paredes e os pequenos cômodos. Tenho tido ideias excelentes e conseguido me livrar da consciência, da autofobia.

Eu falo tanto sobre a saudade da simplicidade de ser uma criança sem compromissos e sem prejuízos mentais, mas a verdade é que ter o controle sobre a sua vida (e lavar a sua própria louça) torna a felicidade menos distante e holográfica do que ela aparenta.