em Pessoal

Dois frascos

Naquele dia, João chegou atrasado por havia esquecido os comprimidos. Suava muito durante a noite, acordava espantando, como um sobrevivente de uma guerra que atormentava sua mente durante o sono. Tomava remédios pra dormir e pra se manter vivo num lugar praticável. Dois frascos. Limpos, grandes, sempre lotados de pequenas pílulas. Sonhava com o dia em que deixaria tudo aquilo de lado, ou que deixaria de mentir a si mesmo e finalmente encarar que sua vida regrada em pilhas de receitas médicas também era uma forma de fugir da realidade.

Saía cedo e, geralmente, muito atrasado para seu trabalho numa loja de calçados do centro. Contava as horas, era tomado uma inércia absoluta diversas vezes ao longo do dia – era quando alguém o acordava com uma palavra alta, o chamando pelo nome. Ele estava dormindo acordado, estava em outro lugar, ainda que parecesse apenas estar encarando um cesto de lixo, ninguém jamais entederia aquilo. Uma pílula de cada frasco e ele se renovava. Se trancafiava num mundo em que só existiam sorrisos e possibilidades, em que tudo era interessante, novo e bonito.

Naquela tarde, os chefes da loja em que João trabalhava decidiram fechar as portas mais cedo, haveria uma manifestação na grande avenida, algo sobre os hospitais, ou sobre os médicos, sugeria seu colega do trabalho. Era muito maior, era protesto pelo direito de protestar. Fecharam a loja cedo e começaram a se envolver na primeira pequena multidão que encontraram. Muitos adolescentes no centro, pessoas mais velhas nas pontas das aglomerações.

– Deixemos o orgulho de lado! – diz a moça num megafone
– Deixemos o orgulho de lado! – repete a multidão
– Nosso inimigo é o Estado! – segue a moça
– Nosso inimigo é o Estado! – o grito do povo se mistura

Em meio ao alvoroço ele tentava decifrar as frases vindas do microfone humano que nascia na voz de uma moça muito nervosa que gesticulava o suficiente para dar a entender uma possível tradução instantânea para surdos. João obteve pouco sucesso em compreender a integra do discurso que ela tentava ler, mas não podia evitar a sensação que aquelas palavras de ordem lhe causavam, uma estranheza de sentidos, um quase convite à guerra.

Olhava deslumbrado todas aquelas pessoas, seus cartazes, suas bocas se mexendo. E tinha parado de tentar repetir comportamentos. O remédio tinha deixado de fazer efeito e, de repente, viu-se entre o ódio de seu descontentamento social e uma espécia de fim de fogueira, onde colocava suas frustrações por jamais sentir-se merecedor de sua família, de seus amigos, seus amores. Aqueles dois frascos de comprimidos estavam ali por esse motivo. João jamais havia conseguido se sentir presente e atuante em porra nenhuma. Nos dois segundos que se passaram, ele conseguiu reparar bem em duas pessoas gritando no celular, um casal abraçado tentando atravessar a avenida, um garoto de feições extremamente infantis escrevendo uma frase numa cartolina, só não deu tempo de ver a primeira bomba de gás que caiu  próximo ao epicentro de toda aquela gente.

A cortina de fumaça causada pelos outras quatro ou cinco bombas lhe abriu o peito em desespero. Embora tomado de uma sede impulsiva contra o Estado, contra a corporação, ele não podia se mexer e, muitos empurrões e pisadas depois, continuava sentado, sozinho, em meio à grande avenida, com a tropa marchando em sua direção. De pernas cruzadas, parecia meditar de olhos abertos, com a serenidade de um sábio. Com dois frascos de comprimidos nas mãos, contemplava bucólico o avanço dos soldados que atiravam medo. Nem os fotógrafos que estavam próximos o incomodavam, uma vez que o melhor ângulo para uma capa de jornal era por trás do rapaz, capturando uma parede de policiais a sua frente. Seu colega, sabendo da mania de ser maluco do amigo (se você costuma tomar muitos remédios sejam eles quais forem, fica aqui uma dica para a vida, as pessoas te consideram automaticamente um maluco), resolveu correr para o meio da avenida e socorrer o rapaz e. Após poucas palavras trocadas João finalmente recobrava os sentidos e seguia em direção oposta aos tiros.

– Que aconteceu rapaz, você tá ficando maluco?
– Cara, me desculpa, Não queria causar problema – ainda sem entender a preocupação do colega
– Mas o que que houve, bicho, você tá bem?
– Sim, melhor do que nunca. Eu tava me entendendo com o universo.
– Vambora que vai ficar pior que isso, diz o amigo rindo com desprezo.

João passou a acompanhar de perto uma boa quantidade de protestos enormes e pequenos, viu nascer gigantes e não lhe passou pela cabeça desistir quando deixaram de apoiar suas causas. Algumas das fotos que retrataram o momento de paz em meio a via foram destaque em galerias de imagens, parece até que um deles ganhou um prêmio no final daquele ano. Outra foto boa (embora menos histórica pro jornal) foi de uma cena que passou despercebida para a grande maioria que fugia dos conflitos daquela quarta-feira: dois frascos de antidepressivos abandonados com cuidado no meio da grande avenida, a despeito do avanço das tropas.

Nem por um segundo depois daquele dia João voltara a fugir da realidade.
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este post corresponde ao ‘Day 2 – escreva sobre algo histórico’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.