Daí eu tava longe de casa, numa padoca (vale atentar que o termo “padoca” refere-se mais a um estado de espírito e pode ser uma lanchonete ou bar, desde que tenha um balcão e que sirva pão na chapa) com uns módicos seis reais em notas de dois, esperando que o pão na chapa e um café não saísse mais caro que isso. No fim das contas, o café custava bem barato.
Na TV do lugar, Ana Maria Braga falava sobre tipos de café, com um monte de potinhos cheios de grãos sobre a mesa e uma especialista (sommelier de café, tendência) falando sobre cada particularidade, sobre grãos exóticos, essas porcarias que a gente que toma café todo dia não curte nem ouvir falar.
Eu ali comendo meu pãozinho esquentado com um café quente o suficiente pra você não se ligar muito no gosto, embebido pelo espírito imortal da padoca, enquanto o provável dono assistia decidido a TV, ao mesmo tempo em que contava moedas e notas do caixa. E então Ana Maria Braga mostra um café de uma parte inusitada do mundo, um dos mais caros do planeta, ou qualquer coisa parecida. E então, o dono vira pro cara da chapa:
– Ô Amaral, segunda-feira o pingado vai pra 230 real, hein!
Me sobram motivos pra amar uma boa padoca.