O Sebo de Custódio

Comecei uns tempos atrás um processo pesado de me desfazer do que não uso. O processo de sempre. Foi-se o baixo, foi-se o Playstation 2 (vendido por um valor que não dá pra pagar uma das 12 parcelas do PS4). Pilhas de roupas e cds. Vinis que ouvi uma vez e larguei. Uma sacola de livros. Bem, a sacola eu guardei por um tempo.

Daí esses dias fui me desfazer dos livros. Ia fazer uma doação numa instituição para crianças com uma doença terrível da qual não me lembro o nome (estou na sétima temporada de Grey’s Anatomy e não lembro o nome de uma doença. Alzheimer mandou um abraço). Antes disso, fui até dois sebos amigos ver quanto valia a sacola de livros. Não preciso explicar essa, vai. No fim das contas não consegui vender porque prefiro doar a me desfazer dos livros por um preço irrisório. De qualquer forma, segue um relato deste dia maravilhoso.

O primeiro sebo era desses chiques, com papelaria, material escolar e tudo mais. Funcionários treinados subindo em escadas seguras, livros em bom estado, gente afetuosa demais segurando o riso pelos meus pobres e amarelados exemplares. Não aceitaram a sacola, obviamente.

Estava com receio do outro sebo. Conheço o dono das vezes em que estive lá. Certamente o ser humano mais caricato dentre os donos de sebos. Vamos chamá-lo de Custódio, porque me parece um bom nome para um dono de sebo caricato. Custódio não sabe formar palavras sem embaralhar sílabas. Custódio é um cara de meia idade visivelmente confuso, que te deixa esperando mesmo que você tenha os livros escolhidos em mãos e só queira pagar. Seu caixa consiste numa mesa com uma tela e uma calculadora. Por detrás dos livros empilhados num corredor onde só passa uma pessoa por vez ele faz uma consulta em alguma espécie de sistema especializado para sebos (foi o que pensei da primeira vez) e lhe dá o valor final. Se formar uma fila você vai precisar dar a volta no sebo inteiro pra encontrar um corredor vazio onde consiga sair dali. Dá pra processar por cárcere privado, inclusive, fica a dica. Não, sem dicas! Pobre Custódio.

Seu tratamento com o público é perspicaz. Se você está procurando por um livro específico, Custódio diz que acha que tem, te deixa um cartão de visita impresso em folha sulfite e pede pra você ligar de volta pra confirmar. Sim, ele te expulsa do sebo com um número e a probabilidade dele jamais lembrar de procurar o seu livro. Custódio não deve receber muitos telefonemas.

Outro interessante ponto do sebo de Custódio: nada que está ali foi organizado de maneira alguma. E não estou apenas imaginando coisas. Enquanto esperava ele debater qualquer coisa com o único funcionário do local (outro caricato, ouvindo sem fone de ouvido seu funk e gangsta rap nacional na mesa do caixa e reclamando porque queria sair cedo pra encontrar a namorada), uma cliente apareceu pedindo livros de serviço social:

– Moço, boa tarde, vocês tem livros de serviço social?
– “Sevicial”, “Sevicial”… “Sevicial” né? Acho que temos alguma coisa de “Sevicial” sim, tem alguma coisa por aí sim.
– Eles estão separados por tema? – diz a moça muito tempo depois, após conseguir relacionar “sevicial” a “serviço social”
– Não, não tá separado não. Não tive tempo. Mas pega meu cartão, dá uma ligada com os títulos que você precisa.

Faz dois anos que conheço o sebo. Nesse biênio de provavelmente muita conversa perdida com seu único funcionário e certamente envolvido por todo aquele funk e gangsta rap nacional, Custódio jamais encontrou tempo de organizar seu acervo de 35 mil livros. A propósito, a informação sobre a quantidade de livros eu consegui sem ao menos perguntar, assim como o fato dele não ter dinheiro naquele dia porque teve de pagar muitas contas. Aparentemente, Custódio acha o máximo perder o pensamento nessas pequenas conversas.

Da última vez que estive lá tirei a prova sobre o sistema especializado de sebos usado para chegar no valor cobrado pelos livros. O preço dos produtos é formado a partir de uma conta simples: Custódio lê o título, digita no Google e abre o primeiro site que esteja vendendo o livro. Desconta 10 reais e aí está o preço final. Pode ser o Maktub ou a coleção completa dos escritos de Freud. Você vai pagar dez reais a menos. Imaginei a possibilidade de Custódio lhe devolver  troco caso o livro custe oito reais, por exemplo.

Está mais do que na hora de escrever uma carta ao Luciano Huck pedindo um fonoaudiólogo e um curso de biblioteconomia a Custódio. Eu faço a minha parte.

(este post corresponde ao ‘Day 17 – Descreva um lugar ou alguém que não goste’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

Laços

A gente discute e fica triste, se entreolha, os dois se sentindo as pessoas mais erradas do mundo. Provavelmente é isso que resolve tudo. E enquanto isso estamos ali, sentados, ambos de cabeça baixa, procurando pontos fracos no discurso um do outro pra justificar qualquer coisa sem importância que tenha antecedido nosso encontro.

Qualquer coisa boba que no ano que vem não vamos nos lembrar.

Fazemos perguntas sem sentido um ao outro também. Perguntas das quais sabemos a resposta, mas precisamos ouvir da boca do outro pra ter certeza do que já temos certeza. Uma forma de fraqueza tão bonita, tão juvenil. É quase a versão analógica de curtir suas próprias fotos no facebook.

E, num passe de mágica, nossas mãos estão juntas. Estamos sorrindo com meias lágrimas nos olhos, entendendo como é tudo tão pequeno perto daquele laço. Se ainda estivermos chateados, começamos a dizer palavras de conforto sabendo também que seja qual for o monstro, vai ficar tudo bem.

Mesmo assim, ela ainda está sem falar muito, com visível cansaço depois de protagonizar mais aquele emocionante capítulo da novela. Eu olho pra ela imaginando como gostaria de não ser um problema e na merda que seria caso ela não estivesse aqui. Dramatizando como um rei, sempre.

E então ela levanta e veste meu chinelo 44/45, que em seus pés pequenos parecem dois esquis de neve. Caminha com alguma dificuldade até a cozinha e me diz de longe que deixei queimar os pães de alho.

Daí fica tudo bem.

Via NYC

Sem relação alguma, mas lembrei desse caso lendo essa parada que Diego compartilhou do Alt.

Certa vez eu peguei um ônibus indo trabalhar nos idos de 2002 ou 2003. Pois bem, nesta época eu pegava o coletivo num horário super escroto e portanto tinha sempre a remelenta mania de ficar encostado na porta da frente, ao lado do motorista, uma vez que essa porta só se abria quando o ônibus já estava relativamente vazio e eu podia ir pra trás e me acomodar junto aos companheiros de humilhação coletiva diária (acho que chamam de passageiros hoje em dia).

Foi então que uma moça parou ao lado do motorista com um papel e falando palavras aleatórias do tipo “não sei onde”, “moço eu”, “ai, devia ter ligado”. Eu sempre olhava pro painel pra ter certeza de que a placa de “fale com o motorista apenas o indispensável” estava lá. É como ficar cutucando Deus dizendo que você não sabe o que vai ser do seu futuro enquanto, bem, ele está tentando entrar na marginal com um ônibus de infinitas articulações.

Após uns segundos e prestando atenção pra ver se podia ajudar (quem nunca?), eis que a personagem solta a frase:

– Moço, eu preciso ir pro Central Park.

Eu olhei pra trás achando que era pegadinha, ou imaginando que o Luciano Huck talvez aparecesse em algum momento, mas aparentemente a moça pegou realmente um Vila Mariana via Avenida Ibirapuera esperando que ele passasse em Nova York.

O sorriso de Vercilo

Eu gostava do sorriso do Jorge Vercilo.

É uma dessas coisas que a gente guarda (e uma dessas excelentes frases pra começar um texto aqui, provavelmente). A nova MPB pra mim era o sorriso do Jorge Vercilo. E eu lembro quando comecei a procurar ouvir umas coisas novas de MPB porque, bem, devia ter algo bom e novo, que fosse alegre, mas fosse profundo, espiritual, qualquer coisa. Mas não, não tinha nada. Tinha gente sorrindo. Sempre. E nunca sorrindo como o Jorge Vercilo, que pra mim era esse pioneiro.

Daí você volta a ouvir esse monte de caras velhos e cheios de melancolia compondo clássicos que marcaram gerações inteiras, passa a aprender no violão que a tristeza é senhora desde que o samba é samba e, ao procurar gente nova da MPB percebe que eles estão todos sorrindo. Sorrindo impecáveis. Impecáveis e forçosos. Provavelmente como forma de estar no mercado da música feliz brasileira, da música descolada e quem sabe tocar naqueles festivais pra brasileiros no exterior.

Afinal o que é triste não vende. Não sei se o Jorge Vercilo inaugurou uma espécie de escola musical, se é a questão de mercado (sempre é) ou se são comprimidos. Comprimidos de felicidade. Ou o produtor conta piadas no camarim e o produtor conta piadas até que os artistas não consigam mais tirar o sorriso do rosto. Sei que nunca mais cantou-se a tristeza como se cantava antes. Tristeza com sorriso ou malícia não é exatamente tristeza.

Aline postou essa música aqui na versão do João Gilberto hoje. E eu lembrei da misantropia, do confinamento, de uma turnê que ele fez no Japão, de sua postura vigorosa quanto a sua privacidade e lembrei de canções ótimas profundas e tristes ou alegres e espirituais. Eu não lembrei de sorriso nenhum. Digo, lembrei de um. O problema não está no riso puro, veja bem, está na interpretação estéril e homogênea, naquele riso flácido que não tem verdade nenhuma, que é feito pra agradar listas de fornecedores, patrocinadores, empresários e essa gente que assiste TV e precisa que as pessoas estejam sorrindo sempre.

Obviamente vocês vão lembrar desse texto como aquele em que eu falo que gostava do sorriso do Jorge Vercilo né? Por favor, não.

Unlucky Days

E então você está desempregado há meses, sem lugar ao sol como diz a descrição do blog, com os problemas de autoestima de sempre, desavenças com a namorada, sem comida na geladeira, sem previsão de pagamento do freela, com um amigo que desistiu de tentar você pro outro trabalho esporádico maçante, com o licenciamento do seu carro prestes a ser atrasado, sem dinheiro pra comprar as pequenas lâmpadas do farol que queimaram ao mesmo tempo, quase fazendo amizade com o pessoal do telemarketing de cobrança do banco, sem saco algum pra escrever no seu diário autobriográfico por todo o peso que ele joga de volta em você quando você abre o caderno, com duas histórias pela metade e sem ensaiar com a banda e pilhas de estoque parado de cds que você deveria ter vendido durante o ano (sério, ninguém mais compra cds), evitando casamentos que não vai poder comparecer pela terrível sensação que existe em não dar presentes, com sua mãe achando que está tudo bem porque você hesita em dizer que realmente está à beira de um colapso mental e os vizinhos devem achar que você se corta com uma faca quando ouvem a respiração forte e abafada da sua crise de pânico.

Daí você emenda dois textos na sequência, encontra cinco reais esquecidos no carro, tira a roupa do varal dois minutos antes de começar a chover e começa a achar que a sorte está realmente mudando de lado.

O guardador de palavras

Existe uma espécie de êxtase no fato de não ter nada a dizer, algo que lhe pega pelos braços e lhe atormenta, como um amigo com um canudo assoprando bolinhas de papel na sua cara até você se irritar demais e não conseguir controlar seus impulsos e gritar com ele ou qualquer coisa do tipo.

O ponto é que você não consegue ter esse impulso de gritar contra tudo que lhe atormenta. Você fica cheio de palavras. Cheio de palavras que ninguém jamais vai ouvir. Nem seu melhor amigo, nem o taxista, nem quem sabe o barman gente boa que puxa assunto falando do Corinthians.

Existem palavras que jamais serão ditas, ideias que jamais serão divulgadas e pensamentos terríveis que ninguém terá o poder de julgar porque, não, eles jamais serão ditos em voz alta. o êxtase consiste em perceber que aquilo jamais vai sair de você de jeito algum. No momento em que você percebe isso as palavras juntam-se ao que quer que você acredite que liga o seu corpo a sua existência: sua alma, seu espírito, seu karma, seu cérebro. As palavras vão ficar armazenadas. É como uma gigante agulha de heroína que suga um pouco do seu sangue e depois mistura um monte de merda à sua corrente sanguínea (ando falando tanto de drogas depois do Breaking Bad).

As pessoas deixam de dizer o que pensam por pena, por serem covardes, por não acreditarem em si mesmas. Esse não é ponto aqui. As coisas que você diz te livram de algo que você prefere compartilhar com os demais, as coisas que você não diz criam em você um disco rígido de memórias ruins.

Com o tempo você vai descobrir que o seu armazenamento tem um limite. E que você vai começar a despejar palavras ou crises de ansiedade, desespero e pânico com mais frequência. Conversar pouco, assim como dizer pouco o que você pensa, lota a sua existência desse monte de arquivos corrompidos e não existe terapeuta suficiente pra tanta besteira nesse mundo.

Portanto é preciso dizer o que se tem a dizer: “pegue toda a sua honra desperdiçada, cada pequena frustração do passado, pegue tudo o que você chama de problema, é melhor colocá-los entre aspas (…) é bom você saber que no final é melhor falar demais do que nunca dizer o que você precisa dizer”, mas esse é apenas o John Mayer falando.

No final, ou a gente leva em consideração o princípio de arquimedes (ou todas as aulas de física que já tive na vida) que é um grande exemplo de lição dada e jamais executada ou a gente fala tudo que tem na cabeça e arca com as consequências, o que é bem mais adulto e difícil de lidar. De qualquer forma, é bem mais fácil pensar ou andar por aí sem carregar um tanque de guerra moral nas costas do que manter esse monte de palavras atormentando seus pensamentos e te fazendo esquecer que o princípio de Arquimedes tem a ver apenas com a intensidade da força de um corpo submerso na água.

A lição é uma escolha: ou você diz tudo o que pensa e abraça o que vier em troca, ou vai dar ao seu terapeuta a oportunidade de trocar de carro todo ano.

(este post corresponde ao ‘Day 11 – Escreva uma crônica’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)