E então você está desempregado há meses, sem lugar ao sol como diz a descrição do blog, com os problemas de autoestima de sempre, desavenças com a namorada, sem comida na geladeira, sem previsão de pagamento do freela, com um amigo que desistiu de tentar você pro outro trabalho esporádico maçante, com o licenciamento do seu carro prestes a ser atrasado, sem dinheiro pra comprar as pequenas lâmpadas do farol que queimaram ao mesmo tempo, quase fazendo amizade com o pessoal do telemarketing de cobrança do banco, sem saco algum pra escrever no seu diário autobriográfico por todo o peso que ele joga de volta em você quando você abre o caderno, com duas histórias pela metade e sem ensaiar com a banda e pilhas de estoque parado de cds que você deveria ter vendido durante o ano (sério, ninguém mais compra cds), evitando casamentos que não vai poder comparecer pela terrível sensação que existe em não dar presentes, com sua mãe achando que está tudo bem porque você hesita em dizer que realmente está à beira de um colapso mental e os vizinhos devem achar que você se corta com uma faca quando ouvem a respiração forte e abafada da sua crise de pânico.
Daí você emenda dois textos na sequência, encontra cinco reais esquecidos no carro, tira a roupa do varal dois minutos antes de começar a chover e começa a achar que a sorte está realmente mudando de lado.