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Laços

A gente discute e fica triste, se entreolha, os dois se sentindo as pessoas mais erradas do mundo. Provavelmente é isso que resolve tudo. E enquanto isso estamos ali, sentados, ambos de cabeça baixa, procurando pontos fracos no discurso um do outro pra justificar qualquer coisa sem importância que tenha antecedido nosso encontro.

Qualquer coisa boba que no ano que vem não vamos nos lembrar.

Fazemos perguntas sem sentido um ao outro também. Perguntas das quais sabemos a resposta, mas precisamos ouvir da boca do outro pra ter certeza do que já temos certeza. Uma forma de fraqueza tão bonita, tão juvenil. É quase a versão analógica de curtir suas próprias fotos no facebook.

E, num passe de mágica, nossas mãos estão juntas. Estamos sorrindo com meias lágrimas nos olhos, entendendo como é tudo tão pequeno perto daquele laço. Se ainda estivermos chateados, começamos a dizer palavras de conforto sabendo também que seja qual for o monstro, vai ficar tudo bem.

Mesmo assim, ela ainda está sem falar muito, com visível cansaço depois de protagonizar mais aquele emocionante capítulo da novela. Eu olho pra ela imaginando como gostaria de não ser um problema e na merda que seria caso ela não estivesse aqui. Dramatizando como um rei, sempre.

E então ela levanta e veste meu chinelo 44/45, que em seus pés pequenos parecem dois esquis de neve. Caminha com alguma dificuldade até a cozinha e me diz de longe que deixei queimar os pães de alho.

Daí fica tudo bem.