Estaria levando uma vida de seriado se estivéssemos contando a forma com que chego em casa de noite, depois de um dia relativamente exaustivo, cansado dos transportes coletivos da cidade e paro três segundos olhando pra dentro da pequena casa ainda escura, à procura de uma sensação de estar de volta ao lar, que só vem mais tarde, ao trancar a porta e ligar as luzes.
Outra cena boa seria eu preparando a comida para o dia seguinte, mexendo uma panela como quem sabe realmente o que está fazendo. Provando pra ver se o tempero ficou bom, embora na minha cabeça passe apenas um “coloca um pouco de tudo que fica tudo bem”.
E eu olho pra panela lembrando das pequenas grandes coisas, uma ligação da Aline, conversas ocasionais de amigos, a necessidade de continuar no freela, meus pais preocupados com minha situação financeira. Arrumo tudo em pequenos potes, dobro a roupa sobre o sofá, encaixo edredom em cima de edredom sobre a cama. Pego no sono pensando numa palavra que havia esquecido durante o dia.
Uma cena melhor é quando bato no celular despertando cedinho dizendo “FUCK” ou o “OH MY GOODNESS” ao sair das cobertas. A forma com que eu sento na cama, cedo, à meia luz, olhando pro infinito de olhos semicerrados. Quem sabe até a cena tomando cereal e assistindo Grey’s Anatomy contem para um bom roteiro.
Seria tudo um excelente piloto para uma série de drama, mas na sequência vem a cena em que eu entro no banheiro e tomo um banho de balde porque o filho da puta do locatário ainda não teve o dom de arrumar a vazão de água do chuveiro.