The Cave

Eu tinha dado uma cansada da caverna. Levei por um tempo e tudo, mas o chuveiro começou a incomodar, assim como o aperto e a desordem das coisas em seus pequenos aconchegos. E então eu vi uma barata no armário. Uma senhora barata, com antenas da TV Gazeta, desenvolvida o suficiente para me dizer olá e conversar um pouco sobre o negócio do Stephen Hawking ter meio que duvidado de sua teoria dos buracos negros.
Desenvolvida o suficiente pra ser morta com brutalidade também.
Eis que fui fazer uma faxina, antes de encontrar uns amigos. Tirei todos os móveis de lugar, minha cozinha ficou parecendo um sorteio do caminhão do Faustão (sério, quem é que teve essa ideia genial de colocar aquela pilha de cartas toda no chão?). Quando fui colocar as coisas de volta, vi que rolava abrir um pouco o espaço interno, ganhar um centro de sala, essas coisas que dá pra falar como se não fosse somente um quarto/cozinha e eu realmente morasse numa dessas mansões da revista KAZA. Bem, arrumei do jeito que deveria ter sido desde o começo, com uma distância ideal da entre a prateleira de livros e a cama e um espaço que permita sentar com os amigos pra teorizar sobre essas fitas do universo em desencanto.
(pra beber, claro)
Ainda falta mudar a posição de uns cartazes (tem vários importantes escondidos atrás da estante), mas me deu uma sensação ótima de finalmente estar em um lugar tranquilo e mais amigável pra mim e pro futuro gato.
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.”**Prometo parar de citar Fernnando Pessoa assim que uns cinco dos oito leitores deste blog vierem até em casa (e trouxerem uma caixinha de cerveja, obviamente).

Dois mundos

Vivo em dois mundos. Em um deles eu sei o que é perfeitamente ideal para a minha vida, o que eu devo fazer para que tudo caminhe no sentido de ficar bem comigo mesmo e voltar a pensar no mundo como algo praticável. No outro eu sou arrastado por uma correnteza de acontecimentos que me levam a caminhos em que me perco sem saber o que fazer, em que preciso tomar decisões e desvios, em que o confronto é sempre inevitável e presente. Obviamente me cabe a segunda opção, a primeira é apenas um mundo de ideias em que eu pelo menos consigo manter o cérebro pulsando feliz.

A despeito de tudo isso, eu preciso muito de um felino que me faça companhia.

Quédizzê.

(O neologismo do final é em homenagem a C., que mudou pra Curitiba por esses dias – privando a todos nós de uma macarronada excelente.)

Em prol dos sapatênis

Dentre quase todos os meus amigos inteligentes, de esquerda ou modernos, existe uma coisa em comum: o fato de relacionar os chamados sapatênis a um estilo de vida tão coxinha quanto o de um rei do camarote. Uma visão de mundo em que todas as pessoas que usam sapatênis frequentam o Franz Cafe e baladas da Vila Olímpia (o que em alguns círculos é o mesmo que dizer que come cocô e usa pochete).

E logo eu que sempre fui o mais crítico neste assunto, certo dia peguei-me numa loja de departamentos tendo de comprar um sapato que custava um tanto caro em comparação ao que costumo gastar e acabei levando também um sapatênis que não me parecia de todo mal, num primeiro momento (a foto está no post anterior, julguem). Ele custava menos da metade do preço do sapato e era, inclusive, mais barato do que os tênis que uso frequentemente. Mas tá, ainda era um sapatênis.

Fui condenado a um paredão de injúrias, de humilhação pública. Pessoas pasmas me olhavam com feições que diziam “como você pôde fazer isso com a gente?”, rostos chocados nos quais podia-se claramente ler “eu pensei que você era diferente”.

Foi o primeiro movimento que traí.

Agora vem a parte em que me defendo. Olha, fazia tempo não usava um tênis tão confortável. Eu acabei comprando outro na sequência e posso dizer, sendo um sapatênis mais rasteiro, ou mais robusto, ambos tem níveis de conforto inacreditáveis. O outro acabei não gostando muito por ser realmente meio coxinha demais, mas esse da foto praticamente calça sozinho.

Daí vem uma pequena dúvida: não sei se todos os sapatênis são baratos ou apenas os que se encontram em lojas de departamentos, mas até agora, não me decepcionaram.

O fato é que também dane-se, né?

Segundo melhor lugar do mundo

O rolê hipster de ocasião no domingo foi uma manhã e tarde quase noite de risadas para desafogar com N. e R., desde a Augusta até a adega, passando pelo chá da tarde na Benedito Calixto e R. chamando as pessoas de Angélica e o garçons de Alfredo, basicamente, resumindo bem porcamente o rolê mais legal do ano até então.

Voltamos um tanto tarde, eles precisavam viajar de volta pra casa e então os deixei em Pinheiros e passei por um lugar que não ia faz muito tempo (é, esse da foto), um lugar que eu costumava frequentar, do qual tenho uma pancada de lembranças, mas um lugar que ficou pra trás, como todos os outros lugares ficam pra trás.

Este lugar é um retiro. É uma praça que você só encontra errando muitas ruazinhas no começo do Alto de Pinheiros. Feita para tiozinho brincar com cachorro e fazer exercício pela manhã. Uma praça na qual o primeiro cigarro que você acende faz você se sentir automaticamente um punk sem futuro – especialmente pelas caras de ódio e negação que fazem as tiazinhas ricas praticando corrida, seu lixo.

Deitei no banco da praça tentando te esquecer adormeci e sonhei com você apenas para esvaziar a cabeça, admirar as árvores, receber picadas de uns pernilongos mais ligeiros que meus tapas. Não tinha ninguém lá. A tia que corria em volta parou depois de um tempo, provavelmente com receio de dar alguma merda, uma vez que apareci do nada, como um fantasma ou um sequestrador (não julgo, mas #freerolezinho).

É o segundo melhor lugar do mundo. O primeiro melhor lugar do mundo é a internet obviamente fica dentro de clube para funcionários públicos perto do Jd. Horizonte Azul. Não tem nada a ver com o clube. É apenas um espaço de grama que dá pra ver a represa de Guarapiranga como nenhum outro lugar (ninguém passa por lá também, o que é uma excelente prerrogativa para ser candidato a melhor lugar do mundo).

Os lugares continuam sendo lugares, os fuscas azuis continuam sendo fuscas azuis. E a vida vale cada vez menos, escorrendo pelos dedos sem a gente notar. Parece poético, mas eu estava num estado de embriaguez semi transtornado nível 7: precisando demais de um teletransporte pra casa.

(sobre a foto: sim, é um sapatênis, me processe. prometo, para breve, uma elegia ao sapatênis. 2014, bitches)

Até não doer mais

Rasgar a pele e triturar a alma. Ter bons motivos para ficar em silêncio assistindo as vísceras da sua dor se debatendo. E ter ainda mais motivos para não acreditar em nada. E para acreditar em como tudo faz sentido, como as coisas se encaixam. Ser pra sempre essa peça a mais no tabuleiro, que consome os restos, devora as bordas, a pedra no sapato, o botão de pause e slow motion em “festas que estive e ninguém me viu atirando bolo aos peixes”.

Daí ter novamente comigo. Ter uma saudade de estar num bar na esquina sem se importar com as caras que passam, sem se importar com a vida que se encerra, ou com lugares ou pessoas melhores com quem poderia estar. Sem se importar com o sorriso dela. Sem pensar “onde quer que esteja”.

Abrir o ferimento como quem abre um buraco na terra. E cavar fundo, para ver a escuridão e morrer por alguns segundos. E começar a jogar terra por cima. Terra, infinita terra. E reabrir sempre que necessário. E remendar todos os dias. A cada tapa da aposta. A cada violência autopunitiva.

Até não dar mais.
Até não doer mais.

Kenan Knows

Hoje encontrei Kenan (sim, o mesmo Kenan que me fez vegetariano). Me disse sobre um amigo gay que estava com medo de se assumir e de como era o preconceito nos anos 90 em comparação aos dias de hoje. Disse também que está se alimentando bem e se exercitando muito, “porque a noite cobra demais da gente, cara”. Falou algo sobre o Love Story e no mesmo momento traduziu o nome da balada (motivo: jamais saberemos).

E então começou a me falar sobre como é preciso ocupar a mente com coisas melhores que o amor, “porque o amor nos desgasta demais, cara”, disse que todos nós temos um tempo de sofrer, é natural e necessário. Disse que é preciso tomar cuidado para saber exatamente o quanto dura esse tempo e não se maltratar mais do que o ideal, pois é a gente que escolhe sofrer quando todo o sentimento ruim já deveria ter ido embora.

Ele me deu essa semipalestra motivacional sem eu ter dito nada a ele.

Desrebelar-se


“Vêm os dias, vão os anos. 
Vivendo o dia a dia, mais cinzento a cada estação. 
Indignado com a injustiça 
Firme como o aço 
Moldado no fogo, venço o mundo 
Inquebrável, cuspo sangue. 
Vêm os dias, vão os anos, de jovem a maduro sem se prostrar 
Senhor do tempo 
Rugas do sábio 
Vêm os dias, vão os anos 
A casca se perde 
Cicatriz é prêmio 
Mente jovem 
E o espírito vivo.”
–O Cúmplice, Cronos

Apareceu um menino, enquanto eu afinava a guitarra, antes de começar a tocar. Ele insistia pra tocar depois da gente, última banda da noite, porque eles eram de são josé e estavam de passagem, eram punks, eram anarquistas e a favor de causas. Eu já tinha aceitado antes dele começar a dar outros motivos, mas ele ainda disse que seria uma satisfação imensa, que a galera ia curtir, que eram só três músicas, “ok, cara, agora calma”.

Quando terminei de tocar, passei a guitarra pro menino que disse a outro pra “chamar os punks lá” e, por milagre, uma pequena multidão de meninxs punks se arrumou dançando e cantando as músicas, gritando “Êra Punk” (uma espécie de “Viva!”) e sorrindo. Eu estava achando tudo meio insistência demais, o baterista tocava todos os componentes da bateria ao mesmo tempo o que fazia parecer que ele estava batucando numa carteira de escola. Tocaram cinco músicas, seis, acredito, por mais insistência de outro punk com um chapeuzinho que se destacava dos demais chapeuzinhos punks em questão.

Daí eu comecei a ver os caras dançando, as meninas dançando, gritando “Êra Punk” infinitamente, numa possível felicidade compulsória, cheia de bebida e ideais libertários. E pensei em mim, saindo de casa cansado, após sete horas de internet e depressão autoacusatória, colocando instrumentos no carro, pegando as cervejas de cachê, conversando sobre nada enquanto todo mundo ao redor fumava maconha, não tendo nada que me alegrasse completamente, a não ser A. ter reconhecido um cover que a gente toca da antiga banda dele.

Eu parei pra pensar que xs meninxs punks eram muito mais felizes que minha vida cheia de pequenas coisas sem direção. Eram bem mais felizes pogando e falando sobre a causa indígena, eram bem mais felizes bebendo uma garrafa dentro de um saco de pão. Imaginei um mundo em que tudo é novo, as questões sociais, a desigualdade, a revolta, o sistema, como seria novamente se rebelar por algo que você jamais sequer pensou em fazer. Eu fiquei pra trás, eu sempre fico. Senti um vazio imenso, como se nada mais valesse a pena, ou tivesse o mesmo sabor de verdade, eu senti o tempo fumegar pelos poros e me encher de uma névoa espessa como numa tirinha de jornal. Eu senti que não haveria qualquer palavra de conforto que destronasse a terrível sensação de se perder em algo que sempre foi completamente seu.

E foi a primeira vez em que eu pensei em parar.

We hit concrete

A treta mesmo é só respirar a madrugada. E acordar toda porra de dia pensando nela. E procurar o rosto dela em todo lugar na rua. E não saber explicar nada pra quem pergunta. E evitar dizer pra quem não sabe. E segurar a onda do teto imóvel, desabando no seu sonho. E sonhar com a realidade alternativa em que tudo ficava bem. E responder que não, só quando alguém pergunta se você tá bem. Sentir-se passageiro como a chuva. Dá pra sacar agora como é sentir que você não foi nada. M. disse que vou passar a colocar a culpa no destino. A treta ainda é entender que foi simplesmente sonho demais subir tão alto e esperar que tudo desse certo, esperar que o chão não fosse assim tão duro e confortavelmente aterrador.

A treta mesmo é manter-se vivo (outra boa tradução pro nome do blog, reparem, não é à toa).

Se você tivesse a possibilidade de sentir-se a pessoa mais feliz e realizada que já habitou o mundo por apenas dez segundos, o que você faria sabendo que após o prazo você voltaria a mergulhar no mar de lama que é a sua vida? Como você encararia todo o autodesprezo por saber o que você pode ser e ser apenas o que você é?

Não é retórica, não é só o refrão.

Rdio Jives, “Neurastenia” jan/14


Eis uma mixtape sem critério, coisas que estou ouvindo, que estão me dizendo o que fazer, em que acreditar, fossa, neurastenia, depressão lite, talvez um pouco de misantropia indie.

Sobre o assunto “fossa”, eu não estou bem. Aconteceu aí, no fim de ano e, bem, vocês sabem que não sou das melhores pessoas para encarar um fim de relacionamento, principalmente se estava absolutamente envolvido e confiante (“apaixonado”, embora descreva exatamente como me sentia, é uma palavra em desuso).

Me desculpem, mas preciso demais escrever sobre o assunto. E tudo bem deixar de ler a partir daqui, porque certamente não melhora muito.

Na verdade, não melhora nada. Último aviso.

Eu gostaria de pensar em mim mesmo daqui uns sete anos, queria deixar de dar scroll até chegar na foto dela, ou tentar aceitar que mereço mesmo tudo que tem acontecido, pois quando fiz com alguém que me amava o que ela fez comigo, eu não olhei pra trás, eu não quis saber. Queria não ficar mais olhando o celular esperando uma mensagem de whatsapp que não vai chegar, uma ligação pra marcar uma conversa que não vai existir.

É torturante o silêncio ao deixar os amigos em casa depois do estúdio, olhar pros móveis da sala da casa onde uns tempos atrás me senti como se houvesse recebido um presente. Restou o silêncio. A rua, em completo silêncio, e eu pensando em subir até a casa dela só pra dar sorte de encontrar no caminho, esperar na rua, fumar um trilhão de cigarros distante o suficiente pra não ser visto. Mas nem pra stalker me dou.

A lembrança, o tempo tratará de descolorir em tanta lágrima.

Estou passando dias inteiros com a angústia de não contar com ninguém, de não querer encher o saco de ninguém sobre esse assunto (mas este é meu blog, né, gente, se não puder fazer isso aqui, onde mais?). Com uma tristeza que não vai ceder tão breve, que vai perdurar por muito tempo até eu aceitar que quando alguém escolhe se afastar é por querer a vida de volta. E, no fim das contas, eu era realmente apenas um peso atrapalhando o desenrolar da história.

A vibe do começo de 2014 é almoçar no Britão, ensaiar a banda nova, anestesiar a mente com atividades menores como colar cartazes na parede de casa e chorar todos os dias por alguém que, basicamente, já te esqueceu (e o Raça Negra diário, tem duas na mixtape, delicie-se).

Em resumo: curto muito as veias expostas da minha própria vida. Tendo me conhecido, Fernando Pessoa jamais teria escrito o Poema em Linha Reta.

Eu sou ótimo.

Sobre reduzir-se para caber

Poucas coisas me entediam tanto e me deixam com cara aquela cara de desolação em que a pessoa não vai entender nem se eu tentar explicar. Ter bandas é uma dessas. Tem sempre alguém perguntando se estou ganhando dinheiro com isso (e se não ganha, por que continua?), afinal, as pessoas baseiam sucesso e felicidade apenas ao dinheiro, jamais a satisfação pessoal de fazer algo que liberta.

Daí que Grey’s Anatomy tem os personagens coadjuvantes mais legais de todos os tempos. São sempre os pacientes, dizendo algo super profundo. Neste caso, um cantor de ópera bem gordo recebe a notícia de que pode ter seu pulmão retirado caso algo complique a sua cirurgia, o que pode levá-lo a jamais cantar novamente. Depois de muito argumentar com seu marido, ele dá a resposta definitiva (que anotei pra vida, embora tenha sido usada em outro contexto aqui):

“Eu sou grande. Muito grande. Eu não consigo sentar em poltronas de avião. E como Jeff (seu parceiro) está sempre me dizendo, minhas sensações não se encaixam às situações. Se minha comida vem cozida demais no restaurante, eu fico furioso. Eu quero matar o garçom. Mas não. Eu, polidamente, peço a ele que traga de volta a minha refeição do jeito que pedi. Eu passo dias tentando me reduzir. Ser aceitável. E tudo bem. Porque à noite, quando estou no palco, eu experimento o mundo da forma que o sinto. Com uma fúria indescritível. Uma tristeza insuportável. E uma enorme paixão. À noite, no palco, eu assassino o garçom e danço sobre o seu túmulo. E se eu não puder fazer isso, se tudo que me restar for uma vida me reduzindo, então não quero viver”

Grey’s Anatomy, s06e12, “I like You So Much Better When You’re Naked”