A treta mesmo é só respirar a madrugada. E acordar toda porra de dia pensando nela. E procurar o rosto dela em todo lugar na rua. E não saber explicar nada pra quem pergunta. E evitar dizer pra quem não sabe. E segurar a onda do teto imóvel, desabando no seu sonho. E sonhar com a realidade alternativa em que tudo ficava bem. E responder que não, só quando alguém pergunta se você tá bem. Sentir-se passageiro como a chuva. Dá pra sacar agora como é sentir que você não foi nada. M. disse que vou passar a colocar a culpa no destino. A treta ainda é entender que foi simplesmente sonho demais subir tão alto e esperar que tudo desse certo, esperar que o chão não fosse assim tão duro e confortavelmente aterrador.
A treta mesmo é manter-se vivo (outra boa tradução pro nome do blog, reparem, não é à toa).
Se você tivesse a possibilidade de sentir-se a pessoa mais feliz e realizada que já habitou o mundo por apenas dez segundos, o que você faria sabendo que após o prazo você voltaria a mergulhar no mar de lama que é a sua vida? Como você encararia todo o autodesprezo por saber o que você pode ser e ser apenas o que você é?
Não é retórica, não é só o refrão.