“Vêm os dias, vão os anos.
Apareceu um menino, enquanto eu afinava a guitarra, antes de começar a tocar. Ele insistia pra tocar depois da gente, última banda da noite, porque eles eram de são josé e estavam de passagem, eram punks, eram anarquistas e a favor de causas. Eu já tinha aceitado antes dele começar a dar outros motivos, mas ele ainda disse que seria uma satisfação imensa, que a galera ia curtir, que eram só três músicas, “ok, cara, agora calma”.
Quando terminei de tocar, passei a guitarra pro menino que disse a outro pra “chamar os punks lá” e, por milagre, uma pequena multidão de meninxs punks se arrumou dançando e cantando as músicas, gritando “Êra Punk” (uma espécie de “Viva!”) e sorrindo. Eu estava achando tudo meio insistência demais, o baterista tocava todos os componentes da bateria ao mesmo tempo o que fazia parecer que ele estava batucando numa carteira de escola. Tocaram cinco músicas, seis, acredito, por mais insistência de outro punk com um chapeuzinho que se destacava dos demais chapeuzinhos punks em questão.
Daí eu comecei a ver os caras dançando, as meninas dançando, gritando “Êra Punk” infinitamente, numa possível felicidade compulsória, cheia de bebida e ideais libertários. E pensei em mim, saindo de casa cansado, após sete horas de internet e depressão autoacusatória, colocando instrumentos no carro, pegando as cervejas de cachê, conversando sobre nada enquanto todo mundo ao redor fumava maconha, não tendo nada que me alegrasse completamente, a não ser A. ter reconhecido um cover que a gente toca da antiga banda dele.
Eu parei pra pensar que xs meninxs punks eram muito mais felizes que minha vida cheia de pequenas coisas sem direção. Eram bem mais felizes pogando e falando sobre a causa indígena, eram bem mais felizes bebendo uma garrafa dentro de um saco de pão. Imaginei um mundo em que tudo é novo, as questões sociais, a desigualdade, a revolta, o sistema, como seria novamente se rebelar por algo que você jamais sequer pensou em fazer. Eu fiquei pra trás, eu sempre fico. Senti um vazio imenso, como se nada mais valesse a pena, ou tivesse o mesmo sabor de verdade, eu senti o tempo fumegar pelos poros e me encher de uma névoa espessa como numa tirinha de jornal. Eu senti que não haveria qualquer palavra de conforto que destronasse a terrível sensação de se perder em algo que sempre foi completamente seu.
E foi a primeira vez em que eu pensei em parar.