em Pessoal

Até não doer mais

Rasgar a pele e triturar a alma. Ter bons motivos para ficar em silêncio assistindo as vísceras da sua dor se debatendo. E ter ainda mais motivos para não acreditar em nada. E para acreditar em como tudo faz sentido, como as coisas se encaixam. Ser pra sempre essa peça a mais no tabuleiro, que consome os restos, devora as bordas, a pedra no sapato, o botão de pause e slow motion em “festas que estive e ninguém me viu atirando bolo aos peixes”.

Daí ter novamente comigo. Ter uma saudade de estar num bar na esquina sem se importar com as caras que passam, sem se importar com a vida que se encerra, ou com lugares ou pessoas melhores com quem poderia estar. Sem se importar com o sorriso dela. Sem pensar “onde quer que esteja”.

Abrir o ferimento como quem abre um buraco na terra. E cavar fundo, para ver a escuridão e morrer por alguns segundos. E começar a jogar terra por cima. Terra, infinita terra. E reabrir sempre que necessário. E remendar todos os dias. A cada tapa da aposta. A cada violência autopunitiva.

Até não dar mais.
Até não doer mais.