Intocável

Muitas vezes me permiti pensar em ser alguém comum. Não hoje. Não nestes dias. O que me acontece é ser um troglodita com coração de menino. De um menino que nunca vai entender ninguém, nem se encaixar em nada sem aquela sensação de que, em algum lugar, alguém está vivendo essa merda de verdade.

Segundo A., eu preciso passar por este inferno absoluto (com essas palavras, porque A. é uma pessoa dessas ótimas de trocar uma ideia). Eu preciso viver e superar meus traumas, esquecer. Na base da Itaipava do mercadinho porque a vida nunca me foi assim tão doce.

Quanto mais pessoas conheço, mais me torno vazio. E me perco num monte de gente falando coisas que não concordo, ouvindo, presente, como quem assiste empolgado um teste de DNA no programa do Ratinho. Cercado de uma moda de não ser o que você realmente é, não assumir os erros, não desembestar na desenfreada sorte em apenas manter-se vivo. Todo mundo numa correria maluca atrás de uma personalidade. E eu aqui, nestas mal fadadas linhas tentando explicar a mim mesmo o motivo de ter escrito “mal fadadas” só porque fazia muito tempo que não lia esta palavra.

Hoje me torno intocável. Principalmente pela sensação de de estar quebrado como os rádios velhos em lojas de coisas antigas que vendem rádios velhos quebrados. Me torno intocável por já ter tentado demais viver vidas que não foram feitas pra mim. Construir histórias que, por mais bonitas que fossem, só me trouxeram angústia e madrugadas insones esperando mensagens que nunca mais vão chegar.

Me torno intocável porque é a condição que preciso para viver sem esperar mais nada. E ter histórias de verdade pra contar. Vou continuar chorando o gosto amargo dessa tristeza por um tempo, o problema é que não vai passar. A gente só vai em frente porque tem que ir e não existe outro jeito. Se fosse pra trás eu errava menos, fazia escolhas menos piores e até me divorciava dessa horrível sensação de que não tem nada pra mim aqui. O negócio é que, aparentemente, viver é assim mesmo.

Pastel ou Revolução?

Você passa a entender o preço da carne, do feijão, do tomate, mesmo quando ele ficou mais caro que dois maços de cigarro. E você entende o preço dos maços de cigarro, geral vai parando de fumar aos poucos. É a melhor deixa pra quem não parou depois da faculdade. Acredito que quando ficar no valor de um almoço no Capão – 7,99 num lugar justo ali pra dentro do São Bento -, é o meu limite.

A única gourmetização que não admito é a do pastel de feira (e a do Molejo, claro). Deve haver alguma explicação plausível, obviamente, mas não dá pra acreditar como um negócio tão rua se transformou de um jeito tão escrotamente desproporcional (acho que acabei resumindo o rap nacional também).

Poderia estar aqui sugerindo uma revolta social para a derrocada do sistema, mas sigo problematizando sobre o preço do pastel que vale mais a pena, afinal você pode criticar o capitalismo o quanto for, mas se na segunda-feira você está no seu trabalho pra ganhar o seu sustento e não morrer de fome você está automaticamente dentro do sistema. Por mais que não acredite, por mais que queira que tudo venha abaixo (e olha que são 29 anos nessa, amigo), existe sempre uma segunda-feira.

Além disso, o fato de ficar criticando o tempo todo algo do qual você faz mais parte do que imagina lhe faz parecer uma tiazinha de prédio que reclama de cada milímetro de inclinação dos carros estacionados, que liga na portaria às 22h30 se ouve dizer que vai ter uma festa (mesmo que não seja no seu prédio e que não tenha ouvido barulho nenhum). A mesma tia que pede umas regalias de vez em quando, deixa o neto estacionar na vaga dos outros, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”.

O que mais conheço é gente criticando o sistema desde que lhe resguardem o direito de frequentar os lugares badalados para suprir seus caprichos. Lugares cheios de gente servindo-se de refeições livres e ainda mais caprichos, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”. E voltam pra casa reclamando do capitalismo. Acho que o negócio nisso tudo é uma via de mão dupla em que você pode se jogar às armas e ir pra guerra ou simplesmente perceber que a vida não é exatamente uma reunião de condomínio para você ficar reclamando do zelador o tempo inteiro.

Aonde ficou a coerência deste texto: jamais saberemos (e quem achar ganha uma moto).

Marla

Ela chegou num dia destes e, obviamente, eu não sabia o que fazer, além de colocar a comida e água e arrumar um lugar pro banheiro dela. Digamos que antes disso ela impossibilitou o uso de dois lençóis da cama. Ainda assim, nos outros dias passou a respeitar o lugar em que dorme comigo.

Sim, ela dorme na cama comigo, porque ela é linda. Ponto final.

Ela curte mais comida “humana” do que ração (estava aqui lambendo o prato com molho de tomate agora mesmo). Ela olha pela janela da sala como quem diz “um dia vou pular esses muros e você está ferrado, meu chapa”. Além de me ajudar a recolher as folhas do quintal e estar sempre derrubando coisas importantes para o limbo das tampinhas de coca-cola retornável, ela esconde os brinquedos e come os restos de cabos P2 pela casa. E se aproveita do tamanho pra se enfiar no meu amplificador (acabou de aprender essa, uma fofa).

Por pensar nela como um bebê, como uma criança crescendo comigo, comecei a entender aqueles maneirismos de pai quando o filho pequeno chuta uma bola e o cara diz orgulhoso: NOSSA MEU FILHO É O NOVO NEYMAR ELE CHUTA AS BOLAS CARA, VOCÊ PRECISA VER.

Ainda assim, uma das paradas que preciso treinar em mim é não chamá-la de filha, ou de adjetivos que façam parecer que ela me pertence, como “minha gata”, “a gata que eu peguei”, sabe? Eu tenho (e compartilho sempre que posso) um pensamento de que os animais que vivem com a gente não são nossos. E, principalmente, não são nossos filhos, a não ser que você seja um gato também e esteja lendo isso de um tablet. E que se um dia eles pularem o muro e não voltarem, quer dizer que foram viver a vida deles de outra forma e, bem, você automaticamente já não é mais parte da vida deles. Partindo eternamente do princípio de que nada/ninguém lhe pertence, não existe mais decepção que não se cure. Ponto final.

Ela é a Marla, minha companhia e eu, companhia dela. E isso é pra sempre (ou enquanto durar o estoque de vida). Enquanto isso vamos levando mordidas e arranhadas, entendendo quando ela fica puta dizendo (porque na minha cabeça ela diz coisas) “mas o whiskas sachê custa 1 real tá ligado, mano, não tô pedindo muita coisa”.

E eu só respondo: “você me conheceu numa época muito estranha da minha vida”.

O anticristo

Daí minha mãe sonha com alguém dizendo pra ela que eu sou anticristo. E me manda uma mensagem de madrugada dizendo que eu preciso acreditar em Deus para que minha vida evolua, essas coisas, toda preocupada como se eu fosse o próprio Aleister Crowley.

E eu, culpado por um sonho dela, vou ter de pedir desculpas ou dar explicações por algo que jamais me passou pela cabeça.

Porque a vida continua assim, uma brastemp ótima, precisa ver. Vou começar a cobrar royaltie do porta dos fundos, porque certeza que essa vida que levo serve de base para uma ou outra esquete.

Deus, me livre.