Muitas vezes me permiti pensar em ser alguém comum. Não hoje. Não nestes dias. O que me acontece é ser um troglodita com coração de menino. De um menino que nunca vai entender ninguém, nem se encaixar em nada sem aquela sensação de que, em algum lugar, alguém está vivendo essa merda de verdade.
Segundo A., eu preciso passar por este inferno absoluto (com essas palavras, porque A. é uma pessoa dessas ótimas de trocar uma ideia). Eu preciso viver e superar meus traumas, esquecer. Na base da Itaipava do mercadinho porque a vida nunca me foi assim tão doce.
Quanto mais pessoas conheço, mais me torno vazio. E me perco num monte de gente falando coisas que não concordo, ouvindo, presente, como quem assiste empolgado um teste de DNA no programa do Ratinho. Cercado de uma moda de não ser o que você realmente é, não assumir os erros, não desembestar na desenfreada sorte em apenas manter-se vivo. Todo mundo numa correria maluca atrás de uma personalidade. E eu aqui, nestas mal fadadas linhas tentando explicar a mim mesmo o motivo de ter escrito “mal fadadas” só porque fazia muito tempo que não lia esta palavra.
Hoje me torno intocável. Principalmente pela sensação de de estar quebrado como os rádios velhos em lojas de coisas antigas que vendem rádios velhos quebrados. Me torno intocável por já ter tentado demais viver vidas que não foram feitas pra mim. Construir histórias que, por mais bonitas que fossem, só me trouxeram angústia e madrugadas insones esperando mensagens que nunca mais vão chegar.
Me torno intocável porque é a condição que preciso para viver sem esperar mais nada. E ter histórias de verdade pra contar. Vou continuar chorando o gosto amargo dessa tristeza por um tempo, o problema é que não vai passar. A gente só vai em frente porque tem que ir e não existe outro jeito. Se fosse pra trás eu errava menos, fazia escolhas menos piores e até me divorciava dessa horrível sensação de que não tem nada pra mim aqui. O negócio é que, aparentemente, viver é assim mesmo.