Ela chegou num dia destes e, obviamente, eu não sabia o que fazer, além de colocar a comida e água e arrumar um lugar pro banheiro dela. Digamos que antes disso ela impossibilitou o uso de dois lençóis da cama. Ainda assim, nos outros dias passou a respeitar o lugar em que dorme comigo.
Sim, ela dorme na cama comigo, porque ela é linda. Ponto final.
Ela curte mais comida “humana” do que ração (estava aqui lambendo o prato com molho de tomate agora mesmo). Ela olha pela janela da sala como quem diz “um dia vou pular esses muros e você está ferrado, meu chapa”. Além de me ajudar a recolher as folhas do quintal e estar sempre derrubando coisas importantes para o limbo das tampinhas de coca-cola retornável, ela esconde os brinquedos e come os restos de cabos P2 pela casa. E se aproveita do tamanho pra se enfiar no meu amplificador (acabou de aprender essa, uma fofa).
Por pensar nela como um bebê, como uma criança crescendo comigo, comecei a entender aqueles maneirismos de pai quando o filho pequeno chuta uma bola e o cara diz orgulhoso: NOSSA MEU FILHO É O NOVO NEYMAR ELE CHUTA AS BOLAS CARA, VOCÊ PRECISA VER.
Ainda assim, uma das paradas que preciso treinar em mim é não chamá-la de filha, ou de adjetivos que façam parecer que ela me pertence, como “minha gata”, “a gata que eu peguei”, sabe? Eu tenho (e compartilho sempre que posso) um pensamento de que os animais que vivem com a gente não são nossos. E, principalmente, não são nossos filhos, a não ser que você seja um gato também e esteja lendo isso de um tablet. E que se um dia eles pularem o muro e não voltarem, quer dizer que foram viver a vida deles de outra forma e, bem, você automaticamente já não é mais parte da vida deles. Partindo eternamente do princípio de que nada/ninguém lhe pertence, não existe mais decepção que não se cure. Ponto final.
Ela é a Marla, minha companhia e eu, companhia dela. E isso é pra sempre (ou enquanto durar o estoque de vida). Enquanto isso vamos levando mordidas e arranhadas, entendendo quando ela fica puta dizendo (porque na minha cabeça ela diz coisas) “mas o whiskas sachê custa 1 real tá ligado, mano, não tô pedindo muita coisa”.
E eu só respondo: “você me conheceu numa época muito estranha da minha vida”.