Beethoven, Cartas e Diários

Um livro um tanto boring, pra dizer-lhes a verdade. Beethoven – Cartas e diários é uma síntese das coisas que ele escrevia a outras pessoas (DÃR) e alguns rascunhos pessoais (estes sim, excelentes). Então você vai encontrar muitas cartinhas endereçadas a editores de música da época, cartas pedindo empregados e governantas, muita coisa biográfica que deve servir para estudiosos e fanáticos.

Tem um trecho excelente em que ele manda uma correspondência chamando a mulher de um cara pra sair (obviamente essas pessoas devem ter nomes e eu devia lembrar para descrever aqui), com o intuito de aproveitar o dia maravilhoso que se fazia. Na carta seguinte ele pede desculpas a ela e ao marido, dizendo que jamais imaginara que eles pudessem de alguma forma achar ruim (lembrando que ele convidou apenas a mina pra sair, não o cara) e ele não tinha a menor das más intenções.

Climão no século XIX, trabalhamos.

Com a surdez, foi tornando-se um cara chato demais, impaciente, desgostoso. Com a “pequena fama” como dizia, tornara-se estúpido com muitos ao seu redor. Respondia grosseiramente pessoas que lhe admiravam, mas pelas quais ele não tinha a menor afeição. Se achava o máximo por ter meio que adotado o sobrinho, quando o irmão morreu e a mãe não tinha a menor condição de cuidar do garoto.

É interessante de ler, mesmo com tantas trivialidades. No fundo, o interessante mesmo são as trivialidades que compuseram o gênio. E acabei descobrindo um monte de coisas, por exemplo que ele tinha uma parada de compor num lugar onde não houvesse um piano, para que ele não caísse na tentação de testar o que estava compondo e meio que perder a graça do negócio.

Tem a ótima passagem com Goethe, em que eles entravam num palácio de braços dados e deviam parar para cumprimentar os duques, mas Beets cochichou um “não devemos nada a esses fita, somos foda, eles que nos devem reverência” (obviamente não nessas palavras), mas Goethe desistiu, largou mão e foi falar com os picas. Beets, aparentemente, contava essa pequena história para todo mundo com um orgulho pueril de ter personalidade mais forte do que o poeta.

De todo o livro, o mais interessante mesmo é a forma com que ele fala sobre música, sobre arte. Sobre o quanto é preciso não apenas desmembrar a técnica e continuar estudando sempre, mas sobre o quanto é amplamente necessário entender a alma das coisas, dos compositores, dos gênios, alinhar o pensamento milenar que faz a criação musical ser tratada como uma espécie espiritualidade.

E tem um pano de fundo que acaba com o sonho de todo músico neste universo: o compositor da clássica nona sinfonia morreu pobre, nunca ostentou e meio que pedia favores pros editores, pros amigos, vivia de pequenos salários em tempos esparsos e não sabia quando receberia novamente. Um dos maiores gênios da música mundial teve uma vida quase pobre por viver de música e nego querendo assinar com o Rick Bonadio achando que vai ganhar a vida.

Fica a reflexão.

Ghost-free

 

“Porque quanto mais tempo sentada, mais o eco do mundo persiste. E quando você se levanta, ele se cala”, do excelente/mágico Pra Sempre, Por Enquanto

Esgotado deste último ano. Sério, fosse pra ter dado uma merda catastrófica, teria dado. E deu, em todo caso. Agora começo a me ajeitar e vem uma confusão toda maior na cabeça, obviamente mais relacionada ao amadurecimento real e não a trivialidades ou a tentar ajeitar-se onde você sabe que jamais se encaixaria. Nem em 800 anos de cursos preparatórios com mais 300 de certificação.

O que era preciso aprender, acredito ter aprendido das formas mais desconcertantes e constrangedoras possíveis. Aprendi que sozinho é extremamente mais fácil como eu havia previsto, embora seja bem mais pesado também. De qualquer forma o passado vai ficar onde sempre esteve, as pessoas vão embora e vai sobrar você, seu violão e uma gata rolando freneticamente no chão mordendo o que resta da sua mochila.

Um excelente momento para grandes mudanças (boa hora de perguntar a D. se a Folha está contratando pra escrever horóscopos também). Mudanças espirituais, sei lá, mas certamente territoriais. Eu não suporto mais estar aqui com estas sombras em mim. Se for pra ser calado, que seja num lugar em que nada fique falando tanto assim na minha cabeça.

No episódio 18 da sétima temporada de How I met your Mother (senta que lá vem spoiler – pare a partir daqui, essas coisas), Marshall e Lilly, casal que antes morava junto com Ted, está morando num município distante de Nova York, no subúrbio, numa vida meio solitária e loucos de vontade de voltar pra cidade. Ted, sozinho, após ouvir que o até então “amor de sua vida”, Robin, não o amava, decide deixar o apartamento para o casal, num gesto de carinho, por saber que eles queriam voltar. E principalmente porque ele precisava de uma mudança dessas. Sem avisar (pra dar aquela carga dramática boa que a gente ama), ele apenas esvazia o apartamento e deixa um bilhete:

Dear Lily and Marshall,

I don’t know if you know this, but I never took your names off the lease. Well, today I took my name off it.

The apartment is now yours.

And I think I finally figured out the best thing to do with Robin’s old room.

(nessa hora aparece o berço dentro do quarto – pois o casal espera um bebê)

See, for me, this place has begun to feel a little haunted. At first, I thought it was haunted by Robin, but now I think it was haunted by me. Well, no ghost is at peace until it finally moves on.

I need a change and I think you do, too. This apartment needs some new life. So, please, make our old home your new home. It is now ghost-free.

Love, Ted.

Ah, essa série é demais, sério.

Estou precisando deixar de ser esse fantasma para mim mesmo e superar o que não foi feito pra mim. Hoje eu saí da banda que mais me fez feliz em 2012, mesmo tendo dito que continuaria. Porque precisava aprender a tomar as rédeas de alguma coisa nessa merda (e precisava um dia desses ouvir aquela inbox diária da melhor amiga cansada de me falar que eu não resolvo nada, nunca – naquele nível de grosseria pedagógica que faz a gente meio que rever tudo do dia pra noite).

De qualquer forma, é melhor sair da cidade mesmo.
E eu tinha previsto tudo isso também.

A maré

Amar aos pares, aos amigos, amar aos passageiros do ônibus, aos cobradores e motoristas, garis (go garis!), moças do salão de beleza, moçxs da frente do shopping; amar gente reclamando na fila do hospital, meu vizinho que me pede a conta de luz bimestral, o pai, a mãe e a enteada na casa da frente, a pessoa que deixa papéis no vidro do meu carro abandonado na rua; amar quem se torna amigo demais sem perceber, quem já é amigo o suficiente pra sempre ser. Amar como se as merdas dessa vida jamais tivessem existido, ou como se tivessem sido levadas pra sempre.

Deixar de entregar amor como uma carta preciosa para uma só pessoa, em um só mundo, para assim entregar o amor como um trivial e corriqueiro folheto de farol.

(e amar Camila e Danilo  que me convenceram de que este blog estava pesado demais)