Levanto cedo, arrumo a louça, ajeito a comida dos gatos, coloco o café pra fazer enquanto tomo banho. “Você não precisa me dizer o quanto meu café é bom. É Bonnie quem compra porcaria, ok?”, diz um Tarantino vivendo o papel que criou para interpretar. Sento no sofá com tudo pronto e apenas a difícil escolha de um álbum pra começar um dia mais cinza que os outros, mais nublado e mais frio.
Abro a porta da varanda pros gatos brincarem. O vento agora balança uma árvore linda de frente pro apartamento, balança também um resto de pipa dos garotos pequenos que não sabem o que fazer quando a linha começa a pegar força. Eu lembro do Silas cortando minha linha quando meu pipa atrapalhava o dele no ecossistema de pipas que criávamos nas férias.
Tem uma nesga de luz vindo na parede, uma luz laranja do sol que ainda não foi encoberto pelas nuvens. O café começa a esfriar, a música aumenta um pouco, fico com medo de acordar os vizinhos. Lembro que meus pais vêm me visitar neste final de semana e talvez eu perca o churrasco dos amigos. A luz aumenta, criando uma espécie de esperança estética. Eu lembro do futuro “será que tem um intensivão pra ser adulto? Eu me matricularia” era a conversa de umas semanas atrás.
Passo a gostar dos pequenos barulhos que os gatos fazem ao brincar com as sacolas no chão. Gosto cada vez mais do clima que a música me traz. E o sol se esconde novo, o crossfader me leva a “optmistic”, simbólica. Lembro de todo mundo ao mesmo tempo, de cada piada não entendida, de cada banda que não deu certo e de todos os que ficaram pra trás. Dos amigos que ainda não conheci e que já me fazem tanta falta.
Preciso chegar cedo ao escritório, “só essa caneca e já era”. Agradeço pelo dia que começa, pela casa, pelos gatos, pela família, nesta ordem. A pequena esperança da casa em ordem me traz um alívio imediato pra seguir em frente, pra esquecer o que quer que tenha me tornado fraco com o pesar dos anos.
Está tudo em seu devido lugar.