Você está sentado esperando uma moça entrar na sala e lhe fazer perguntas sobre os lugares em que você trabalhou nos últimos anos, como você conheceu a empresa, enquanto você responde assistindo ela jogar os cabelos e bater a caneta na mesa prestando atenção como se todas aquelas informações vazias sobre como você se esforçou na vida curasse os males da alma. Até que então, ela deflagra a pergunta que estreia mais este quadro aqui no caldeirão esta série de posts despretensiosos acerca de assuntos aleatórios e praticamente sem função social:
Como você se imagina daqui a 5 anos?
Bem, moça veja bem, sentado numa mesa como essa respondendo uma pergunta como essa é que eu não gostaria de estar. Na verdade, se eu ficasse conjecturando qualquer otimismo sobre meu futuro eu sairia perdendo, uma vez que, veja, a vida nunca me sorriu o suficiente para que eu não precisasse ter de conversar sobre meus empregos anteriores numa salinha como essa.
Digamos que eu aceite o seu jogo e queira lhe dizer sobre novembro de 2019, carros voando, telefones-implante, talvez um dropbox ilimitado. Um mundo diferente, uma guerra diferente, gente diferente falando diferentes baboseiras sobre assuntos sem valor. Eu me imagino vendo o mundo com essa mesma adolescência que Deus me deu, querendo apenas uma conversa sincera que me tirasse do tecido da realidade às vezes, um violão manero, meu pequeno home estúdio e uma felicidade constante de poder chegar na alta cúpula e entrar sem pagar simpatia, como dizia o brown já quase duas décadas atrás, mas não me entenda errado, por “alta cúpula” eu quero dizer aqueles desconhecidos que sabem exatamente do que precisam pra viver e não a Ivete Sangalo.
Possivelmente pouco ou nada dessas coisas vão acontecer, porque a vida não evolui conforme os anos que vão passando então poder ser que eu consiga qualquer coisa que eu disser nessa entrevista em um ou dois anos ou pode ser que eu jamais consiga e nada disso quer dizer que fracassei, mas quer dizer que mesmo sem ter tudo o que quero, eu consegui chegar a este mesmo dia cinco anos no futuro encontrando formas de me sentir menos derrotado em comparação com o mundo.
O mais provável mesmo é que eu esteja me lembrando desse dia cinco anos atrás e solte um semisorriso com um ar de inexistente superioridade e diga pra mim mesmo: azideia.