2014

No fim das contas, um ano de reconstrução. Comecei 2014 arrumando a caverna, deixando com uma cara minimamente agradável e me preparando para um tempo maior do que realmente fiquei por lá. Começava o ano depois de um fim de relacionamento febril, torturante, sei lá se existe alguma palavra boa pra resumir toda aquela neurose.

Acabei deixando de lado o diário preto em que eu me exibia pra solidão, ouvi uma palestra de Kenan e foi em meio a tanto choro dentro das paredes que Marla chegou pra me salvar dessa escrotidão. E estava lá eu, com um trampo novo, na mesma vida sozinha e autodepreciativa de sempre. Nessa época minha mãe sonhou que eu era ~anticristo e me culpou por tudo (o que certamente foi plagiado pelo Porta dos Fundos esses dias).

Comecei a trabalhar longe. Quer dizer. Eu já trabalhei longe. Em lugares que tinha de pegar trem, metrô, ônibus que passava pela estrada. E dessa vez me superei, passando quase dois meses indo do Capão Redondo a Cajamar, acordando às 3h30 da manhã por causa do horário bacana do fretado. Somo isso a todo aquele choro que ainda tava em casa, toda aquela angústia nas paredes, toda aquela solidão da feijoada de sábado. Já não havia mais fantasmas, eu era o fantasma. Aí, better leave town né mano.

Daí eu tinha uma casa nova, num emprego novo numa cidade nova. E uma sala cheia com minhas de coisas espalhadas pelo chão. Minha mãe fazia um pão com salame enquanto eu ajudava meu pai a colocar as coisas no lugar. A casa era só minha mesmo. Eles estavam lá porque vão ser sempre assim.

Me lembro que deixei de escrever aqui nessa época. Copa do mundo, pré-eleições. Não era bem a falta de assunto, era mais a falta de vontade aliada a uma preguiça insuportável das opiniões alheias. E de repente, num dia que acordei sem despertador, fiz café e coloquei um radiohead no spotify, percebi que estava tudo bem.

2014 foi o ano em que eu tinha de ter levado mais coisas a sério. Foi o ano em que saí do Sig Sauer também, a última banda em atividade. O ano em que eu deixei de comprar carne no mercado (e abandonei a recente prática da linguiça calabresa em cubinhos). Tentei o vegetarianismo, na verdade ainda tento, mas não me liberto dos fast-foods primários.

Foi o ano em que passei a viajar 45km e pagar dois pedágios para encontrar meus amigos. O ano em que tirei o Mastodon e coloquei no Sensação ao vivo sem a menor culpa. 2014 provou que esquecer os traumas e ver a vida por outro ângulo que não seja o de minha plena miséria fez/faz as coisas andarem pra frente de verdade. Fez com que eu me enxergasse uma pessoa no espelho. Ainda que uma pessoa carregada de bagagens emocionais não resolvidas, um malucão™ que acredita ao menos em si mesmo.

Portanto começarei 2015 com uma esperança-monstro no coração.

Obrigado a todo mundo que leu isso, ou que leu qualquer coisa neste blog atemporal, nada fictício e completamente despretensioso.

Loca-tário

O cara que me alugava o quarto e cozinha em que eu morava em 2013 é um maluco abençoado (da igreja episcopal batista de whatever). Um senhor que não sabe exatamente conversar e, como aquelas moças do Habibs, ouvem o que querem ouvir e não exatamente o que você está dizendo. E dia desses o encontrei por azar no condomínio dos meus pais.

– Oi menino, estamos arrumando a casa lá, viu, se quiser dar uma olhada!
– Ah é, ficou legal lá? (minha cara nesse momento por ter topado com fulano no caminho ¬¬)
– Aumentamos, arrumamos problemas na estrutura, estamos construindo em cima agora. Vai ficar muito legal, passa lá pra ver.
– Então, eu me mudei esse ano (da casa que o senhor me alugava, logo, o senhor deveria saber disso) então o contrato ainda vai bem longe.
– Ah, mas isso do contrato é bobagem, muito errado quem faz isso. Passa lá!

Contratos de aluguel direto com o dono são uma maravilha e ao mesmo tempo uma merda inacreditável e querem dizer que (a) caso o cara seja gente boa, você poderá mudar assim que precisar sem pagar qualquer multa ou (b) o cara pode te fazer sair porque o sobrinho dele está na cidade e precisa de lugar pra ficar e você que se dane, se vira, ninguém nasceu quadrado. Já os contratos de imobiliária dão alguma garantia. E você pode quebrá-los, desde que pague a multa, todos saem sorrindo.

Obviamente eu não pagaria essa multa.
Nem voltaria para essa casa.

Digamos que estava tudo bem quando mudei pra lá no ano passado. Quer dizer, eu estava numa fase terrível, fazendo um home office ligeiramente desagradável e tirando um dinheiro que mal dava pra pagar as contas. Então eu suportei o chuveiro fraco, os pequenos alagamentos que estragaram minhas caixas de som, as baratas confiantes, as contas de luz confusas até conseguir sair de lá. Era onde eu devia estar e – por ter matado aquela mariposa gigante no sítio do Leo e adquirido um karma do universo – eu meio que merecia.

– É que eu… er, bem, meu irmão mudou faz bem pouco tempo e ficou procurando aluguel por aqui um tempão, mas agora também tá nessa.
– Ah sim, mas vai lá sim, dá uma olhada, você vai gostar.
– Bom, beleza, passo sim (já entendendo que o maluco não tinha ouvido uma palavra minha e eu não estava dando a mínima para como estava aquele lugar).
– Tá, vou avisar lá que você é prioridade.

A vontade era responder “tá bom, a gente vê um dia pra eu subornar a dona do meu apartamento e ameaçar a família dela caso ela me cobre alguma multa (muito Sons of Anarchy na cabeça, eu sei). Dando tudo certo em breve eu volto a morar nos fundos desse sobrado com as baratas que me são de direito só pro senhor ficar feliz”.

Do jeito que fulano é desatento às ironias da vida, subiria pra casa e já deixava o contrato pronto.

Gente, a pessoa que eu tirei…

Dentre os meus menores e mais específicos pavores está aquele momento das festas de fim de ano em que é preciso fazer um jogo de palavras dando dicas sobre a pessoa que você tirou no amigo secreto. Um quase sempre falso, politicamente correto e bizarro mar de lama em que fulana só tem boas qualidades e você não pode lembrar a todos como ela foi a retrógrada idiota pedindo pra dividir o Brasil depois das eleições.

Esse ano pensei em fazer uma apresentação marilia-gabrielica da pessoa em questão, trocando apenas a frase “a pessoa que está aqui hoje comigo” (eu sei que você leu a frase imaginando a voz da Marília Gabriela) por “a pessoa que eu tirei”. E daí usar montes de palavras complexas, talvez até algumas expressões em latim ad infinitum, falar da áurea de artista, da afeição às grandes coisas da vida, do resplandescente olhar de quem está sempre pensando no futuro. Me contrata, Marília.

Obviamente ninguém vai dizer que tirou fulano pegador que trai a mulher todo final de semana, ou fulana que passou o rodo em todos os estagiários na festa da firma, uma vez que não estamos num vídeo do porta dos fundos. Eu mesmo detestaria. Me chamariam de petralha comuna volta pra cuba gordo sem noção que faz trocadilho com tudo e come mal à beça. Imagine todo mundo gritando euforicamente descobrindo quem é enquanto você caminha lentamente e cabisbaixo em direção ao seu amigão pegar aquele porta retrato de vidro com frase bíblica que ele sabia que você ia adorar.

Outro ponto são os valores-limite. Você vai escolher presentes de 40 reais e as pessoas vão sempre acabar pedindo coisas mais caras. Eu sou do tipo que acha mesquinho pedir de volta os 15 reais a mais que gastou com o presente. Qua acha que o 13° salário vai durar pra sempre. Do tipo que vai comprar pelo menos dois presentes, porque não fica tão mais caro assim. E acabo sempre ganhando aquela camiseta tamanho médio da loja de departamentos que o broder secreto achou demais e eu talvez acabe usando como tapete no banheiro (embora Fefa e Shu tenham me convencido a gastar apenas o limite esse ano, obrigado a todas as envolvidas <3).

Agora você me pergunta: pô, mas sabendo de tudo isso você ainda participa dessas coisas? Aí que te respondo sobre como é maravilhoso ser um experimento social de suas próprias más escolhas e acabar tirando um amigo secreto bem reaça, no melhor estilo pobre de direita (‘bochecheiro’ diriam meus amigos indicando que pobres de direita curtem um membro fálico batendo em suas faces rosadas) com pensamentos no nível tiozão do assunto desconfortável – vocês conhecem o tipo.

Mais maravilhoso ainda, veja, os presentes que pedi esse ano não são convencionais. Não é como se eu tivesse pedido um acústico do Charlie Brown Jr. ou do Emmerson Nogueira (note aí minha rasa referência de artigos pop dentro de uma megastore). Portanto, depois de ter entregue o meu presente ao fulano, vou passar a noite com o resultado desta sequência de escolhas pouco divertidas: um belo e insensível vale-presente da Saraiva.

UPDATE porque este blog é comprometido com a verdade e estou aqui levantando a plaquinha de “eu já sabia”:

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Tadinho

Algumas vezes tenho um medo repentino da morte. Algumas duas ou três vezes por dia, pelo menos. Não o medo do terror, do apagão, mas o terror da inexistência. Toda a decepção que daria familiares e amigos, morrendo de uma causa banal como ter pedido uma pizza que parou-lhe o coração, “tadinho”.

Um terror de coisas comuns, como quem vai dar comidas para os gatos antes de descobrirem minha tragédia. Então eu penso nos gatos sozinhos, se acomodando sobre o meu corpo distorcido e já involuntário. E os trâmites financeiros. Minha conta negativa, o smartphone novo que preciso pagar para minha mãe, meu limite estourado, quem vai ter de lidar com isso? Vou embora e ficam aqui as minhas inconsequências financeiras. Partiu desta devendo, “tadinho”.

A morte é essa coisa pouco prática para todas as partes. Não é como se fôssemos embora e houvesse um processo que tomasse conta de tudo, sumisse com os corpos instantaneamente. Imagina que louco se ao invés de pagar todas essas pequenas contas, reconhecer corpos e assinar papéis, tivéssemos apenas que lidar com a falta insuperável e única de alguém que esteve sempre aqui e agora não está mais. É preciso borrar de lágrimas documentos impressos em papel sulfite, comprar flores do tiozinho antes de entrar no cemitério, talvez até acertar com alguém o preço do jazigo. Não podia bancar. Morreu cedo, “tadinho”.

Já que adentramos este lado do meu cérebro, outro pensamento que sempre me ocorre é o fato de que, cinquenta anos depois da sua morte, as pessoas vivas que vão lembrar de quem você foi já devem estar praticamente todas mortas. A não ser que você marque a história de alguma forma. E convenhamos que gastando tanto tempo em empregos e pequenas diversões a gente acaba meio que sem disposição para marcar a história de alguma forma.

Cinquenta anos depois da sua morte você poderá contar nos dedos as pessoas que se lembrarão das suas principais conquistas. Daquela vez que acertou o enigma do garçom naquele bar atrás do shopping Morumbi. De como foi legal aquele show do Foo Fighters no Jóquei em que vocês roubaram uma placa na saída.

Vai ter mais gente numa democrática manifestação pró-ditadura (sic) do que gente lembrando das suas pequenas e ínfimas glórias perante a história. Não tinha tempo, “tadinho”.

Campanha de vacilação

Desde que mudei para a linda, pacata e funkeira cidade de Cajamar estou buscando todos os meses no site da prefeitura alguma informação sobre a vacinação de cães e gatos local, uma vez que fica meio inviável ficar viajando com os gatos no carro por muito tempo (“meio inviável” pra eles que não se sentem bem com o calor de dentro do carro, eu mesmo acharia ótimo vê-los tomando vento na cara – desde que de maneira segura obviamente não me julguem, credo vcs).

Daí teve um mês que eu não acessei o site deles. Sim, o mês antes do natal, o mês da Black Friday, o mês em que pegam a cabeça do redator de e-commerce e jogam aos porcos e depois devolvem. No mês de novembro não acessei o site da Prefeitura pra saber se já havia alguma data disponível.

Tendo isso em vista, gostaria que adivinhassem em que mês foi a campanha de vacinação.

Valendo.

Cracking Music Chronicles #2 “Home, Money, Love”

Adquiri o costume de colocar um som do celular durante banhos no escuro (já contei dos banhos no escuro? Talvez a melhor maneira de pensar na vida). O EP do Better Leave Town é realmente a escolha mais eficiente para o estado de espírito em que me encontrava nos dias mais pesados desse ano.

Já adianto que esta certamente é a banda que mais ouvi em 2014 também. Já falei pra muita gente que é o novo Foo Fighters, que devia abrir o show daqui, banda de estádio, cara, banda-de-estádio! Um som tranquilo, embora com guitarras distorcidas e muito sentimento, uma banda linda, pra mim, capaz de shows em grandes festivais, banda que não dá pra entender como pode ser desconhecida, ou pouco famosa, ainda que nos meios hardcore seja uma das grandes.

Home Money Love traz três músicas tão completas com os sentimentos complexos de olhar sua companheira reclamar do trabalho e tentar acreditar que vai ficar tudo bem, que o dinheiro vai dar, desejar um dia bom, mesmo sabendo que o trabalho vai ser uma merda, que vamos ficar tristes de ver o dinheiro ir embora com o vento. Em “Memories and numbers” eu estava no chão do box, lamentando cada sonho e cantando “and I hate myself for all the plans I made, for things that never change”. Talvez não haja saída. Era escuro, era água caindo nas costas e a sensação de não ser nada.

No ano passado, por muitas vezes tive vontade de quebrar a casa inteira. E não digo isso poeticamente, digo isso porque pensava em como estaria a estante por cima do sofá ou a geladeira da porta estourada, mesa da cozinha, meu pequeno armário, eu sentia uma indescritível raiva e “Mr. Banana Monster” me trazia de volta, ainda sendo uma bem triste, uma balada sobre alguém que perde “who’s gonna be the first one to cross that door?”, eu tentava me levantar, dizendo a mim mesmo que as coisas precisavam ser do jeito que viriam e “good night, sleep tight”.

Landless Hearts me zerou. Com a empatia por uma canção feliz que diz “Just give a man a place to go like a reason to live. So take this reason and he will drown set adrift on his own fears”, me levantei, tomei uma água gelada no rosto, a coisa parecia revigorar a vida, eu já cantava os backing vocals “cold eyes, staring inside”, vendo a mim mesmo uma luz dentro que parecia vir do infinito, mas vinha do vizinho que acabara de entrar no banheiro da janela que dá pro meu prédio.

Porque a vida é bem menos milagrosa e poeticamente bela do que a gente acredita.