em Pessoal

Tadinho

Algumas vezes tenho um medo repentino da morte. Algumas duas ou três vezes por dia, pelo menos. Não o medo do terror, do apagão, mas o terror da inexistência. Toda a decepção que daria familiares e amigos, morrendo de uma causa banal como ter pedido uma pizza que parou-lhe o coração, “tadinho”.

Um terror de coisas comuns, como quem vai dar comidas para os gatos antes de descobrirem minha tragédia. Então eu penso nos gatos sozinhos, se acomodando sobre o meu corpo distorcido e já involuntário. E os trâmites financeiros. Minha conta negativa, o smartphone novo que preciso pagar para minha mãe, meu limite estourado, quem vai ter de lidar com isso? Vou embora e ficam aqui as minhas inconsequências financeiras. Partiu desta devendo, “tadinho”.

A morte é essa coisa pouco prática para todas as partes. Não é como se fôssemos embora e houvesse um processo que tomasse conta de tudo, sumisse com os corpos instantaneamente. Imagina que louco se ao invés de pagar todas essas pequenas contas, reconhecer corpos e assinar papéis, tivéssemos apenas que lidar com a falta insuperável e única de alguém que esteve sempre aqui e agora não está mais. É preciso borrar de lágrimas documentos impressos em papel sulfite, comprar flores do tiozinho antes de entrar no cemitério, talvez até acertar com alguém o preço do jazigo. Não podia bancar. Morreu cedo, “tadinho”.

Já que adentramos este lado do meu cérebro, outro pensamento que sempre me ocorre é o fato de que, cinquenta anos depois da sua morte, as pessoas vivas que vão lembrar de quem você foi já devem estar praticamente todas mortas. A não ser que você marque a história de alguma forma. E convenhamos que gastando tanto tempo em empregos e pequenas diversões a gente acaba meio que sem disposição para marcar a história de alguma forma.

Cinquenta anos depois da sua morte você poderá contar nos dedos as pessoas que se lembrarão das suas principais conquistas. Daquela vez que acertou o enigma do garçom naquele bar atrás do shopping Morumbi. De como foi legal aquele show do Foo Fighters no Jóquei em que vocês roubaram uma placa na saída.

Vai ter mais gente numa democrática manifestação pró-ditadura (sic) do que gente lembrando das suas pequenas e ínfimas glórias perante a história. Não tinha tempo, “tadinho”.

Escreva um comentário

Comentário