Apenas finalizando o descontentamento sobre o carro no post anterior. Depois de ter trocado o pneu às 7h da manhã explodindo com a minha programação, cheguei no escritório e meu computador não funcionou. O cara da TI descobriu que possivelmente havia queimado minha placa de rede. Pediu pra fazer um backup de tudo o que tinha no computador. Um backup. Com aquele monte de vídeos meus tocando violão, episódios de game of thrones que nunca levei pra casa, ensaios em mp3, músicas gravadas no celular pra mostrar pros amigos. Caio Fernando Abreu disse que um filho da puta sem arquivos no computador é um filho da puta que reiniciou a própria vida (proj. Leo Polisson de frases aleatoriamente inventadas para Caio Fernando Abreu). Como se não bastasse a pressão de ter de escolher entre arquivos que caberiam no meu pen drive, havia um cara me esperando para fazer isso. Acabei deletando quase tudo. Peguei o disco do Leo Middea que tinha acabado de levar pro trampo. Meu setlist do pode pá pro próximo show (ninguém vai lembrar, mas é bom sempre ter em mente). Duas fotos. Rascunhos e Excéis (pior palavra possível, desculpem). E mais nada. Daí o cara instalou um computador novo. Obviamente não funcionou e esta foi a história de como perdi todos os meus arquivos sem a menor necessidade, mas você também não esperava um final feliz aqui, vamos ser sinceros.
maio 2015
parada solicitada
Meu carro acabou de sair do conserto (pensei em escrever “concerto” pra vocês imaginarem um Autobot descendo as escadas do municipal dizendo “essas missas de Mozart já foram melhores”).
Acho que não falei da cena em que o carro pegou fogo (se falei, superem). Calma. Não foi comigo dentro, não foi nem sequer por inteiro. Aconteceu uns meses atrás, quando tentei dar a partida e senti cheiro de gás. Saí pra abrir o capô e estava tudo em chamas. Resumindo uma história cuja moral é “jamais confie em seu extintor”, eu acabei conseguindo apagar.
Isso posto, eu passei a conhecer as formas de transporte coletivo da minha nova cidade. Cajamar tem muitos ônibus intermunicipais cuja passagem custa um kinder ovo (referências adultas, não trabalhamos) e uns três ou quatro municipais, cujo valor é mais sensato (se você julgar 3,50 sensato, obviamente). Neste ínterim conheci motoristas e cobradores e horários e pessoas. E maneiras de ir até o Capão Redondo sem estressar demais.
Foi uma boa época para entender melhor tudo por aqui. Eu ainda não tinha vivido o quoeficiente rua da cidade. O frio dos pontos de ônibus, a absurda subida a pé até o condomínio, que faz a subida do Horto do Ipê parecer uma escadinha rolante de shopping center.
Daí o carro volta com a bateria semi exausta por meses fora de uso. Os freios gritam por pastilhas novas. Fazem um barulho tão intenso que assusta os passantes. O pneu furou na segunda-feira, vejam vocês. E a minha falta de otimismo para com este meio de transporte está sendo completamente enterrada.
Apparently, it’s time to VAI DESCER, MOTÔ!
meu amigo troll #002
Passei por umas boas com meu amigo troll desde a última vez que falei dele por aqui. De um encontro às avessas na Augusta em que ele era carregado bêbado por moleques que já não suportavam mais o fardo de ter que literalmente carregá-lo, passando pelas noites em claro em que estive com ele em bares e locais excelentes conhecendo pessoas as quais jamais teria contato nessa vida, até o dia em que brigamos e paramos de nos falar por quase um dia inteiro. Abaixo, a prova de que meu amigo troll é a pessoa mais divertida deste universo:
E a pergunta que fica é apenas: mano, onde você encontra essas pessoas?
duas coisas que odeio
O grande problema do cinema nacional não é que os filmes não tenham final. Não é também que tenham um final autoral que fala muito sobre a alma do diretor ou do escritor ou do bezerro que o porteiro do estúdio deu de presente pra filha. O grande problema do cinema nacional não é o fato dos personagens sempre parecerem estar em um certo lado B das novelas da globo, nem o fato de terem umas atuações tão básicas e, no máximo, medianas, muitas vezes pelas limitações de uma história sem profundidade. O grande problema do cinema nacional não é contar histórias que se passam apenas em comunidades carentes ou em coberturas luxuosas de Copacabana. O grande problema não é pegarem franquias-lixo (se é que você pode dizer que “Se eu fosse você” é uma franquia) para torcerem até sair o último centavo do último merchandising do último programa da série que também inventaram pra cavar mais dinheiro de um público que ainda dá risadas de qualquer bobagem seja ela preconceituosa, disseminadora de ódio ou coisa que o valha. O grande problema do cinema nacional é o Lázaro Ramos fazendo todos os papéis principais o tempo todo.
*
Eu detesto o trampo de Romero Britto. Sério. Na real, eu detesto trampos que tem um trabalho exterior maior do que as próprias obras. Romero Britto é uma marca, com uns coraçõezinhos e montes de cores. Pra mim. Não esquenta, eu não vou reclamar da sua bolsa temática, ou do seu tênis com as cores alegres. Entrei no bolo das pessoas que o odeiam quando saiu aquela entrevista dele se comparando a Picasso (o PDF ainda está no site, veja bem). Esse Noel Galagher das artes disse que era parecido com o cara que aprendeu a pintar antes de aprender a andar. Que é tão lutador quanto o cara que foi dado como morto no nascimento e voltou a respirar depois de um tio ter assoprado a fumaça do charuto em sua boca. Aí, tudo bem. Semana passada rolou um nerdcast sobre a vida desse fulano e eu ouvi entediado como o último usuário de uma lan house esquecida no centro de São Paulo. Tinha toda uma cara institucional e tava realmente chato. Então ele passou a dizer sobre a infância, sobre como era difícil ouvir ordens de seus irmãos mais velhos, sofrer bullying por gostar de desenhar etc. Me compadeci. Entendi a história do cara como a de alguém que conseguiu se libertar de amarras sociais e trabalhou para que suas obras ganhassem o mundo. Acho que me vi desolado com a possibilidade de alguém tão preopotente ter um background ao menos minimamente gente boa.
solidão em pequenos atos
Você tira ela pra dançar. Pensa em contar que a ama secretamente. Ouve no fundo da sua alma algo irritante dizendo que não, é melhor ficar assim mesmo, chega desses traumas. Você ignora, vem dar valor ao que é bom nessa vida, cara. E diz pra ela. Ela encosta a cabeça no seu ombro ao mesmo tempo em que manda um tsc, baixinho. Diz seu nome antes de completar uma frase sobre como vocês jamais dariam certo juntos ePERA É O RENATO ALI? A moça te larga e corre para abraçar um cara que você sabe que ela adora. Você acena pros dois sorrindo, caminha em direção à mesa, olha pro copo, assiste as pedras de gelo rodando e se debatendo. Imagina uma miniatura sua sobre uma ilha em que só cabe você, segurando uma flor na mão direita. Cenas de amores despedaçados sempre têm uma flor coadjuvante. Só dá pra ver um mar imenso de bourbon e pedras de gelo que seguem rodando e se debatendo. Você manda o último gole e deixa o copo na bandeja do garçom que passa no mesmo momento. E pega outro copo. Quem dera fosse o último.
*
É tarde. O posto de gasolina parece estar fechado, mas pelas luzes, é só falta de movimento mesmo. Você pede os cigarros de segunda linha que aprendeu a fumar depois que aumentaram os preços. A moça do caixa diz que parou de fumar. Você não perguntou, mas ela diz que passou a sentir o gosto das coisas. Você acha poético e diz que fuma pouco. Pega o troco e agradece o cigarro. Ao entrar em casa, joga dois maços no lixo, junto com qualquer esperança de um sábado decente. Senta no sofá e põe o primeiro episódio de Demolidor enquanto o gato decide caminhar pela sala. Ela olha pra você soltando fumaça do nariz. Continua a caminhar em direção à janela, onde finalmente pára e se deita sobre uma caixa de som roída pelo tempo. Você estica as pernas no sofá e dá outro trago. A TV congela a cena, a internet cai, você derruba o cinzeiro quando se move. Recolhe o lixo, caminha à meia luz pelo corredor da casa. Seu mundo desabou faz tempo e você sequer notou.
1001
Eu: ninguém é mais sentimental que a gente amica
Shhu: <3
o foda é que eu tô tentando entender o meu modos operanti
tipo onde o monstro começa a nascer, etc
pra evitar a fadiga nos próximos capítulos da vida
(acho que é o certo modus operandi, na verdade)Eu: (é isso! hahahahh)
é, o meu eu descolei. eu me perco nas pessoas. mas tipo me perco muito. passo duas semanas e é como se estivesse junto há cinco anos. parece bonitinho, mas só fode a gente.Shhu: É ISSO!
nossa, cara, é muito isso
o foda é quando a pessoa ainda faz pézinho pra você pegar impulso e mergulhar mais fundo, né?
ai você vai com todo impulso, achando que vai dar um triplo mortal carpado perfeito, e no fim bate a testa no fundo da piscina de chorume
fuééénEu: sim e aí vem o problema que as pessoas não entendem o peso de compartilhar um tempo de vida com o outro. fazem pezinho. compram a escada. e vc sobe, às vezes elas sobem junto, mas a escada é delas. elas descem a qualquer momento e vc pode ficar lá sozinho e ter que se jogar e dar de cara no chão.
“suponho que estamos alto demais, pra que diabos inventamos subir aqui“Shhu: essa metáfora da piscina é ótima
hahahahaha
dava pra fazer um textinho já só com essa nossa conversa, huahauhaEu: dava fácil hahahahahahaha
E nem precisou de textinho.
<3
(Shuliana está também com um excelente/novíssimo blog pessoal, o milieumatretas, indico a todos os fiéis quatro leitores deste blog – incluindo ela =P)
Sabor pé
Eu sinto uma necessidade de fazer este blog tornar-se algo como uma coluna semanal. Que esta semana falaria dos professores no Paraná e daquele grotesco senhor que eles elegeram governador no primeiro turno. Ou teria um outro assunto genérico e básico de formação pessoal, social ou humana. Abordaria temas inteligentes com a profundidade ou a retórica de um bom usuário do Medium, mas com a linguagem mais humana, palpável, mais conversa de bar. E tudo o que eu consigo pensar no momento para atualizar este website é sobre como eu comprei um salgadinho de pizza na hora do almoço e o cheiro de chulé contaminou o escritório inteiro.
Melhor diário.
mas veja pelo lado positivo
Meu karma profissional certamente será escrever e-mails cheios de códigos html, setas e print screens para ninguém entender e ficar absolutamente desconfortável de vir falar comigo e dizer “pô, cara, mas precisava mesmo de tudo isso? a galera tava de boas aqui curtindo um facebook, saca? que brisa roubada, cara”.
Voltar de férias certamente não me fez lá muito bem. S. disse que é uma fase e vai passar, acontece às vezes isso de querer mudar o mundo, ou o ambiente da empresa, ou tudo o que você está vendo de errado e ninguém sequer vai dar o braço a torcer, porque é melhor deixar as coisas como estão. O que acaba acontecendo também é a indiferença alheia se tornar um tsunami de merda em cima das suas expectativas (quem criou mentalmente a imagem de uma onda de fezes vindo em sua direção bate aqui o/\o).
Eu, daqui da minha mesa, vejo que o tempo faz da gente mais derrotado, mais quieto, mais submisso. Eu tive 20 dias inacreditáveis nesse último induto. Eu vi meus pais e meu irmão tantas vezes quanto pude, vi muitos dos melhores amigos do mundo, frequentei o futebol de terça, gastei quantias inenarráveis com festas, shows, pequenos vícios e cervejas de qualidade duvidosa, as quais estarei pagando com pouco arrependimento pelos próximos meses. E eu, honestamente, estava com vontade de voltar logo a trabalhar.
Pode ser idiossincrasia, mas pode ser só idiotice também.
Deixe de lado esse baixo astral erga cabeça enfrente o mal que agindo assim será vital para o seu coração a minha objeção por este mundo corporativo mesquinho. Por mim, este trampo de redator duraria 3 horas diárias e poderia ser feito do celular, mas quem sou pra falar qualquer coisa nesse sentido, Domenico de Masi?
Daí você volta para um mundo em que as pessoas não se conversam, mal se olham, não trabalham tanto em equipe quanto você imaginava que elas devessem trampar. Cada um está batendo suas pequenas metas, detestando barulhos diferentes do comum comendo em suas marmitas de plástico e indo embora pro fretado. Reiniciando tudo às 6h. E você vai falar o que acha que tem de falar, vai mandar e-mails cheios de print screens e boas ideias. Vai se empolgar com a ideia de alguém se empolgar com as suas ideias e fazer do seu trampo um lugar melhor.
E vai encontrar o vazio e o silêncio das teclas nas outras baias.
Então com o tempo vai cessar a sua vontade de mandar e-mails ou de dar ideias. Você vai voltar a entrar de cabeça baixa e bater suas pequenas metas. Detestar qualquer barulho diferente do comum. E comer em sua marmita de plástico. E ir embora de fretado, reiniciando tudo às 6h da manhã.
Dói ser gente, hein?
Abujamra, eterno
O dia em que você morreu, eu passei a pensar em todas as vezes que o vi citar autores de teatro que eu amaria ler, mas sei que jamais teria a sorte ou mesmo a disposição. Eu lembrei de cada vídeo no começo e no fim do programa, com um texto, um poema. Eu passei a tarde vendo fotos suas nas redes sociais, estampando matérias sobre a sua morte. Pessoas comovidas, chorosas, desferindo textões como esse daqui. Eu, que tenho mais assistido do que participado das redes, me vi só, lamentando a sua morte, mas sem querer que ninguém soubesse disso. Parte do meu plano semi diabólico de solidão.
Sabe que, eu tinha uma mania. Uma, bem específica sobre o Provocações. Eu respondia as perguntas, sempre, para qualquer convidado, respondia como se aquilo estivesse sendo perguntado para mim. Disparava a falar, sozinho, em casa, ate que viesse a próxima. Disparava porque, em geral, as pessoas não se estendiam muito nas respostas e eu queria era falar muito sobre cada um daqueles assuntos.
Coloquei ingenuamente numa lista de pendências existenciais estar, em algum momento da vida, sentado à sua frente, inadequado e desconfortável. Você foi embora e fiquei com as respostas guardadas.
A igreja criou a esperança, os bancos monetizaram-na.
E a vida é esse mar de gente perdida tentando se encaixar.
A vida é um teatro de improviso em looping eterno.
E a vida é miséria, confusão e sangue.
Ficou também numa realidade alternativa o nosso abraço, a única coisa falsa de seu programa. Assim como a foto, que só seria publicada quando um de nós dois partisse.
Que tenha encontrado paz.